Discos Fundamentais

Marisa Monte Verde
Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão
1994




    
Estamos vivendo um momento critico na musica brasileira parece que a atual geração não acompanhou qualitativamente os artistas que surgiram nos anos sessenta e setenta, caminhamos para a massificação de uma musica pop que pouco tem a nos oferecer em termos de renovação, isso sem falar que a avalanche de grupos de rock que tem surgido tem provocado um esvaziamento da cena musical brasileira daqueles artistas considerados como tradicionais. A crise de renovação é alarmante, banalizou-se a canção tornando-a apenas um produto de mídia, e as ondas se sucedem, pois, se não bastasse o pop/rock temos agora lambadas, sertanejos, pagodeiros, axé e um grande lixo musical que liquida com todo um passado recente de glórias conquistadas pela musica popular dentro e fora de nossas fronteiras.

     Artistas que há pouco eram considerados verdadeiros ídolos de massa e produziam uma musica de qualidade agora so faltam pedir por favor para que as rádios executem seus discos e sua nova produção seja conhecida, sofrendo ainda o preconceito de serem taxados de ultrapassados. Não temos mais as presenças marcantes de Clara Nunes, Elis Regina e Gonzaguinha, não se renova como antes o cenário de compositores e intérpretes, pelo menos que se tenha noticia com alguma visibilidade, porém, isso não quer dizer que eles não existam, apenas não são considerados, pois, nunca terão vez nesse cenário atual de nossa canção e a sua única culpa é o fato de realizarem um trabalho de qualidade, palavra retirada do dicionário dos divulgadores e das multinacionais do disco, mas confiamos que nem tudo esta perdido e daremos a volta por cima.

     A introdução desse texto escrito propositadamente no tempo passado reflete não so um pensamento pessoal mas também o de todas as pessoas lúcidas que acompanhavam o desenvolvimento/retrocesso da musica popular brasileira entre os anos 80 e inicio da década de 90. É uma análise superficial é claro mas traduz uma idéia, um sentimento generalizado do que se passava na ocasião, mantendo acesa uma chama de esperança que viesse a surgir do caos que se instalava.

     A geração que se formava sem uma proposta definida de valores buscava a todo custo um rumo a seguir, porem, faltava-lhe identidade, afirmação cultural, compreensão do mundo, e este lhe surgia como um objeto de consumo fácil de se adquirir, massificaram inclusive a infância retirando-lhe os verdadeiros sentimentos e necessidades pueris substituindo-os por um mundo encantado de Xuxas, Angélicas etc.. onde as pobres crianças eram apenas objeto de consumo para esses artistas que viram nelas um potencial enorme de ganhar dinheiro, e o universo infantil veio somar-se ao cruel mercantilismo anticultural que tomava conta de todas as fronteiras de nossa musica, assim a canção de roda e a ingenuidade infantil foi dominada e trocada pelos apelos eróticos e artificiais de ídolos que lhes enganavam todos os dias com um apelo fácil e cada vez mais envolvente traduzido depois em múltiplas formas de consumo, desde um simples lápis ate bonecas caríssimas todas exemplarmente identificadas com as “rainhas” de então.

     Os valores mudaram de lugar, o mundo parecia que estava de cabeça para baixo. Era triste ver como essa geração iria se posicionar, pois a proposta era que ficasse com as mentes vazias e os bolsos cheios de dinheiro para consumir cada vez mais freneticamente o que o mercado musical tinha a lhe oferecer, nada, simplesmente nada.

     Mas eis que no meio de tudo isso uma voz vem surgindo, a força da renovação que tanto procurávamos se faz presente, não estamos vencidos, e a melodia doce, suave, forte de seu canto vem nos dizer que a musica brasileira sobrevive, ainda esta la altiva conquistando o merecido aplauso. Essa voz que nos encantou dando um sopro de esperança a musica popular contribuindo para uma reflexão e revisão de alguns conceitos errôneos vinha de uma bela e jovem interprete, Marisa Monte. Seu disco de estréia em 1989 arrasou, seu talento venceu as barreiras da mediocridade que se generalizava, em seu canto não havia apelação, apenas talento. Diante da grande crise de renovação que se operava, ela veio como um furacão a mostrar os caminhos seguros que a musica popular brasileira deveria seguir, percebeu o passado e o cantou de modo exuberante, sua interpretação de Rosa de Pixinguinha é sublime, observou que o cenário do pop/rock não era feito apenas de artistas liquefeitos e buscou o que eles tinham de melhor a oferecer e cantou Comida dos Titãs de maneira inesquecível.

     Seguiram-se outros trabalhos e a sua voz mantinha (mantêm) com galhardia a tradição de nossas grandes cantoras. Uniu-se aos melhores artistas de sua geração e com eles mostrou seu talento de compositora, verificou que a cena musical caminhava para uma reestruturação conceitual e era preciso abrir alas e mostrar sua verdadeira face, muito escondida, assim surge a produtora e divulgadora do samba de raiz em magníficos trabalhos junto com a Velha Guarda da Portela valorizando e divulgando a autentica musica nacional.

     Entre seus discos, todos excelentes, destaca-se Verde anil amarelo cor de rosa e carvão, lançado em 1994, em que seu talento de compositora se sobressai em canções como, Na estrada , com Nando Reis e Carlinhos Brown, De mais ninguém e Bem leve , com Arnaldo Antunes, O céu e Enquanto isso , com Nando Reis. Conquistou também o premio de melhor clip do ano com Segue o seco , de Carlinhos Brown. Demonstrando que sabe aliar com maestria o tradicional e o novo, Marisa Monte interpreta de modo definitivo os sambas Dança da solidão , de Paulinho da Viola e Esta melodia , de Bubu da Portela e Jamelão.

     Numa época de incertezas e descaminhos a voz e o talento de Marisa Monte recolocou a musica popular brasileira novamente nos trilhos reafirmando nossa vocação para a superação.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 19 de outubro de 2005.


MÚSICAS:
01)Maria de verdade (Carlinhos Brown)
02)Na estrada (Marisa Monte/Nando Reis/Carlinhos Brown)
03)Ao meu redor (Nando Reis)
04)Segue o seco (Carlinhos Brown)
05)Dança da solidão (Paulinho da Viola)
06)De mais ninguém (Marisa Monte/Arnaldo Antunes)
07)Alta noite (Arnaldo Antunes)
08)O céu (Nando Reis/Marisa Monte)
09)Bem leve (Marisa Monte/Arnaldo Antunes)
10)Balança pema (Jorge Benjor)
11)Enquanto isso (Marisa Monte/Nando Reis)
12)Esta melodia (Bubú da Portela/Jamelão)

Ficha Técnica
Produção: Aito Lindsay
Co-produção: Marisa Monte
Direção executiva: Leonardo Netto
Gravação e mixagem: Patrick Dillet
Coordenação de produção: Claudia Puget (Rio de Janeiro)/Jeff Young (Nova York)
A&R EMI João Augusto
Estúdios: Nas Nuvens (Rio de Janeiro)/Skyline (Nova York)
Assistentes de estúdio: Guilherme Caliccio (Rio de Janeiro)/Matt Curry e Rich Lamb (Nova York)
Roadie: Alexandre Saieg (Rio de Janeiro)
Transaferência análogo/digital: MYTEK Tecnologies
Masterização: Denílson Campos (Promoaster – Rio de Janeiro)/Scott Hull (Masterdisc/Nova York)
Design: Glória Affalo e Sula Danowski
Ilustração: Marcos Martins
Demibold Edição e Projetos Gráficos
Fotos: Mustapha Barat - base para ilustração da capa do LP, Marisa na capa do encarte e Laurie no encarte.
Fabio Ghivelder – Marisa na contra-capa do LP, Bernie e Marisa no encarte.
Coordenação gráfica: EMI/Egeu Laus.

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