A História da MPB

O Lançamento do Baião por Luiz Gonzaga


     Na pequena cidade de Exú, no interior de Pernambuco, seu Januário José dos Santos e D. Ana Batista de Jesus, teriam seu segundo filho, nascido no dia 13 de dezembro do ano da graça de 1912 e batizado com o nome de Luiz Gonzaga do Nascimento. Seu Januário era também sanfoneiro respeitado e animador de todas as festas locais e lhe satisfazia ver em seu filho o gosto pelo instrumento, contrariamente à sua mulher. Aos 18 anos, Luiz Gonzaga, já tocando muito bem a sanfona, tomou a resolução de deixar para sempre a cidade onde nascera. Alistou-se no exército, tornando-se recruta n 122, justamente na época em que estourava a revolução de 1930. Depois de ter lutado na Paraíba, contra os revoltosos, foi a várias cidades do Norte. Em Terezina, conseguiu ser engajado numa tropa que ia para o Sul. Passou por Minas e depois por São Paulo. Em 1939, estava no Rio de Janeiro.

Resolvido a ganhar a vida com o instrumento que tão bem dominava, Luiz começou a tocar no mangue do cais do porto. A seguir, foi a vez de mostrar seu talento nos programas de calouros das rádios. Inicialmente, fracassou, ganhando depois com "O Vira e Mexe", no programa de Ary Barroso, nota cinco e um prêmio de quinze mil réis,. Daí por diante, seu nome começaria a aparecer. No dia 1 de março de 1940, gravou seus dois primeiros discos, como solista de sanfona, interpretando as músicas "Véspera de São João" e "Numa Seresta". Fez carreira nas rádios cariocas, até 1944, quando seria despedido da Rádio Tamoio. Já havia gravado cerca de setenta composições, todas com ritmos do Nordeste. Em 1945, conheceu Humberto Teixeira, com quem iria lançar definitivamente o Baião no Sul do país. A parceria foi muito fecunda e, como o mercado mostrava-se aberto para a música nordestina, logo surgiu uma variedade de composições da autoria da dupla. No dia 24 de maio de 1946, um de seus grandes êxitos, a composição intitulada "Baião", gravada pelo grupo "Quatro Azes e Um Coringa", em disco Odeon n 12724, consolidaria a aceitação do gênero por todo o país.

Com a indumentária de vaqueiro e um linguajar tipicamente nordestino, Luiz Gonzaga levou a todo o território nacional, através de sua música, os costumes, o folclore e os problemas do Nordeste brasileiro, uma região esquecida. Em 1947, o já chamado Rei do Baião se imortalizaria com a famosa "Asa Branca", gravada em disco RCA Victor. Apesar do enorme sucesso da parceria com Humberto Teixeira, esta teria fim quando, em 1950, Humberto se elegeu deputado. Mas Luiz Gonzaga encontraria um outro parceiro tão bom quanto o primeiro: o médico José de Souza Dantas, mais conhecido como Zédantas, que morreu aos 41 anos de idade. São eles os responsáveis pela belíssima "Vozes da Seca", que constitui um alerta às autoridades e ao povo brasileiro para o difícil problema da seca no Nordeste. Luiz Gonzaga foi o primeiro artista tipicamente nordestino a conquistar os grandes centros e, através dele, de seu valioso trabalho, o nordestino passou a ser mais respeitado, quando veio à tona a riqueza de sua cultura. Sua influência foi mais marcante que a de Catulo, no início do século, pois enquanto este deu ênfase apenas ao lirismo em seus trabalhos literários e nas letras de suas músicas, Luiz Gonzaga sempre deixou transparecer em sua obra a preocupação maior de levar ao conhecimento de todos os valores da cultura e da arte nordestina.