A História da MPB

O Surgimento das Primeiras Gravações


     Para se falar da história das primeiras gravações feitas no Brasil e, conseqüentemente, dos primeiros discos, temos que mencionar obrigatoriamente o precursor do evento em nosso país. Frederico Figner era seu nome. Tchecoeslovaco de origem judaica, nascido em Milevsko u Tabor, na então Boêmia, no dia 02 de dezembro de 1866. Fred Figner, como ficaria conhecido, comprou um fonógrafo e um certo número de rolos e resolveu divulgar o invento de Edison pelas Américas. Nos Estados Unidos, o nosso pioneiro ouviu falar do Brasil e decidiu-se a enfrentar a aventura de levar o novo invento ao país desconhecido. Começou sua peregrinação por Belém do Pará, onde desembarcou por volta de 1891. Incluídas no roteiro da embarcação, onde viajava o aventureiro comerciante, estavam as cidades de Manaus, Fortaleza, Paraíba, Natal, Recife e Salvador.

     Finalmente, em 21 de abril de 1892, chegava ao Rio de Janeiro. Em 1904, com a invenção do gramofone com discos de cera pelo germano-americano Émile Berliner, Fred Figner implantaria esse sistema no Brasil, lançando-o através da patente zon-o-phone nš 3465, da International Zonophone Company e, eliminando assim os cilindros do mercado. Com a produção em massa de discos no Brasil, a partir de 1904, Figner precisou enfrentar o problema da produção artística, o que resultou em benefícios para a música popular brasileira. Uma das vantagens iniciais dessa transformação foi a ampliação do mercado de trabalho para os músicos populares, pois até o momento da fundação da Casa Edison no Brasil, as únicas possibilidades de se ganhar dinheiro como músico eram a edição de composições em partes para piano, o emprego em casas de música, o trabalho eventual em orquestras estrangeiras de teatro, a conquista de um lugar nas orquestras e finalmente o engajamento como instrumentista em bandas militares. A principal contribuição adquirida com o surgimento dos discos no Brasil foi a profissionalização do músico. Em abril de 1913, Fred Figner contaria com a sua fábrica de discos Odeon, instalada na rua 28 de Setembro, nš 50, bairro da Tijuca, com todo equipamento importado da Alemanha. Com isso, Figner ganhava não somente a condição de controlar a qualidade, mas também de baratear o custo do disco, ganhando em velocidade, ao se livrar das esperas de remessas, via marítima, da Europa até o Rio.

     Em fins de 1919, surgiria um concorrente do velho pioneiro. Era João Gonzaga, filho de Chiquinha Gonzaga, o qual trabalhou durante muito tempo como chefe de gravação da Casa Edison e resolvera tentar a vida de empresário, instalando um estúdio na rua Barão do Bom Retiro. Em meados de 1920, depois de lançar uma dúzia de discos, o filho de Chiquinha Gonzaga encerrava a curta carreira de empresário, fechando a fábrica "Disco Popular", que ficaria na história como a primeira tentativa de implantação da indústria nacional do disco. A Victor Talking Machine Corporation, sediada em Camden, Nova Jersey, alugaria, em 1926, o Teatro Phoenix para lançar no Rio de Janeiro sua mais fantástica novidade: a Victrola Ortofônica Auditorium. Diante dela, os comerciantes brasileiros nada podiam fazer e, em 1927, com o advento das gravações pelo sistema elétrico, iriam desaparecer as velhas marcas nacionais e as patentes Odeon, que, revelando-se inúteis ao velho Figner, permitiriam que a própria matriz européia se estabelecesse no Brasil, para concorrer, a partir da década de trinta, com suas duas rivais americanas, a Victor e a Colúmbia.