A História da MPB

Nascimento e Morte da Bossa Nova


     Inegavelmente, nenhum outro movimento foi tão revolucionário na música quanto a Bossa Nova. Surgido por volta de 1958, renovou as harmonias e arranjos, dando à musica popular brasileira um cunho nacionalista. Segundo Edu Lobo, a Bossa Nova foi a primeira grande revolução em termos de estruturas rítmicas, a primeira linguagem nova que se usou para fazer música no Brasil, a partir das músicas de Jonnhy Alf, das letras de Newton Mendonça, da maneira de cantar e tocar de João Gilberto, de todo o talento criador de Tom, aquele que maior material apresentou. Foi realmente a grande abertura para que a música popular brasileira pudesse enveredar pelos caminhos modernos em que estava na ocasião e chegasse ao ponto de ter tantas opções, que ele considerava necessárias. De fato, essa opinião consciente de Edu Lobo mostra a verdadeira importância da Bossa Nova no Brasil. Criticada por alguns, a Bossa Nova foi tida como movimento elitista, mas poria abaixo esse ponto de vista ao trazer para sua realidade as músicas dos grandes compositores populares do passado, apresentando-as sob uma nova forma.

No primeiro disco de João Gilberto, o pivô do movimento, aparecem algumas dessas músicas, sob uma interpretação toda pessoal, com uma cadência mais acentuada, uma estruturação rítmica completamente renovada. Além do mais, a imaginação criadora de seus mentores dava margem a uma espontaneidade literária, a uma autêntica liberdade de criação, que até permitia o "ser desafinado". Por outro lado, pode ser observado um profundo sentimentalismo nas canções da Bossa Nova, através de uma linguagem pura, que usa com freqüência as palavras amor, ternura, coração e benzinho. No contexto nacional, a cidade brasileira mais cantada pelo movimento foi o Rio de Janeiro. Invadiu-a uma nostalgia repleta de lirismo e nunca suas belezas naturais foram tão decantadas. Exemplifica muito bem esse fato a Sinfonia do Rio de Janeiro, de Antônio Carlos Jobim e Billy Blanco.

Realizaram-se inúmeros shows de divulgação do movimento, como o ocorrido no dia 22 de setembro de 1959, na Faculdade de Arquitetura do Rio de Janeiro, ao qual compareceram em massa Tom Jobim, Sylvia Teles, Alaíde Costa, Carlos Lyra, Ronaldo Boscoli, Baden Pawell, Roberto Menesal, Oscar Castro Neves, Luís Carlos Vinhas, Nara Leão, etc. No seu segundo ano de existência oficial, a Bossa Nova criava um novo espaço para a música instrumental no Brasil. Foram formados os conjuntos Oscar Castro Neves, Tamba Trio e Roberto Menescal, que deram uma nova estética à música popular. Os ritmos afro foram explorados e a concepção de harmonia modernizou-se, ao sair do esquema tradicional. Por essa época, o aparecimento de valores era uma constante. Exatamente nessa fase, surgiram Sérgio Ricardo, Marcus e Paulo Sérgio Valle, Edu Lobo, Dori Caymmi, Baden Powell, etc. De 10 a 15 de maio de 1960, era realizado o primeiro festival nacional de Bossa Nova, no Teatro Record, em São Paulo, produzido por Ricardo Amaral e A. J. S. Lemos Britto, com direção e roteiro a cargo de Ruy Afonso, do qual participaram Carlos Lyra, Juca Chaves, Elza Soares, Alaíde Costa, Geraldo Vandré, Laís Barreto, Os Jograis, Roberto Ribeiro como violonista e o Conjunto Oscar Castro Neves, formado por Oscar (;piano e guitarra), Iko (baixo), Luiz Carlos Vinhas (piano), João Mário (bateria), conjunto vocal e bailarinas. Na ocasião, a Bossa Nova já tinha um grande público entre nós e os críticos realmente a consideravam como sendo um grande movimento renovador, alguns deles nela sentindo a influência do Jazz.

Um veículo cultural que tomou grande impulso com o advento da Bossa Nova foi o teatro, sendo então lançadas as peças "Pobre Menina Rica", com música de Carlos Lyra e texto de Vinícius de Moraes e "A Mais Valia Vai Acabar Seu Edgard", de Oduvaldo Vianna Filho e Carlos Lyra. O Teatro de Arena surgia nessa época, com muita força. Em 1962, era iniciada, na Boite Au Bon Gourmet, uma série de shows da Bossa Nova, dos quais sempre participavam João Gilberto, Vinícius de Moraes, Antônio Carlos Jobim, Os Cariocas e outros, numa produção de Aloísio de Oliveira. Na ocasião, o movimento já se tinha tornado conhecido no exterior e o empresário norte-americano Sidney Frey, presidente da Audio Fidelity, veio ao Brasil, a fim de contratar os artistas da Bossa Nova para uma temporada no Carnegie Hall, em Nova York. Em 21 de novembro desse mesmo ano, as portas da maior casa de espetáculos do mundo se abriam para os músicos brasileiros. Os meios de comunicação dos Estados Unidos deram enorme cobertura ao evento e aos cinco microfones da Audio Fidelity, foram acrescentados os da C. B. S. News, da Voice of América, da U. S. Information Agency e os do teatro (para som interno). Os ingressos haviam-se esgotado dois dias antes do concerto e calcula-se que mais de 1000 pessoas ficaram do lado de fora do teatro.

Um pouco depois das nove horas da noite, foram descerradas as cortinas e o Sexteto Bossa Rio, de Sérgio Mendes deu início ao espetáculo, interpretando "Samba de Uma Nota Só". A grande sensação da noite foi, sem dúvida, a dupla Agostinho dos Santos e Luiz Bonfá, que apresentou um pot-pourri de músicas do filme "Orfeu de Carnaval", ganhador da Palma de Ouro em Cannes. O público aplaudiu delirantemente a música popular brasileira. Ao terminar o show do Carnegie Hall, praticamente também teria fim a Bossa Nova, pois alguns dos músicos que mais força haviam dado ao movimento, resolveram permanecer nos Estados Unidos. Em dezembro de 1962, seria criada, aqui no Brasil, por Aloísio de Oliveira, a gravadora Elenco, que logo em seu primeiro ano de existência lançaria uma série de quatro discos: o de Vinícius de Moraes e Odete Lara, o de Lúcio Alves, o de Baden Powell e Jimmy Pratt e o do Conjunto Roberto Menescal. O objetivo de seu criador era "continuar e registrar o trabalho de compositores e intérpretes, que naquele momento não encontravam um veículo para divulgar os seus trabalhos", já que haviam sido dispensados de sua gravadora.