A História da MPB

O Sucesso dos "Oito Batutas" no Exterior


     Nos primeiros dias de janeiro de 1922, começaram a surgir rumores de que "Os Oito Batutas" iriam fazer uma temporada em Paris e tais rumores tornaram-se realidade, pois marcou-se a viagem do grupo para o dia 29 desse mesmo mês. Seu articulador foi o dançarino Duque (Antônio Lopes de Amorim Diniz) e o financiador, o empresário Arnaldo Guinle, grande admirador do grupo. A temporada seria realizada no elegante Dancing Sheherazade, situado em Faubourg Montmatre, n 16, do qual Duque era diretor artístico.

     Os irmãos Palmieri, não podendo ir, foram substituídos por Sizenando Santos (pertencente ao Clube dos Fenianos e tocador de pandeiro) e José Monteiro (cantor e ritmista) e ainda por J. Thomaz (ritmista), que desistiu, não se sabe por que, no dia da partida. O conjunto, restrito a sete componentes e com a denominação de "Os Batutas", deixou o Rio, a bordo do navio Massila, da Companhia Francesa de Navegação - Sud Atlantic et Chargeurs Réunis. No dia 11 de fevereiro, o navio atracava no porto de Bordeaux e, daí, seguiria o grupo, de trem, para Paris. O primeiro programa de "Les Batutas" no Sheherazade foi o choro "Oito Batutas", de Pixinguinha e a marcha carnavalesca "Fala baixo", de Sinhô. Pixinguinha arrebatava o público francês com suas peripécias na flauta, ao tempo em que entusiasmava os artistas locais.

     No Brasil, as opiniões se dividiam: Uns achavam absurdo o país estar representado, no exterior, por negros e outros aplaudiam os feitos dos rapazes, que chegavam ao povo através da imprensa. Após todas as apresentações, os espectadores ovacionavam, de pé, os nossos artistas, que, no dia 1 de agosto de 1922, regressavam ao seu país, a bordo do navio Lutetia, para participar dos festejos do centenário da Independência. Nessa ocasião, receberam convite de T. H. Cairo, diretor do Teatro Empire de Buenos Aires para uma nova temporada. No dia 20 de novembro, o conjunto embarcou para a Argentina, com a seguinte formação: Pixinguinha (flauta e saxofone), J. Thomaz (bateria), China (violão e voz), Donga (violão e banjo), Josué de Barros (violão), Nelson Alves (cavaquinho), J. Ribas (piano) e José Alves (bandolim e ganzá).

     A temporada argentina foi tão longa quanto a de Paris, começando, com enorme êxito, a 7 de dezembro. No princípio de janeiro de 1923, as apresentações passaram a realizar-se no Cine El Prata; um mês depois, no Teatro Ideal y Avenida Hall, em La Plata. No dia 27 de março, o grupo estreava no Teatro Español, na localidade de Chivilcoy, contratado pela empresa Delle Donne y Franco. Foi um sucesso extraordinário a passagem dos "Oito Batutas" pela Capital Portenha, onde gravaram dez discos (vinte músicas).

     Apesar de todo o brilhantismo da temporada, acabou havendo desentendimentos entre os rapazes, o que os conduziu à separação, ficando uma parte liderada por Pixinguinha e China e a outra por Nelson Alves e J. Thomas e ainda por Aristides Júlio de Oliveira, que se tinha incorporado ao grupo durante a excursão. Estes últimos retornaram ao Rio, deixando os demais em situação financeira delicada, expostos a toda sorte de vexames. O consulado brasileiro em Buenos Aires interveio e lhes assegurou a passagem de volta. Depois desse episódio, a separação consolidar-se-ia definitivamente. Na categoria de conjunto musical, foram "Os Batutas" os primeiros a levar a música brasileiras para além de nossos limites territoriais.