Discos Fundamentais


Tamba Trio
Avanço
1963


     No inicio dos anos vinte do século passado falava-se muito em modernização, a palavra moderno estava na moda, o mundo descobrira que o século XIX finalmente havia terminado e era chegada a hora de novos tempos nas artes, na literatura, na maneira de se vestir, enfim uma nova ordem social se apresentava renovando os costumes, retirando a poeira e o ranço que ainda existia do século anterior. O frescor dos novos tempos não tardaria a chegar ao Brasil e em 1922 um grupo de intelectuais paulistas promovia a Semana de Arte Moderna movimento a terra da garoa e tendo como palco o Teatro Municipal de São Paulo. O Brasil redescobria-se, Mario de Andrade e Oswald de Andrade, puxavam a locomotiva da renovação e assim caminhávamos para estabelecer conceitos de modernidade em todas as frentes e entre elas o aprofundamento do que é ser brasileiro e o que o país significava enquanto nação plural e heterogênea em suas modas e costumes, descobrir o Brasil, portanto, era o objetivo principal, nesse aspecto a Macunaíma de Mario e o Manifesto Antropofágico de Oswald seriam as conseqüências inevitáveis desse desdobramento de buscas e interpretação do país.

     Os anos se passaram, a Semana de 22 ficou para trás, a história seguiu seu curso, em nosso país o café antes o sustentáculo econômico do governo, ruiu com a crise da bolsa de Nova York em 1929, os regimes políticos na Europa e depois no Brasil voltaram-se para o totalitarismo, as pessoas estavam céticas quanto ao futuro, uma guerra cruel e sem precedentes levaria o mundo a um dos mais covardes e sangrentos conflitos já vistos, o tempo passa, a reconstrução da Europa com o Plano Marshal entra em cena, os escombros da guerra ainda são visíveis, a ONU estabelece limites entre as nações e surge com uma proposta de paz e integração entre os povos.

     O Brasil não fica indiferente a tudo isso, novos ventos surgem como uma aragem fresca, a redemocratização é o sinal dessa mudança, uma nova constituinte é instalada para nortear os rumos da nação, mas ainda somos vitimas de nossos próprios erros e intolerâncias, o presidente Vargas suicida-se, finda-se um tempo e surge um outro, mais leve, sereno, desenvolvimentista, democrático, é o período JK, nessa fase o termo moderno volta a ser discutido, retoma os discursos de 1922, o Brasil vive uma fase de esplendor econômico e insere-se na segunda onda de modernidade do século vinte, dessa vez é preciso tirar a poeira da guerra, reerguer-se e continuar o projeto de redescobrimento.

     Novamente os intelectuais estão na liderança, o movimento literário concreto é uma realidade, a vanguarda arquitetônica de Oscar Niemayer encanta o mundo, a Bossa Nova muda as estruturas da arte musical, o cinema caminha para um período de grandes produções, o país continua crescendo e se integrando as mudanças de seu tempo, somos portanto aplaudidos e respeitados pelas nações ditas civilizadas. Nesse contexto o que mais chama a atenção e provoca mudanças de costumes é a musica que nos é trazida por jovens artistas que sintetizam as esperanças desse renascer e entre tantos astros e estrelas que passam a integrar o firmamento de celebridades nacionais, a musica instrumental vai dividindo espaço com a cantada e se estabelece com uma vertente poderosa e renovadora na história da musica popular brasileira, grupos surgem e entre eles o Tamba Trio criado em 1962 e formado por Bebeto Castilho, contrabaixo, sax e voz, Luiz Eça, piano, violões e arranjos e Hélcio Milito, bateria, percussão e voz, destacando-se como o primeiro grupo permanente de Bossa Nova, exercendo grande influencia nos padrões de execução musical, que a época caracterizava-se com canto e violão.

     Com uma concepção inovadora através dos arranjos realizados por Luiz Eça o grupo trouxe a musica popular novos conceitos de pesquisa e elaboração musical num refinamento que o colocava na dianteira de um processo de modernização que iria influenciar novos grupos instrumentais cuja proposta não era apenas a de tocar musica de fundo ou promover bailes e sim executar musica popular com a finalidade de audição e recital. O seu segundo LP lançado pela Philips em 1963 e intitulado Avanço já traz implícito no título a sua proposta renovadora, o projeto gráfico da capa com um fundo branco e a imagem dos músicos soltos no ar já revela essa ruptura com o tradicional e com os novos tempos que viriam com a revolução gráfico/estética das capas de disco no país, principalmente a partir da entrada em cena da gravadora Elenco de Aloysio de Oliveira.

     O repertório é todo formado em sua maioria por clássicos da Bossa Nova incluindo ainda o mais recente sucesso Mas que nada, de um jovem compositor que introduzia novos elementos ao samba tradicional e ao bossanovismo, Jorge Ben. Temos ainda, Garota de Ipanema e Só danço samba, de Tom Jobim e Vinicius; Negro e Rio, de Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli; Mania de Maria, de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo; Vento do mar e Moça flor, de Durval Ferreira e Luiz Fernando Freire; Sonho de Maria, de Marcus e Paulo Sergio Valle; O samba da minha terra, de Dorival Caymmi; Tristeza de nós dois e Esperança, de Durval Ferreira, Mauricio Einhorn e Bebeto.

     Por fim reafirma-se este disco como fundamental através das palavras de Don Rossé Cavaca escritos na contra-capa: “(...) Na realidade este LP transcende o aspecto de mais uma gravação. Ele documenta uma nova dimensão da moderna musica popular brasileira: a identificação com suas origens no sabor rítmico do morro, das ruas e dos bailecos em salas de visita.”. Qualquer coisa dita em contrario é mera redundância!

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 10 de janeiro de 2006.

Músicas:


01) Garota de Ipanema (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
02) Mas que nada (Jorge Benjor)
03) Negro (Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)
04) Mania de Maria (Luiz Bonfá/Maria Helena Toledo)
05) Vento do mar (Durval Ferreira/Luiz Fernando Freire)
06) Sonho de Maria (Marcus Valle/Paulo Sergio Valle)
07) So danço samba (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
08) Samba da minha terra (Dorival Caymmi)
09) Moça flor (Durval Ferreira/Luiz Fernando Freire)
10) Rio (Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)
11) Tristeza de nós dois (Durval Ferreira/Mauricio/Bebeto)
12) Esperança (Durval Ferreira/Luiz Fernando Freire/Mauricio)


Ficha Técnica

Produtor fonográfico: Discos Philips
Luiz Eça: Piano, arranjos e direção musical
Adalberto Castilho (Bebeto): Baixo, Sax tenor, Sax barítono e Flauta
Hélcio Milito: Percussão
Durval Ferreira (Gato): Violão
Dez violoncelos, violão e mais o Tamba Trio nas músicas: Esperança e Moça flor
Produção: Armando Pittigliani
Técnico de gravação: Célio Martins
Engenheiro de som: Sylvio Rabello
Capa: Paulo Breves
Foto: Francisco Pereira Neto
Texto da contra capa: Don Rossé Cavaca

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