Discos Fundamentais
Tom Zé
1972


     Como se pode medir o talento de um artista? Pela grande vendagem de suas obras? Pela popularidade alcançada? Pelo conceito que adquire entre uma certa camada da sociedade formadora de opinião? Pela critica favorável daqueles que se especializaram em analisá-la? Por se transformar num mito midiático da noite para o dia? Pela sua permanência no mercado sempre demonstrando que sua criatividade renova-se sempre? Enfim, são muitas as formas de se medir o verdadeiro valor de um artista, contudo, ela deve ser conduzida com critério para que não se produzam criticas baseadas apenas em conveniências com o intuito de agradar esse ou aquele esquema, pessoa ou instituição.

     Recentemente estamos vivendo um desses períodos em que a critica especializada em musica popular ou os que dela se utilizam como fonte de seus comentários e análises, doboru-se a um fenômeno midiatico chamado Maria Rita. Não estamos aqui de modo algum querendo diminuir o valor da filha de Elis Regina, mas convenhamos que ela foi muito bem produzida pelo publicitário Washington Olivetto e vendida como um produto de qualidade excepcional, para isso precisava apenas dobrar-se àquilo que o mercado percebeu com sua astúcia, sensibilizar uma platéia que estava ávida para matar a saudade de seu ídolo precocemente desaparecido e reacender a sua imagem sem contudo dizer para os espectadores que qualquer semelhança é mera coincidência, apenas e claro oriundo de fatores biológicos.

     Depois de analises de mercado, pesquisas de campo e amadurecimento da idéia, o produto estava formatado, o sucesso garantido, era so fabricar o sucesso, o resto os departamentos de marketing e divulgação da gravadora fariam junto as emisoras de radio e televisão, o publico ia se maravilhar, finalmente Elis revive, agora sob a sombra de sua filha. O resultado foi espantoso, o volume de vendas de seu disco de estréia também, contudo, o tempo iria se encarregar de colocar as coisas no seu devido lugar e aqueles mais perspicazes perceberiam a encenação e isso teria em curto prazo um efeito inverso, devastador na carreira da jovem cantora a não ser que o corrigessem a tempo de não se deixar transparecer com tanta visibilidade o pacote midiatico que envolveu sua vertiginosa ascensão. Volto a repetir no entanto que ela tem talento, mas precisa ter uma personalidade artística própria e desvincular-se da imagem da mãe, caso contrario, seu êxito pode ate ser real para alguns, mas ilusório para aqueles que conhecem e sabem os bastidores do seu surgimento, contudo, acredito que com o amadurecimento seu talento vira a tona, de modo firme, é apenas uma questão de tempo, pelo menos assim espero.

     Mas o que me faz abrir este comentário não é tratar da questão do surgimento de Maria Rita, até porque sei que terei minhas idéias contestadas, e não me arvoro a ser o dono da verdade, apenas verbalizo aquilo que percebo e acredito. A finalidade ao abordar essa questão do fabrico de artistas ou a sua manipulação midiatica intensiva para fazer crer às pessoas que o sucesso é fruto da qualidade da obra apresentada, me leva a um questionamento mais profundo a respeito das indagações feitas na abertura do texto, e aí eu vou um pouco mais além propondo essas novas reflexões: O que faz um artista ser execpcional se ele contraria de maneira explicita todo esse esquema que envolve e padroniza a produção musical brasileira já há alguns anos? O que o faz notável se ele de repente se mostra como o avesso, do avesso, do avesso? A resposta está na sua capacidade inventiva, no seu enorme talento, da sua empatia, da verdade e da força que expressa em sua obra, não deixando margem para manipulações, sua arte é a sua liberdade sentida e exposta, o aplauso e o reconhecimento virão portanto naturalmente, sem artificialismos.. Assim é e sempre foi o baiano Tom Zé, não precisa do mercado, este é que precisa dele, inverte e subverte valores, e assim vai vivendo feliz com sua musica e sua legião planetária de fãs.

     Esse personagem de nossa historia musical recente passou momentos de difícil assimilação e compreensão por parte de segmentos da critica em função de não se deixar levar pelo sucesso fácil, manteve-se íntegro, e o tempo so veio reafirmar que ele estava certo em não se dobrar, pois o mundo iria lhe aplaudir por não transigir em suas convicções reconhecento nele o vulcão criativo que espalhava larvas de admiração e respeito por onde quer que passasse.

     Ao longo de mais de quarenta anos de carreira produziu trabalhos memoráveis, e dentre eles destaco o LP lançado em 1972 pela Continental, não desmerecendo contudo todos os seus outros trabalhos anteriores ou posteriores. O Disco é um apanhado de canções em que seu estilo inconfudivel esta presente, seja nas melodias bem trabalhadas ou nas letras revelando seu lado satírico e lírico/sentimental.

     Tom Zé talve seja um dos músicos brasileiros cuja obra é de um personalismo impressionante, ou seja, possui um estilo único, não adianta imitá-lo ou assemelhar-se a ele, Tom Zé é Tom Zé e pronto! Não dá para cloná-lo. Isso fica evidente neste disco quando ouvimos algumas de suas canções como A babá, quase que obrigatória em suas apresentações, A briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel, uma sátira paulistana que talvez nem os paulistas a fizessem tão bem, Menina amanhã de manhã, O abacaxi de Irará, O anfitrião, Frevo, Happy end, o clássico Se o caso é chorar, uma das suas mais belas criações poético/musicais e Sr. cidadão cuja introdução é o poema concreto Cidade, de Augusto de Campos, declamado pelo autor. Se formos fazer uma coletânea das suas melhores produções, este disco certamente estaria praticamente inteiro nela.

     Ouvir este LP de Tom Zé é penetrar em sua alma, compreender seu universo e admirar todo seu enorme talento, que apesar de ter ficado represado por algum tempo, hoje inunda de criatividade a musica popular brasileira tão carente ultimamente de renovação e ousadia.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 8 de março de 2006.

Músicas:


01) Happy end (Tom Zé/Antonio Pádua)
02) Frevo (Tom Zé/Tuzé de Abreu)
03) A babá (Tom Zé)
04) Menina, amanhã de manhã (Tom Zé/Perna)
05) Dor e dor (Tom Zé)
06) Senhor cidadão (Tom Zé) – Sobre poema Cidade, de Agusto de 0Campos, recitado pelo autor
07) A briga do edifício Itália com o Hilton Hotel (Tom Zé)
08) O anfitrião (Tom Zé)
09) O abacaxi de Irará (Tom Zé/Perna/Ribeiro)
10) O sândalo (Tom Zé)
11) Se o caso é chorar (Tom Zé/Perna)
12) Sonho colorido de um pintor (Talismã/B. Lobo)




Ficha Técnica

Técnico de som: Luiz Augusto Botelho
Baixo: Gabriel
Órgão elétrico: Casali
Violão: Osny
Percussão: Osvaldo
Capa: Grecu
Dedicado ao Grupo Capote

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