Discos Fundamentais
Sidney Miller
1967



     Quando em 1962 Aloysio de Oliveira resolveu criar a gravadora Elenco seu principal objetivo era registrar o trabalho de inúmeros compositores e intérpretes que não encontravam facilidade na divulgação de seus trabalhos nas gravadoras tradicionais. Muitos desses artistas formavam a primeira geração pós-Bossa Nova e era na sua grande maioria talentos que se consagrariam como verdadeiros ídolos da música popular brasileira. O primeiro suplemento da Elenco sairia com 4 discos, Vinicius e Odete Lara; Baden Powell swings with Jimmy Pratt; Lucio Alves, Balançamba e A Bossa Nova de Roberto Menescal.

     Durante o tempo em que esteve a frente da Elenco, Aloysio de Oliveira produziu uma série de LPs que se tornaram antológicos na nossa canção popular, podendo mesmo ser considerados como verdadeiros clássicos. Um dos traços marcantes da nova gravadora eram as capas que por questão de economia foram realizadas, quase todas com apenas duas cores, o preto e o branco, desenhadas por César G. Vilela e fotos de Francisco Pereira, resultando num belíssimo e delicado trabalho gráfico que revolucionou o conceito das capas de disco além de se constituírem entre as mais bonitas feitas até hoje no Brasil.

     A proposta de continuar lançando novos talentos continuou mesmo depois que Aloysio de Oliveira deixou a direção artística da gravadora e a transferiu seus direitos para a Companhia Brasileira de Discos, proporcionando assim em 1967 o lançamento do primeiro LP de um jovem compositor carioca chamado Sidney Miller.

     Nascido em 18 de abril de 1945, iniciou sua carreira em 1962 e três anos mais tarde, em 1965 teve sua primeira música gravada, "Queixa" feita em parceria com Zé Kéti e Paulo Tiago classificada em quarto lugar no I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior de São Paulo e defendida por Ciro Monteiro. Em 1967 com a canção "A estrada e o violeiro", conquistou o premio de melhor letra do III Festival de Música Popular Brasileira promovido pela TV Record. Com essa trajetória Sidney Miller pavimentou seu caminho para a gravação de seu primeiro disco.

     Considerado como um dos talentos mais promissores de sua geração, Sidney Miller demonstrou que não era apenas um excelente músico, mas também um poeta muito inspirado. Em seu disco de estréia apresentou 12 músicas da melhor qualidade entre sambas, chorinho e canções todas sem parceria, um acompanhamento da melhor qualidade, arranjos primorosos e a fazer o balanço, o seu violão.

     Grande parte do repertório apresentado tornou-se muito conhecido do grande público, como por exemplo, a citada "A estrada e violeiro", interpretada em dueto com Nara Leão, que, aliás, tem outra participação na música "Menina da Agulha". O sucesso do disco foi imediato e consolidou a carreira de Sidney Miller, várias canções do disco foram na mesma época gravadas por outros artistas como, por exemplo, "Maria Joana", gravada por Caetano Veloso em seu também primeiro disco ao lado de Gal Costa denominado Domingo, além de "Meu violão" e "Botequim N 1" gravadas pelo MPB 4 respectivamente em seus segundo e terceiro discos lançados em 1967 e 1968.

     Entre todas as canções, porém a que fez mais sucesso e é um clássico de nosso cancioneiro, principalmente entre a criançada é "O Circo", cujos versos iniciais, "vai, vai, começar a brincadeira, que a charanga vai tocar a noite inteira, vem, vem, vem, ver o circo de verdade, tem, tem, tem, tem, picadeiro e qualidade" são reconhecidas até hoje porque quem quer que seja, ao simples toque de seus primeiros acordes. Outro grande momento é o samba "Pede passagem", música que dava nome a um LP de Nara Leão gravado em 1966 e que encerra o disco com chave de ouro.

     Ao ouvir este disco de Sidney Miller reverenciamos e nos deleitamos com a obra de um dos grandes nomes de nossa música popular que infelizmente nos deixou muito cedo em 16 de julho de 1980 com apenas 35 anos.

     E para finalizar esse comentário nada melhor do que deixar que a sua poesia nos invada o coração através da letra de "Meu violão" que pode muito bem servir como o seu último desejo e lembrança de sua breve mais inesquecível estada entre nós.

Meu violão, meu coração que canta
Quanto mal espanta, quanta dor desfaz
Pois faz de conta que me fez contente
Que eu não choro mais
Fala o que sente seja o samba o que ele for
Mas de repente vem falar do meu amor
Pra dar ao samba um tom maior
Pra dar ao verso seu valor

Meu violão num toque tão ligeiro
Chegará primeiro quem melhor cantar
Por um segundo ninguém perde o mundo 
Ninguém vai chorar
Virá meu tempo, vou-me embora quando for 
Mas fica um samba pra falar do meu amor
Laia laia laia laia lala

Meu violão já quis fazer feitiço e não pegou 
Sem compromisso batucou verdades 
Que ninguém cantou
E agora insiste no meu samba alegre
No meu choro triste na minha canção
Pra se fazer ouvir
Faz da esperança à melodia 
E traz a luz do dia como inspiração

Meu violão, eterno companheiro
Que se fez parceiro na composição
Segue o meu passo que vai no compasso do meu coração
Leva comigo mais um canto, por favor 
Que eu tenho tanto que falar do meu amor 
Um samba só, por Deus Nosso Senhor

Luiz Américo Lisboa Junior


Músicas:

01) A estrada e o violeiro – Com Nara Leão
02) Maria Joana
03) Marré-de-cy
04) Argumento
05) Minha nega
06) Botequim N 1
07) O circo
08) Meu violão
09) Passa, passa gavião
10) Chorinho do retrato
11) Menina da agulha – Com Nara Leão
12) Pede passagem.

Todas as músicas e letras são da autoria de Sidney Miller



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