A História da MPB

Os Astros do Início do Século


     Mário Pinheiro

     Nascido no Rio de Janeiro, por volta de 1880, Mário Pinheiro começou sua carreira de artista num circo da Piedade, onde foi muito vaiado. Apresentou-se como cantor, com sua voz de barítono, no Passeio Público, sempre acompanhando-se ao violão. Foi então contratado por Fred Figner, gravando modinhas, cançonetas e lundus para a Casa Edison. Em 14 de julho de 1909, participa do espetáculo de inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, fazendo a parte do Tapir, na ópera "Moema", de Delgado de Carvalho. Por volta de 1910, grava discos na Colúmbia norte-americana. Provavelmente nessa época é que foi contratado pela Victor, viajando para os Estados Unidos e gravando, em Camden, mais de cem discos de dez e doze polegadas. Aí deve ter ficado até 1912, quando viajou para a Itália, a fim de aperfeiçoar sua voz, lá permanecendo até 1917. Casou-se com uma harpista do Teatro Scalla de Milão chamada Aída. Em 1917, regressa ao Brasil e recomeça a gravar na Odeon. A 12 de setembro de 1918, participa, no Teatro São Pedro, de uma noite em homenagem a Catulo da Paixão Cearense. Grava discos para a Casa Edison até 1920. Com o aparecimento de novos cantores, Mário começa a viver dias difíceis, que culminam com a separação de Aída. A partir de então, sua condição financeira vai-se agravando até que, por fim, é internado com volvo na Casa de Saúde Afonso Dias, na rua Aristides Lobo, no Rio Comprido. A 10 de janeiro de 1923, morre, na mais completa miséria. Mário Pinheiro foi um dos artistas mais populares do Brasil, nas duas primeiras décadas deste século, e, na sua época, foi também o cantor que mais gravou. Entre suas grandes interpretações, salientam-se: "Talento e Formosura". de Catulo, "Gondoleiro do Amor", de Castro Alves e Fabregas e "Casinha Pequenina", de autor desconhecido.



Eduardo das Neves

     Eduardo das Neves nasceu no Rio de Janeiro, em 1874. Era também conhecido como Palhaço Negro, Diamante Negro e Crioulo Doido. Aos 21 anos, ingressou como guarda-freios da Estrada de Ferro Central do Brasil, logo sendo demitido por participar de greve, após o que foi trabalhar como soldado do Corpo de Bombeiros, também cedo sendo demitido por usar a farda em festas boêmias dos subúrbios. Em 1895, começou a aparecer como palhaço de circo, trabalhando para o Circo Pavilhão Internacional, o Teatro Circo François, o Parque Rio Branco e o Teatro do Passeio Público. Visitou vários estados brasileiros, sempre cantando modinhas de sua autoria, acompanhando-se ao violão. Foi contratado para a Casa Edison juntamente com Cadete, Mário Pinheiro, Baiano e outros, que formaram o primeiro time de artistas a gravar no Brasil. Muito querido pelo povo, Eduardo das Neves deixou uma série de músicas gravadas, entre elas a homenagem a Santos Dumont, quando este sobrevoou Paris, pilotando o 14-Bis. É de sua autoria a versão da canção Italiana "Vieni Sul Mar" (Ó, Minas Gerais), até hoje cantada, quando se quer homenagear aquele estado brasileiro. Morreu no dia 11 de novembro de 1919, no Rio de Janeiro, deixando uma grande lacuna no cancioneiro popular, preenchida, mais tarde, pelo talento de seu filho "Índio" Cândido das Neves.



Catulo da Paixão Cearense

     Sem dúvida alguma, o ourives Amâncio José da Paixão Cearense e dona Maria Celestina Braga da Paixão, jamais poderiam imaginar que seu filho, nascido no dia 08 de outubro de 1863, no sobrado de nš 66, da antiga rua Grande, em São Luiz do Maranhão, seria o maior trovador que o país já tivera. Devido às necessidades sofridas pela família, veio a resolução de mudança para o sertão do Ceará, onde sua permanência foi curta. Em 1880, a família muda-se novamente, desta vez para o Rio de Janeiro, indo morar na rua São Clemente, nš 37. Ao chegar à capital do país, Catulo começou a freqüentar uma república de estudantes, onde conheceu os flautistas Callado e Viriato, o cantor Cadete, o violonista Quincas Laranjeira e um estudante de medicina, que lhe ensinou a tocar violão. Em poucos anos de vida no Rio, Catulo perderia seus pais, sendo obrigado a se sustentar, para poder sobreviver. Foi trabalhar no cais do porto como estivador, passando suas noites na boemia. Certa feita, convidado para uma festa na casa do senador e conselheiro do Império, Gaspar da Silveira Martins, tornou-se o centro das atenções. Logo foi contratado para ser instrutor de música dos filhos do senador. Daí por diante, sua vida mudou: Catulo passou a ser conhecido e respeitado nos meios intelectuais da época, sempre fazendo serenatas. Com o advento das gravações no Brasil, teve várias de suas músicas gravadas pela belíssima voz de Mário Pinheiro. Em 1908, mais precisamente a 05 de julho, foi convidado para uma audição no salão do Instituto Nacional de Música, acompanhado por seu violão, conseguindo assim o que parecia impossível: Levar um instrumento maldito para um salão de elite. Extraordinário foi o sucesso alcançado, o que lhe proporcionaria o privilégio de ser recebido no Palácio do Catete pelos presidentes Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca e, no fim da vida, por Getúlio Vargas. Apesar da fama, Catulo não conseguiu ficar rico, mesmo com a publicação de seus livros, que estavam sempre entre os mais procurados. Levava vida desregrada e nela abandonou-se totalmente depois que o violonista João Pernambuco açambarcou para si o direito de autoria de "Luar do Sertão". Nos seus últimos dias de vida, morava num barracão situado na antiga rua Francisca Meier, nš 21, no Engenho de Dentro. Em 1939, o poeta, através de seu amigo Paraguassu, realizou uma série de recitais na Rádio Cosmos de São Paulo e no Palácio dos Campos Elísios, a convite do interventor Adhemar de Barros. Apesar da vultosa quantia de vinte contos de réis, recebida das mãos do interventor, Catulo morreria pobre, pois tinha cedido todos os seus direitos autorais a seu "amigo" Guimarães Martins. Em 10 de maio de 1946, desaparecia para sempre.