Discos Fundamentais



Wilson Simonal
A nova dimensão do samba
1964




    A natureza humana é invariavelmente imperfeita no que diz respeito a sua possibilidade de externar seus instintos fazendo o contraponto entre o bem e o mal, e o mal aqui esta representado na maneira como controlamos nossas emoções e desejos e da forma pela qual os exprimimos. Somos também impulsionados a tendências que nos remetem ao desvario do egoísmo, da vaidade, da prepotência e que conduzem nosso comportamento nessa dualidade entre o controle dessas manifestações e a consciência de reduzi-las procurando mecanismos que nos façam ficar vigilantes a fim de nos conhecermos melhor diminuindo-as à medida que amaduremos, este é um processo continuo de autodescobrimento que ao longo da existência nos tornam pessoas melhores toda às vezes em que ele é acionado e praticado.

     Esse esforço, no entanto não nos da direito de fazermos julgamentos apressados a respeito dessa ou daquela pessoa, ate porque ao criticarmos atitudes alheias na maioria das vezes queremos dizer que não cometeríamos aqueles erros, esquecendo-nos que estamos cometendo outros, e como não atiraríamos a primeira pedra porque nossas consciências ficariam pesadas, a melhor maneira de exercitar a convivência social e evolução moral é nos distanciarmos cada vez mais da injuria ou do conservadorismo ético como se fossemos um poço de virtude enquanto no outro vislumbramos uma montanha de defeitos.

     Isso é dito para demonstrar que foi justamente por causa das fraquezas humanas vinculadas à vaidade o grande erro de comportamento do notável artista Wilson levando-o a ser julgado e discriminado por uma parcela significativa da classe artista brasileira durante os anos mais difíceis da ditadura militar quando se viu envolvido num escândalo de ordem financeira e que acabou tomando conotações políticas sendo acusado de colaborar com o regime na função de "dedo duro" e/ou torturador, fatos esses nunca devidamente comprovados. Porem, o que realmente aconteceu foi o preconceito/engajado falando mais alto, era a versão dos donos da verdade contra a palavra de quem não tinha alternativa de defesa, num fundamentalismo de esquerda que em nada ficava a dever ao de direita, pois radicalizava-se de todos os lados. Enfim confundiu-se o artista com a pessoa e quem acabou perdendo com toda essa situação foi a cultura brasileira que viu alijada de modo vil a carreira de uma das maiores personalidades que produzimos, o homem show, o grande intérprete, o rei do swing, aquele que levou a Bossa Nova para a periferia, o homem que balançou o Brasil.

    Nascido no Rio de Janeiro em 26 de fevereiro de 1939 Wilson Simonal desde cedo já apresentava inclinações musicais. Em 1961 foi descoberto por Carlos Imperial que o levou ao seu programa de televisão Os Brotos Comandam, no antigo canal 9 no Rio de Janeiro e o estimulou a gravar seu primeiro compacto. Tornando-se conhecido no meio artístico acabou indo parar no Beco das Garrafas reduto de boêmios, artistas iniciantes e consagrados, realizando alguns shows. Em 1963 grava seu primeiro LP e faz sucesso com a musica Balanço zona sul, de Tito Madi. Em 1964 grava seu segundo disco, A nova dimensão do samba, um marco divisor da musica brasileira pós Bossa Nova.

     Um trabalho de refinamento musical levado ao extremo onde Simonal não se furta em realizar improvisações memoráveis. Influenciado pelo ryhtm'n blues e o pop tradicional norte americano que tinha suas grandes expressões em Ray Charles, Frank Sinatra e Sarah Vaugham, Simonal incorpora esses ritmos cantando com orquestras ou big bands, sem perder o molho tipicamente nacional. O disco tem orquestração e regência de Eumir Deodato e Lyrio Panicalli e um repertório de primeira qualidade destacando-se Nanã, um afro samba sofisticadíssimo de Moacyr Santos e Mário Telles composta para o filme Ganga Zumba; Lobo bobo clássico bossanovista de Carlos Lyra e Ronaldo Bóscoli; Inútil paisagem, de Tom Jobim, Só saudade, de Tom Jobim e Newton Mendonça; Ela diz que estou por fora, de Orlandivo, onde se evidencia todo o swing e o sentido rítmico de Simonal. Johhny Alf também é lembrado com uma releitura de Rapaz de bem; O disco se encerra com um pot-pourri que inclui Consolação, de Baden e Vinicius, Samba do avião, de Tom Jobim, Ela é carioca, e Garota de Ipanema, de Jobim e Vinicius, todas acompanhadas por Luis Carloas Vinhas, no piano, Otávio Bailly, no baixo e Chiquinho, na Bateria.

     Se Jorge Ben foi o compositor que inovou o samba para uma concepção afro-moderna, Wilson Simonal foi o intérprete que soube como ninguém captar todo o balanço da chamada à época, moderna musica popular brasileira, consagrando-se como um dos seus maiores interpretes e ate hoje inigualável em swing e balanço.


Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 16 de fevereiro de 2005.


Músicas:

1) Nanã (Moacyr Santos/Mario Telles)
2) Mais valia não vai chorar (Normando/Ronaldo Boscoli)
3) Lobo bobo (Carlos Lyra/Ronaldo Boscoli)
4) Só saudade (Tom Jobim/Newton Mendonça)
5) Ela diz que estou por fora (Orlandivo)
6) Samba de negro (Roberto Correa/Silvio Son)
7) Jeito bom de sofrer (Wilson Simonal/Jose Luiz)
8) Ela vai, ela vem (Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)
9) Rapaz de bem (Johnny Alf)
10) Inútil paisagem (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
11) Consolação (Baden Powell/Vinícius de Moraes)/Samba do avião (Tom Jobim)/Ela é carioca (Tom Jobim/Vinicius de Moraes/Garota de Ipanema (Tom Jobim/Vinicius de Moraes).



Ficha Técnica

Direção e coordenação artística: Milton Miranda
Direção musical: Lyrio Panicalli
Orquestrações: Lyrio Panicalli/Eumir Deodato
Assistente de estúdio: P. Tito Direção técnica: Z. J. Merky
Técnico de som: Willy Paiva
Técnico de equalização e corte: Renny Rizzi Lippi
Layout: Joselito
Foto: Paulo Lorgues
Produtor fonográfico: Industrias Elétricas e Musicais Fábrica Odeon S/A

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