Discos Fundamentais


Paulinho da viola e Elton Medeiros
Samba na Madrugada
1968



     Segunda metade da década de sessenta. Imaginem um país com sua população dançando ao som do iê iê iê importado pelos The Beatles, depois pense nesse mesmo país, protestando com as canções de Geraldo Vandré, adiante imagine uma transgressão cultural tropicalista comandada por Caetano Veloso e Gilberto Gil, por fim termine a viagem imaginária numa roda de samba, cantando musicas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti e dois jovens talentos Paulinho da Viola e Elton Medeiros. Terminada a excursão leia os jornais do dia e se assuste ao perceber que tudo isso acontece com a mais total e completa repressão que já se teve notícia, imprensa amordaçada, torturas, sindicatos na clandestinidade, políticos cassados, patrulhamento ideológico e no comando um grupo de generais que governam este país como se estivessem num quartel. Incrível não é? Mas esse país existiu e sobreviveu a tudo isso, cantando a sua musica popular e consolidando um patrimônio cultural extraordinário. Não preciso aqui dar maiores dicas, pois a esta altura todos já sabem de que país estou falando, ele fica abaixo da linha do equador é o maior da América Latina em tamanho e desigualdade e tem seu nome tirado de uma de suas riquezas nativas, uma arvore chamada pau brasil, que por tão bela ganhou uma letra maiúscula em seu nome batizando este imenso país/continente. Brasil!

     Assim, portanto, se vivia num permanente confronto entre a cultura e a anticultura, entre a liberdade e a repressão que por mais cruel que possa ter sido não conseguiu emperrar o surto ideológico de um povo que lotando as mesas de bar, os teatros e as pequenas casas de shows, vivia a plenitude de uma redescoberta de si mesmo, afirmando sua identidade/nacionalidade. Das jovens tardes de domingo, ao show Opinião, Rosa de Ouro, passeatas, festivais de música, essa geléia geral brasileira acabava invariavelmente sempre no mesmo lugar, numa mesa de bar e de preferência ouvindo um bom samba, foi assim que se criaram e se enraizaram em nossa cultura popular uma nova geração de sambistas que se fez ouvir país afora, produzindo com suas canções a antítese do medo, transformando-a em um sentimento lírico que a todos encantava.

     Nessa geração despontam dois nomes de muito talento, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, o primeiro teve o privilégio de se educar ouvindo musicas da melhor qualidade, principalmente o choro, já que seu pai, César Faria fazia parte do Conjunto Época de Ouro liderado por Jacob do Bandolim, conheceu também cedo o universo das escolas de samba e nelas captou toda a sua magia, materializando esse sentimento em lindas canções e numa excelente poética, o segundo, um pouco mais velho, vinha percorrendo os mesmos caminhos e igualmente se notabilizava. A convite de Hermínio Bello de Carvalho participaram do espetáculo Rosa de Ouro, depois já integrantes do conjunto A Voz do Morro gravaram alguns discos e por fim em 1968 dividiram um LP que intitularam Samba na madrugada, desfilando um rosário de lindas canções, algumas em parceria com Cartola, Zé Kéti, Mauro Duarte, Candeia, Casquinha e Hermínio Bello de Carvalho.

     Da lavra de Paulinho da Viola destacamos, Arvoredo, 14 anos, Minhas madrugadas, com Candeia, Recado, com Casquinha e Jurar com Lágrimas, de Elton Medeiros, também se destacam, Maioria sem nenhum, com Mauro Duarte, Sofreguidão, Injuria e O sol nascerá, com Cartola, Samba original, com Zé Kéti e Rosa de ouro, com Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho. No acompanhamento os dois artistas contam um time de primeira, Raul de Barros no trombone, Dino e Meira nos violões, Canhoto no cavaquinho, Copinha na flauta, Gilberto Luna e Jorge no ritmo. Este disco tem sua importância por retomar a linha evolutiva do samba de raiz, pelas belas canções, mas e principalmente porque ajudaria de modo irreversível na consolidação das carreiras desses dois notáveis artistas cujas obras posteriores atestam tudo que sobre eles já foi escrito.

     Esse breve comentário, contudo, não poderia terminar sem as palavras de Hermínio Bello de Carvalho, responsável pela produção do LP quando afirma na contra-capa: "Em Elton surpreendemos o melodista anti-convencional, de uma inventiva ilimitada. A poesia que eventualmente faz é também de qualidade. Já vi muito menino bossa nova esparramado de maravilhamento com a música de Elton. Paulinho é outro grande melodista, que desenvolve com extrema inteligência e bom gosto os seus temas. (...) Com simplicidade, vai tecendo musica e verso com uma justeza que raramente se encontra nos compositores de hoje. E que bom cantor, meus irmãos, que linda voz!".

     Agora so nos resta comprar o disco, já vertido para o CD ouvi-lo e nos deixar envolver com a mais pura fina flor do samba. O resto é redundância!



Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna 4 de maio de 2005.

Músicas:

1) Arvoredo (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola
2) Maioria sem nenhum (Elton Medeiros/Mauro Duarte) - Elton Medeiros
3) 14 anos (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola
4) Sofreguidão (Elton Medeiros/Cartola) - Elton Medeiros
5) Momento de fraqueza (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola
6) Minha confissão (Elton Medeiros) - Elton Medeiros
7) Perfeito amor (Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho) - Elton Medeiros
8) Mascarada (Elton Medeiros/Zé Kéti) - Elton Medeiros/ Minhas madrugadas (Paulinho da Viola/Candeia) - Paulinho da Viola/ Injuria (Elton Medeiros/Cartola) - Elton Medeiros/ Recado (Paulinho da Viola/Casquinha) - Paulinho da Viola/ O sol nascerá (Elton Medeiros/Cartola) - Elton Medeiros/ Jurar com lágrimas (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola Rosa de ouro (Elton Medeiros/Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho) - Elton Medeiros e Paulinho da Viola
9)Depois de tanto amor (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola
10)Samba original (Elton Medeiros/Zé Kéti) - Elton Medeiros
11)Alô alô (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola/ Sol da manhã (Elton Medeiros) - Elton Medeiros.

Ficha Técnica

Produção musical: Hermínio Bello de Carvalho
Raul de Barros: Trombone
Dino e Meira Violões
Canhoto: Cavaquinho
Elton Medeiros: Caixa de fósforos