Discos Fundamentais

Fernando Lona
Cidadão do Mundo
1977




     A velocidade da comunicação nos dias de hoje nos da oportunidade de ficarmos bem informados sobre tudo que se passa no mundo sem ao menos sairmos de casa, é claro que a televisão já há algumas décadas com a transmissão via satélite diminuiu o espaço entre os acontecimentos e a sua divulgação, porém, com o advento da Internet temos a informação em tempo real, ou seja, podemos acompanhar o que acontece no mundo no instante exato em que o fato se deu, isso nos deixa permanentemente conectados com o nosso tempo de maneira impressionante.

     Ocorre que essa comunicação integrada e simultânea provoca nas pessoas uma espécie de dependência tecnológica e ao mesmo tempo estimula a não preservação ou manutenção de valores que deverão ser perpetuados, é a fase do o que vale é o aqui e o agora, ou seja, o futuro não existe, acabou a perenidade de valores, o consumo e o aproveitamento dos bens culturais são imediatos, é o consumo e a moda que comanda o espetáculo, nosso futuro é o vazio, a escuridão, os ídolos são de pano, deixaram de existir, ou já surgiram com prazo de validade, após o vencimento, joga-se fora, e compra-se outro e assim a humanidade vai vivendo e se acostumando com o fim de suas paixões duradouras, o nada é o nada, o horizonte não existe, será criado e se esvairá no momento que vencer seu prazo, criaremos então outras modas, iremos vivenciá-las por um certo período e deixaremos de existir no presente, pois não teremos futuro nem um olhar para trás, esse apenas estará registrado nos livros e na memória de quem não aderiu ou nasceu antes da declaração mundial da falta de memória coletiva.

     Mas se esse é um momento em que já vivemos isso não significa que não possamos nos remeter aos remotos ou recentes tempos idos e reviver alguns personagens cuja trajetória foi decisiva para a compreensão de seu tempo mas que devido a sua curta permanência na Terra acabaram sendo esquecidos ou não relembrados e perenizados em função de seu valor e contribuição cultural. O esquecimento do passado/presente aliás é um sinal inequívoco da fúria comunicativa/informativa/interativa que nos toma conta nos dias que correm.

     Essas reflexões nos trazem portanto a mente a figura de um compositor baiano que há muito deveria ter sido redescoberto pelas novas gerações, e que as velhas tendem a deixar no esquecimento. Trata-se de Fernando Lona, nascido na cidade de Ubaitaba, sul da Bahia em 19 de março de 1937. Compondo e tocando violão desde garoto, iniciou suas carreira artística em Salvador em programas da TV Itapoã e em 1963 teve sua primeira musica gravada, Lamento de Justino, em parceria com Orlando Sena, integrante da trilha sonora do filme Grito da Terra, de Olney São Paulo. Projetou-se ainda mais realizando inúmeros shows individuais na capital baiana e participando dos espetáculos Nós por exemplo e Nova bossa velha e velha bossa nova, com um emergente grupo de artistas integrados por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé. Em 1966 sua musica Porta estandarte, com Geraldo Vandré, ganhou o primeiro lugar no Festival Nacional de Musica Popular promovido pela TV Excelsior de São Paulo.

     Inteiramente engajado em seu tempo, Fernando Lona, atuou como diretor, ator e compositor de trilhas de inúmeras peças teatrais, como O Desenbestado, de Ariovaldo Matos e Arena canta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri. Em 1972 compôs a trilha sonora da novela Sol amarelo da TV Record e no ano de 1974 inauguraria o Teatro Gamboa em Salvador musicando a peça Santa Maria Egípcia e trabalhando como ator em As Criadas. Em 1977 lançou seu único LP intitulado Cidadão do mundo, reunindo 12 das suas mais expressivas composições, trata-se de um disco importante, pois revela Fernando Lona como um dos mais talentosos artistas de sua época, além de um excelente intérprete. O repertório composto por Desencanto; Três três; Queimada; Auto retrato; ABC; Fado das gaiolas e Caiado, com Carlos Pita; Cidadão do mundo e Estandarte de couro: Brazões, com Cid Seixas; Beira mágoa, com Jose Augusto; Águas do sertão, com Carlos Pita e César Ubaldo e Porta estandarte, com Geraldo Vandré, nos da uma verdadeira idéia do seu universo criativo e da forte influencia que o regionalismo musical nordestino se inseria em sua obra.

     As temáticas demonstram que apesar de sua permanente vivencia em grandes centros urbanos, é a imagem do interior que predomina. Em Desencanto, se mostra lírico e nostálgico, em Cidadão do mundo e Auto retrato se define e ao mesmo tempo questiona a própria existência como se buscasse uma resposta para seu próprio ser. Um disco autoral em que a beleza das canções traduzem uma personalidade voltada para a sua própria permanência como elemento integrante da paisagem rural brasileira e um sentimento nativista tão forte como um Jequitibá, cristalino como as águas do rio e penetrante como o por do sol.

     Apenas um único disco, mas o suficiente para se inserir dentre os mais significativos da música popular brasileira por revelar por inteiro um artista que aliava como poucos a beleza dos versos, da harmonia e as imagens fortes de sua época. Na Bahia já há quem diga ao se referir aos anos sessenta e setenta como no tempo do Fernando Lona.

     Em nenhum momento ele se intimida desnudando-se em seu canto e em sua mensagem, como se antevendo que este seria o filho único, o marco de sua existência marcada pela paixão da terra brasileira, rústica, árida e bela. No mesmo ano do lançamento desse seu LP Fernando Lona morreria num desastre automobilístico a 3 kilometros da cidade de Registro em São Paulo, às 15 horas de um sábado do dia 5 de julho de 1977, quando se dirigia para Curitiba onde apresentaria o show De cordel e bordel, no Teatro Paiol.

     Hoje seu canto ecoa nos ouvidos e na lembrança daqueles que lhe foram contemporâneos, mas basta ouvi-lo para perceber sua atemporalidade, e a Bahia e o Brasil ainda estão em falta com a sua memória.

Luiz Américo Lisboa Junior Itabuna,
7 de setembro de 2005.


MÚSICAS:

1) Desencanto (Fernando Lona)
2) Fado das gaiolas (Fernando Lona/Carlos Pita)
3) Três três (Fernando Lona)
4) Caiado (Fernando Lona/Carlos Pita)
5) Porta estandarte (Fernando Lona/Geraldo Vandré)
6) Queimada Fernando Lona)
7) Cidadão do mundo (Fernando Lona/Cid Seixas)
8) Beira mágoa (Fernando Lona/João Augusto)
9) Auto retrato (Fernando Lona)
10) Águas do sertão (Fernando Lona/Carlos Pita/Cesar Ubaldo)
11) ABC (Fernando Lona)
12) Estandarte de couro: brazões (Fernando Lona/Cid Seixas)

Ficha Técnica
Produtor fonográfico: Tapecar Gravações S/A
Supervisão: Jose Ribamar
Produção executiva: Luiz Mocarzel
Orquestrador: Leo Peracchi
Regências: Leo Peracchi e Wilson Mauro
Técnicos de gravação: Zilmar e Carlinhos
Layout: Kyong-IL Chun
Fotos: Juraci Dorea Falcão e Kyong-IL Chun

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