Discos Fundamentais
Sylvia Telles
Amor de gente moça
1959



     A preservação da memória de um país deve ser uma preocupação constante daqueles que se encarregam de gerir a coisa pública e dos profissionais que se dedicam a executá-la debruçando-se em arquivos e museus. Mas não se deve levar em conta a importância apenas do fator documentos, mas sim a integridade de obras de arte arquitetural e artística, pois elas acabam por se tornarem símbolos de um passado que permanece vivo. Há muitos anos divulga-se uma frase que acabou se integrando negativamente no imaginário e na idéia que temos a cerca de nosso passado, é a seguinte: O Brasil é um país sem memória! Pronto, a partir daí justificou-se todo o descaso para com a preservação de nossos bens históricos. Passamos a utilizar a expressão no intuito de nos resguardarmos de qualquer acusação de desinteresse em manter o nosso patrimônio, pois, com a manutenção dessa máxima, todos nós passamos a sermos responsabilizados pelo descaso com que tratamos nosso passado e conseqüentemente a culpabilidade não se restringiria a uma pessoa, órgão cultural ou instancia de governo, já que essa seria em tese uma pratica adotada e assimilada pela população como um traço de seu comportamento.

Impressionante como isso ao longo dos anos causou e ainda causa sérios danos à manutenção de nossa identidade e da nossa auto estima, pois, se não conservamos os traços de nossa formação como podemos nos perceber como nação? Apenas com as características essenciais que nos distinguem enquanto povo? Pela preservação de algumas tradições que heroicamente ainda resistem? Isso é importante, mas não é suficiente, é necessário que nos debrucemos sobre nosso passado estimulando a visitas a museus, bibliotecas, sítios históricos e acima de tudo conscientizar nossos alunos nas salas de aula para que eles possam conhecer melhor a cada dia o país que habitam para se situarem enquanto personagens de uma nação que se constrói e se reconstrói a cada instante, afinal se a história demonstra as contradições humanas, ela também explica os motivos desses conflitos e ajuda-nos para que possamos construir uma nação sem os vícios legados por nossos antepassados, mas preservando suas virtudes, a fim de aprimorá-las repensando a cada dia como podemos fazer para sermos felizes.

Um país que não olha para trás com o intuito de compreendê-lo para realizar ações firmes no presente e consolidar-se no futuro com mais dignidade e altivez, esta fadado à escuridão do conhecimento de si mesmo, e é ai que reside o perigo maior, portanto, faz-se necessário trazer a tona fatos de toda ordem e natureza para que não nos esqueçamos de que se aqui chegamos não foi apenas por nossos méritos, mas sim, por aqueles que nos precederam.

Revisitando a história e em particular a da musica popular brasileira vamos relembrar de uma artista excepcional, a verdadeira e única musa da Bossa Nova, pois esteve lado a lado com os criadores do movimento e deu a ele o toque feminino de que necessitava através da beleza de sua voz que infelizmente vem caindo no esquecimento pela falta dessa manutenção de valorização de nosso passado musical. Falamos de Sylvia Telles uma das nossas maiores intérpretes e a responsável pelo lançamento de inúmeros sucessos de Antonio Carlos Jobim na década de cinqüenta quando o então jovem compositor afirmava-se como uma das maiores promessas de nossa canção.

Em 1959 ela lançou pela Odeon um LP intitulado Amor de gente moça, inteiramente dedicado a obra de Tom Jobim. O repertório do disco traz nove musicas inéditas de Tom e registra o lançamento da sua parceria com Aloysio de Oliveira através das canções, Dindi, De você eu gosto e Demais, três musicas eram apenas de Tom Jobim, Esquecendo você, Só em teus braços e Fotografia, Discussão, com Newton Mendonça e cinco canções com Vinicius de Moraes, Sem você, Janelas abertas, O que tinha de ser, A felicidade e Canta, canta mais. A produção e direção artística foram de Aloysio de Oliveira, os arranjos de Lindolfo Gaya e as regências de Oswaldo Borba.

Com este LP Sylvia Telles consolida sua forte presença como a mais atuante e autentica representante feminina da Bossa Nova, mantendo-se fiel durante toda a sua trajetória ao estilo e gênero musical que ajudou a criar e que mudou definitivamente os caminhos da musica brasileira.

É importante ressaltar o que diz Ruy Castro em seu livro Chega de Saudade, à pagina 372 sobre Sylvia Telles. "(...) Ela estivera presente em todos os momentos importantes da Bossa Nova: gravara o 78 r.p.m. com "Foi a noite" em 1956; seu nome puxara o show no Grupo Universitário Hebraico, em 1958 fora a primeira profissional a fazer a ponte entre a turminha e a turmona, e quase ate o fim nunca cantara outra coisa que não fosse samba moderno. E Quer saber de uma coisa? Não é absurdo que na relação de incesto estilístico que os primeiros cantores da Bossa Nova mantiveram com João Gilberto, ela é que o tivesse influenciado e não o contrario. Lembre-se que os dois foram namorados em 1952, quando João ainda usava amídalas à Orlando Silva e a acompanhava todo dia ao violão. Não se pode ter certeza de como ela cantava naquele tempo, mas, desde os seus primeiros 78s a partir de "Foi a noite" em 1956 Sylvinha já era a mesma cantora que em 1959 gravaria Amor de gente moça. Ela não havia mudado; João Gilberto, sim.

No auge da carreira quando se preparava para conquistar definitivamente os Estados Unidos, Sylvia Telles vem a falecer num desastre de automóvel no dia 17 de dezembro de 1966 no kilometro 24 da rodovia Amaral Peixoto no Rio de Janeiro. Deixou órfã a musica popular brasileira privando-a de seu talento, porém, sua obra já há muito deveria ter sido redescoberta pelas novas gerações

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 13 de julho de 2005.


MÚSICAS:
1) Dindi (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
2) De voce eu gosto (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
3) Discussão (Tom Jobim/Newton Mendonça)
4) Sem você (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
5) Fotografia (Tom Jobim)
6) Janelas abertas (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
7) Demais (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
8) O Que tinha de ser (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
9) A felicidade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
10) Canta, canta mais (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
11) Só em teus braços (Tom Jobim)
12) Esquecendo você (Tom Jobim)



Ficha Técnica

Produção e direção artística: Aloysio de Oliveira
Arranjos: Lindolfo Gaya
Regência: Oswaldo Borba

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