Discos Fundamentais
Taiguara
Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara
1976


     Uma das virtudes dos grandes artistas é sua constante capacidade de reinventar-se sem perder o talento e a linearidade conquistada como marca principal e identificatória de sua obra. Geralmente essa percepção é vista por alguns através de uma critica rasteira e sem profundidade afirmando que o artista anda em busca de sua própria identidade, ou que ainda não se definiu completamente. Ora, esses comentários devem se referir exclusivamente a uma parcela de nossos compositores e interpretes que tem como única meta a vendagem de discos e para isso entregam-se sem escrúpulos ao mercado ficando a mercê do modismo do momento, demonstrando aí sim, um profundo descompromisso com sua atividade artística e ridicularizando-se em entrevistas ou declarações afirmando a todo instante que definiu desta vez o caminho que quer seguir, declarações, portanto, patéticas de artistas não menos patéticos, salve, salve a mediocridade!

     Contudo há outros que conseguem um nível de superação tão grande que se expõem e colocam seu talento a prova demonstrando que seu universo criador é ilimitado e não se permite ser rotulado, pelo contrario, a sua afirmação esta na sua real capacidade de transgredir, recriar, mantendo a individualidade autoral constatada e conquistada na sua maturidade artístico/intelectual, desse modo ao atingir esses níveis de conscientização ele se sublima, eterniza-se, torna-se referencia e sua obra ganha dimensões até por ele jamais esperadas, esse é verdadeiro espírito daqueles que não se acomodam, inquietam-se a cada instante, deixando fluir toda sua sensibilidade e talento na busca do inalcançável em busca de uma perfeição utópica, onde não falta a ideologia, o sentimento nativo, a imagem e a fixação da pátria, múltipla em seus variados aspectos culturais e sociais e acima de tudo a sua inserção como elemento integrador do universo, seja ele de modo global ou em sua territorialidade continental, fixando-se como representante de seu chão, cúmplice dele em todos sentidos e por isso mesmo por ele apaixonado.

     Desse modo a imagem projetada é a de uma obra de arte real, integralizadora, universalista e por isso mesmo respeitada por todos que dela se aproximam, pois podem sentir ali todas as nuances e características da alma do artista. Assim é na pintura, na literatura é na musica popular raros são os compositores brasileiros que se superam no próprio talento redescobrindo e redesenhando sua terra através de sons que ao nos darem prazer auditivo nos levam a constatação do sublime, da permanente sensação de prazer melódico/poético numa celebração à arte musical.

     Assim temos como demonstração inequívoca e materializada dessas reflexões o compositor Taiguara, que encantou o país com belas canções de amor e o deslumbrou depois com um trabalho experimental maduro representado no LP Imyra, tayra, ipy, Taiguara, lançado em 1976 onde se verifica a sua constante renovação artística e inquietude criativa, mantendo a essência da beleza de suas composições, o talento literário e acima de tudo a ideologia libertária que sempre buscou para si e para sua gente. O disco representa a nossa ancestralidade nativa entremeada pela sonoridade de um povo e de uma nação singular, captada em sua permanecia histórica. Com uma criatividade sem paralelo em sua obra e arranjos melódicos sofisticados e inovadores torna-se atemporal pois sintetiza a busca do artista em sua permanente relação com as nossas matrizes ancestrais representada através das nações indígenas sua fonte de inspiração maior.

     Entremeando faixas vocais e outras instrumentais Taiguara procura demonstrar não apenas o seu sentimento nativista como também a sua latinidade inserindo toques musicais latino americanos. Concebido em seu auto exílio na época da ditadura militar, Taiguara tinha em mente a realização de um trabalho que intencionava criticar o militarismo ditatorial do continente americano, especialmente no Brasil, para isso lançava mão de todo seu talento criando meios de driblar a censura que tanto o perseguia utlizando pseudônimos na autoria de algumas faixas e o nome de sua esposa Geisa Chalar da Silva nas três canções mais polemicas, Publico, Terra das palmeiras e Situação. O projeto foi apresentado a Emi/Odeon que o aprovou sem restrições dando carta branca a Taiguara para a seleção de quantos músicos fossem necessários para a gravação, resultando numa união poucas vezes vista de grandes feras da musica brasileira, como Wagner Tiso, na regência; Hermeto Paschoal, flauta e flauta baixo; Nivaldo Ornelas, sax soprano, tenor e flauta; Toninho Horta, violão, Jacques Morelembaun, violoncelo; Novelli, baixo acústico; Lucia Morelembaum, harpa; Ubirajara Silva (pai de Taiguara), bandoneon; Mauro Senise, flauta; Neco, bandolim; Paulinho Braga e Zé Eduardo, bateria e percussão, além de uma orquestra, perfazendo mais de 80 músicos na totalidade.

     Paralelo a gravação do disco havia a realização de um show com turnê estendida a vários estados, sendo a estréia marcada para 1 de maio de 1976 nas ruínas do convento de São Miguel das Missões no Rio Grande do Sul, contudo o caráter ideológico do projeto foi abortado pela censura que proibiu o espetáculo um dia antes de sua estréia, decepcionando a todos os envolvidos e principalmente ao seu idealizador que se auto exilou mais uma vez. Mesmo sem a apresentação do espetáculo o disco foi mantido no mercado e passou a história como um dos nossos mais magníficos trabalhos musicais contemporâneos, uma obra prima, fruto do talento de um artista que o Brasil teima em esquecer ou não dar o valor merecido a sua altura, mas que nós não permitiremos jamais, pois onde tiver sentimento e brasilidade a musica de Taiguara estará sempre presente, pois ela já não nos pertence mais, é universal.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 30 de março de 2006.

Músicas:


01) Pianice (Taiguara)
02) Delírio transatlântico e chegada no Rio (Taiguara)
03) Público (Taiguara)
04) Terra das palmeiras (Taiguara)
05) Como em Guernica (Taiguara)
06) A volta do pássaro ameríndio (Taiguara)
07) Luanda, violeta africana (Taiguara)
08) Aquarela de um país na lua (Taiguara)
09) Situação (Taiguara)
10) Sete cenas de Imyra (Taiguara)
11) Três Pontas (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos)
12) Samba das cinco (Taiguara)
13) Primeira bateria (Taiguara)
14) Outra cena (Taiguara)




Ficha Técnica

Arranjos e orquestrações: Taiguara/Hermeto Pascoal
Regência e produção: Wagner Tiso
Diretor artístico: Miltom Miranda
Diretor de produção: Renato Correa
Técnicos de gravação: Toninho/Dacy/Roberto/Serginho
Técnico de remixagem: Nivaldo Duarte
Corte: Osmar Furtado
Montagem: Ladimar
Layout da capa: Thomas Michael Lewinsohn
Desenhos: Taiguara

Músicos:

Taiguara: Voz/piano/sintetizador/mellotron/flauta
Nivaldo Ornellas: Sax soprano/tenor/flauta
Toninho Horta: Violão
Jacquinho Morelembaun: Cello
Novelli: Baixo acústico
Paulinho Braga: Bateria/percussão em Três Pontas
Zé Eduardo: Bateria/percussão em A volta do pássaro ameríndio
Ubirajara Silva: Bandoneon em Primeira bateria
Lucia Morelembaun: Harpa
Hermeto Pascoal: Flauta/flauta baixo
Mauro Senise: Flauta
Neco: Cavaquinho
Vozes: Lucinha/Malu/Eva/Marizinha/Novelli/Nivaldo Ornellas/Wagner Tiso

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