Discos Fundamentais
Velha Guarda da Portela
Tudo Azul
1999


     Alguém falou ultimamente que a musica popular brasileira morreu e o que nos resta é a saudade de um tempo em que ela com todo seu vigor se mostrava como um dos mais poderosos veículos de entretenimento e também um dos segmentos mais representativos de nossa cultura. Considero esses extremos de posicionamento muito perigosos, remetem-se a um radicalismo fundamentalista, pois como pode a musica brasileira morrer se ela mostra-se a cada dia mais renovada? É claro que nesta renovação a maior parte esta irremedialvelmente medíocre e nunca em tempo algum verificamos uma tal decadência musical e o que é pior, sendo patrocinada por rádios e televisões.

     Mas se a situação é grave ainda não é tempo de enterrarmos o defunto, ate porque ele mostra sinais de revigoramento e não se deixa abalar tão facilmente mesmo tendo parte de seu corpo necrosado, ou seja, existe partes saudáveis que resistem e em médio prazo ele estará totalmente curado, e o remédio para essa cura mesmo sendo ministrado em doses homeopáticas demonstra que é possível dar-lhe uma sobrevida com qualidade suficiente para que possa aos poucos retomar todo seu vigor anterior continuando assim uma jornada de glorias e respeitabilidade, portanto, dizemos que a musica brasileira esta na UTI mas em breve irá para o quarto e depois quando menos esperarmos terá alta e poderá extirpar todos os males que foram causados nos últimos anos, mas é uma recuperação lenta, contudo já da sinais muito positivos de regeneração, então tenhamos paciência, que no final seremos felizes novamente, mas enquanto a cura não retorna de maneira definitiva vamos nos deixar envolver pelos seus sintomas de recuperação que nesta agonia têem sido fundamentais para a preservação da real capacidade de renovar-se, dando-nos mostras de que por pior que seja o momento, o luto esta ainda muito longe de acontecer e no ritmo que vai ele não ocorrera jamais.

     Apesar de ter usado de metáforas para definir o processo deletério da musica popular brasileira nos últimos anos, o que em sua grande maioria não é novidade para ninguém, o fato é que temos de olhar o lado positivo desse processo, pois se ficarmos nos angustiando simplesmente pelo aspecto negativo teremos dificuldade para visualizar o que de bom tem sido feito para a manutenção de seu estado de graça, e um dos exemplos dessa retomada são os diversos projetos de revitalização que se realizam por todo o país, e um deles foi idealizado em 1999 sob a produção de Marisa Monte e chama-se Tudo azul, Velha Guarda da Portela.

     A idéia da retomada de um projeto iniciado por Paulinho da Viola em 1970 foi fundamental para revigorar o nosso samba de raiz, colocar na mídia com toda a força que ela tem hoje em dia a verdadeira essência de nossa musica popular, resgatando artistas que já estavam resignados com a pouca ou nenhuma visibilidade em que estavam relegados abrindo-lhes uma oportunidade de mostrarem seu trabalho e dividindo o mercado com as mediocridades que se instalaram no corpo de nossa musica. Essa injeção de animo resultou não so na retomada da Velha Guarda da Portela como também uma demostração que a canção popular estava viva, porém, faltava-lhe o remédio necessário para reanimá-la e acelerar seu franco processo de recuperação.

     Alguns dos integrantes do antológico álbum lançado em 1970 já haviam deixado a Terra, outros foram se integrando obedecendo ao critério de antiguidade, qualidade musical e serviços prestados a escola de samba.

     Nesse belíssimo CD estão presentes Monarco, Casquinha, Argemiro, Jair do Cavaquinho, Paulão, Casemiro da Cuíca e o coro feminino formado por Tia Eunice, Tia Doca, Áurea Maria e Surica. O Repertório é um desfile de maravilhas, muitas delas conhecidas apenas pela comunidade portelense, portanto, so por esse resgate o disco ja se coloca como um marco da retomada do samba de raiz. Essas pérolas são formadas for Portela desde que eu nasci, composta em 1963 por Monarco; O mundo é assim, de Alvaiade, de 1968; Nascer e florescer, de Manacea, de 1955; Vai saudade, de David do Pandeiro e Candeia, de 1966; Sabiá cantador, de Alvarenga, 1950; A noite que tudo esconde, de Chico Santana e Alvaiade, 1952 com participação especial de Paulinho da Viola; Eu te quero, de Jair do Cavaquinho, 1960; Volta meu amor, um pontos máximos do disco, de Manacea e Áurea Maria, composta em 1972 e interpretada por Marisa Monte; Falsas juras, de Casquinha e Candeia, de 1954; Tentação, de Casemiro da Cuíca e Ramon Russo, de 1976; Você me abandonou, de Alberto Lonato, 1945; Vem amor, de Casquinha, 1956; Benjamim, de Josias, 1955; Tudo azul, de Ventura, 1950; Minha vontade, de Chatim, 1955, interpretada por Cristina Buarque; Sempre teu amor, de Manacea, de 1948; Corri pra ver, de Chico Santana, Monarco e Casquinha, de 1955 e Lenço, de Chico Santana e Monarco, de 1953, interpretada por Zeca Pagodinho.

     Além dos interpretes citados o disco ainda conta com a participação de Mauro Diniz no cavaquinho acompanhado por um time de bambas da mais alta hierarquia do samba e da musica popular de um modo geral.

     Aí esta um disco que merece sim, lugar de destaque na galeria dos grandes projetos de nossa canção, demonstrando que ainda corre sangue muito bom nas veias da musica brasileira e o que lhe faltava era um medico competente que lhe desse o medicamento certo para sua plena recuperação.

     É isso ai! Paulinho da Viola abriu alas, Marisa Monte seguiu renovando a tradição e a Velha Guarda se consolidou como um marco da canção brasileira, com os simpáticos velhinhos dando um recado que muito jovem não consegue atingir nem um milímetro de seu talento. É ouvir, vibrar, se emocionar e chorar!

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 22 de março de 2006.

Músicas:


01) Portela desde que eu nasci (Monarco)
02) O mundo é assim (Alvaiade)
03) Nascer e florescer (Manacéa)
04) Vai saudade (David do Pandeiro/Candeia)
05) Sabiá cantador (Alvarenga)
06) A noite tudo esconde (Chico Santana/Alvaiade)
07) Eu te quero (Jair do Cavaquinho/Colombo)
08) Volta meu amor (Manacéa/Áurea Maria)
09) Falsas juras (Casquinha/Candeia)
10) Tentação (Casemiro da Cuíca/Ramon Russo)
11) Você me abandonou (Alberto Lonato)
12) Vem amor (Casquinha)
13) Benjamim (Josias)
14) Tudo azul (Ventura)
15) Minha vontade (Chatim)
16) Sempre teu amor (Manacéa)
17) Corri pra ver (Chico Santana/Monarco/Casquinha)
18) Lenço (Chico Santana/Monarco)




Ficha Técnica

Produção: Marisa Monte
Direção musical e arranjos: Paulão 7 Cordas
Direção executiva: Leonardo Netto
Produção executiva: Suely Aguiar
Técnico de gravação e mixagem: Marcio Gama
Assistentes de gravação: Marcito Viana/Guthemberg
Roadie: Marcio Barros
Fotos: Rodrigo Monte
Capa: Ataíde Neves
Cifras: Paulão 7 Cordas
Pesquisa e textos: Suzana Mekler/Marisa Monte
Assistente de pesquisa: Emílio Domingos
Gravação: Mega Estúdio – Rio de Janeiro – Abril de 1999
Masterização: Ricardo Garcia no Magic Máster

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