A História da MPB

A Morte de Carmem Miranda


     Em maio de 1955, a Pequena Notável faria suas últimas apresentações, aparecendo para o público de Las Vegas e Havana. Depois de quatorze anos de ausência, visitaria pela última vez o Brasil, já mostrando profundo esgotamento nervoso. Era 03 de dezembro de 1954. Depois de aqui ter sido homenageada, regressa, em abril, para os Estados Unidos. A 05 de agosto de 1955, aos 46 anos de idade, sucumbiria em sua casa, situada em Beverly Hills, acometida por um colapso cardíaco, após as filmagens para um programa de televisão, feitas com Jimmy Durante.

Seu desaparecimento foi notícia em Hollywood, onde era muito popular e os grandes jornais Nova-iorquinos deram enorme destaque à sua morte. O New York Herald Tribune deu à sua edição três colunas na sua primeira página; o Daily Mirror dizia, numa gigantesca reportagem, que Carmem era a artista mais bem paga dos Estados Unidos; o Daily News afirmou que depois de sua estréia, seu sucesso fora tão grande que ela se transformara na artista que maior sensação causava nos Estados Unidos; o New York Times chamou-a de protótipo do tipo feminino, com sua maneira extravagante de se apresentar; no Brasil, a Gazeta de Notícias publicou, em primeira página, uma matéria intitulada: "Maior que o de Chico Alves o enterro de Carmem Miranda!" e em seguida dava algumas notícias do sepultamento. Seu corpo chegou ao Brasil no dia 12 de agosto, sendo velado na antiga Câmara dos Vereadores do Rio. Mais de quinhentas mil pessoas acompanharam, chorando, os funerais da querida cantora popular, enquanto cantavam (em surdina) os seus maiores sucessos. Estavam ausentes, por esgotamento nervoso, a progenitora e a irmã (Aurora) da atriz.

Cenas pungentes aconteceram no cemitério. Setenta e cinco sepulturas foram danificadas pela multidão. O número de seus jazigo é 1724 -E 1. Várias personalidades do mundo político, social e cultural se manifestaram diante do acontecimento. Jorge Guinle: "Nossa dívida para com ela nunca poderá ser saldada" ; Sra. Carlos Eduardo de Souza Campos: "O Brasil e a sua música popular perderam uma grande intérprete"; Embaixador Negrão de Lima: "Foi, a seu modo, uma admirável e efetivíssima embaixatriz do Brasil"; Almirante: "Foi por querer cantar a música brasileira que ela morreu"; Assis Valente: "Carmem Miranda foi minha obsessão"; Ary Barroso: "fiquei surdo, mudo, cego, paralítico de emoção"; Mário Reis: "Não creio que Carmem tenha morrido"; André Filho: "As pessoas que honram e ficam consagradas na música popular, não morrem. Ficam para sempre".

Nos Estados Unidos, onde Carmem fizera sucesso e carreira, as opiniões daqueles que compartilharam de sua vida artística foram as mais elogiosas. Daryl Zanuck, chefe dos estúdios da 20th Century Fox declarou: "Carmem Miranda foi uma grande atriz, que trouxe um novo estilo profissional ao teatro e à tela. Sua personalidade era tão vivaz e deslumbrante que dificilmente poderá ser substituída no teatro". George Murphy, porta-voz da Indústria Cinematográfica Americana, afirmou: "Carmem era uma artista das mais destacadas de nossos tempos. Causa profunda dor que aquela que representou, com tanta graça, um grande país latino-americano se haja retirado de cena para sempre". Joe Pasternack, diretor de Carmem, que lhe havia dado o papel principal no filme "Meet me in Las Vegas", comentou, emocionado: "Não sei o que pensar.

É demasiada a surpresa. Porém Carmem continuará sempre conosco. Viverá eternamente na recordação dos milhões de pessoas a quem deleitou com sua arte e sua personalidade". Em Beverly Hills, realizou-se uma missa pelo padre Charles Dignan, na Igreja do Bom Pastor, ocasião em que o padre Charles diria: "Carmem Miranda entregou-se inteiramente à tarefa de tornar os outros felizes. Literalmente, ela havia posto todo o seu coração em sua dança e em seus cantos. Agora ela está morta". Em 1956, o governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima, assinaria a lei n 886, criando o Museu Carmem Miranda para a guarda de seus pertences, doados pelo seu marido David Sebastian. A 07 de novembro de 1960, era inaugurado seu busto, esculpido por Matheus Fernandes, no Largo da Carioca.