Discos Fundamentais
Silvio Caldas
Serenata
1957




     Nos tempos atuais o romantismo é visto sob um outro prisma pois as pessoas mesmo tornando-se cada vez mais indivudualistas e reféns do mercado de consumo continuam se amando, as paqueras, o amor profundo ainda não deixaram de existir, apenas mudaram a maneira de serem vistos pela sociedade, o cavalheirismo é certo é uma pratica em extinção, mas o companheirismo aliado a liberdade individual das pessoas respeitando-se as diferenças é um avanço em relação ao conservadorismo machista de anos atrás, claro que as relações sociais obedecem o ritmo transformador da sociedade e vai-se adequando de acordo com essas mudanças, que tendem a ser positivas ou negativas a partir do instante em que a criatura sabe diferenciar o que deve e o que não deve absorver para adequar-se as imposições que a vida moderna oferece.

     No relacionamento a dois o romantismo é uma pratica um tanto quanto em desuso o que de certo modo faz com que os casais tornem-se mais frios no relacionamento, por outro lado um caminhar de mãos dadas apreciando o luar, o oferecimento de uma poesia a mulher amada, um jantar a luz de velas, a audição a dois de musicas românticas, o oferecimento de flores, são praticas que se escasseiam a cada dia ou são substituídas por presentes utilitários que facilitam a vida nos dias que correm, há os que afirmem inclusive que nos tempos atuais a dinâmica da vida não permite devaneios românticos como eram de costume feitos por nossos pais, hoje o casal trabalha muito, pouco se vê durante o dia, a insegurança reduz os passeios notívagos e a música vibrante é utilizada em muitos casos como uma válvula de escape para estravasar o stress, mesmo assim há quem sonhe com o retorno a um tempo em que as pessoas se aconcheguem mais, se percebam nos minimos detalhes, andem de mãos dadas, façam eternas juras de amor, sejas cortezes e como dizia o poeta que o amor seja infinito enquanto dure. Esses anseios se fazem necessários para uma grande parcela da sociedade porque sem esses comportamentos teme-se que a união se torne algo apenas como uma necessidade humana de compartilhar-se com alguém, já que ninguem consegue viver só, e não como um sentimento que se sublima e se renova a cada dia.

     Ora, mas o que tem a ver essas considerações sobre relacionamento amoroso e a musica popular brasileira tema central deste artigo? Tem tudo a ver pois a nossa canção vem embalando a diversas gerações o amor entre as criaturas. Qual de nós não tem seu autor ou interprete favorito e não relaciona essa ou aquela musica a um namorado, esposo, esposa, ou a uma fase romântica da vida? Todos nós sem excessão, dessa forma a musica popular não somente compartilha de nossas vidas, como também conduz a trilha sonora de nossa existência, sempre foi assim e assim permanecerá indefinidamente, pois enquanto existir paixão existirá alguém para cantá-la.

     O amor em nossa canção é expresso de varias formas, sambas, sambas-canção, marchas, valsas e serestas, esta última impregnada pelo lirismo das noites de lua cheia e executada ao som de um plangente violão, contém em suas estrofes juras e descaminhos eternos de amor. A serenata em sua forma tradicional já não embala nem mais seduz os jovem românticos de hoje em dia, mas foi com ela que formou-se o perfil sentimental de nosso povo, desde a modinha executada nos salões e sua passagem para as ruas com a denominação de seresta a que ficou associada e depois incorporada ao romantismo do samba canção que ainda era interpretado pelos artistas populares nas ruas e em baixo das janelas do ser amado, tempos idos, mas que foram responsáveis por momentos extraordinários de nosso cancioneiro.

     Dentre nossos artistas quem mais se destacou no gênero no século XX foi o caboclinho querido, Silvio Caldas, gloria permanente da musica nacional. Silvio fez escola, foi o mais aplaudido seresteiro pátrio de sua época, eternizando canções que falam de um amor puro, nostálgico, ingênuo, característico do tempo dos lampiões e carregado de uma ternura e de um lirismo literário que mesmo sendo substituído por outras formas de expressão poética mais despojadas, continua imbatível em sua mensagem, justamente porque foi feita sob a inspiração de uma época em que o tempo andava “mais lento”, o amor permanecia como uma necessidade vital de sobrevivência para as criaturas e a luz do luar conduzia os enamorados.

     Em 1957 no auge de seu esplendor vocal ele lança o antológico LP Serenata em que desfila uma série de canções retratando fielmente o caráter sentimental brasileiro, alem de ser um painel de como víamos e sentíamos o pulsar dos nossos corações apaixonados. No repertório estão três musicas dele e Orestes Barbosa, Serenata; A única rima e Quase que eu disse, destacando-se ainda, Há um segredo em teus cabelos, de Gastão Lamounier e Oswaldo Santiago; Poema dos olhos da amada, de Vinicius de Moraes e Paulo Soledade; Meu segredo, de Newton Teixeira e Jorge Faraj; Porto dos casais, de Jayme Lewgoy Lubianca; Maringá, de Joubert de Carvalho; Dona da minha vontade, de Francisco Alves e Orestes Barbosa; além de Fita amarela, de Noel Rosa e Viva meu samba, de Billy Blanco.
Resultado final, um disco contendo jóias românticas e sambas que se completam num legitimo painel de saudades, encantamento e beleza interpretrativa, para ser ouvido a dois à luz de velas.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 15 de fevereiro de 2006.



MÚSICAS:
01) Serenata (Silvio Caldas/Orestes Barbosa)
02) Viva meu samba (Billy Blanco)
03) Há um segredo em teus cabelos (Gastão Lamounier/Oswaldo Santiago)
04) A única rima (Silvio Caldas/Orestes Barbosa)
05) Poema dos olhos da amada (Vinicius de Moraes/Paulo Soledade)
06) Porto dos casais (Jayme Lewgoy Lubianca)
07) Feitio de oração (Noel Rosa/vadico)
08) Maringá (Joubert de Carvalho)
09) Meu segredo (Newton Teixeira/Jorge Faraj)
10) Quase que eu disse (Silvio Caldas/Orestes Barbosa)
11) Fita amarela (Noel Rosa)
12) Dona da minha vontade (Francisco Alves/Orestes Barbosa)



Ficha Técnica

Produtor fonográfico: Columbia do Brasil S/A
Arranjos: Renato de Oliveira
Contra capa: Bricio de Abreu

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