Discos Fundamentais
Secos & Molhados
1973


     Um dia acordamos e ouvimos um som, parecia estranho pois não sabíamos se a voz daquele artista era de homem ou de mulher, especulações a vista, na televisão assistimos uma apresentação das mais extravagantes possíveis, afinal o que era aquilo que tanto nos encantava, de onde vinham aqueles seres? E aqueles requebrados? Esquisito, era o que diriam alguns mais conservadores, outros também torciam o nariz, a sociedade não estava preparada para tamanha ousadia, mas que importa! O som era maravilhoso e estava ali, pronto para mudar os nossos destinos, reformar conceitos, e abrir caminhos para as mudanças de pensar e agir da famosa e tradicional família brasileira.

     Foi assim há mais de 30 anos em 1973 quando o mundo parecia cair nas nossas cabeças, quando o sonho já tinha irremediavelmente acabado, que um bando de jovens, não tão jovens assim, resolveram transgredir os padrões estéticos e comportamentais fazendo uma musica que caía de maneira suave em nossos ouvidos, pulsava o coração, nos fazia rir, chorar, dançar e pensar que podíamos sim, revolucionar, sermos alienígenas em nosso país, causando um impacto profundo em todos nós, e fazendo-nos mais felizes. Secos & Molhados, esse era o nome do cometa que cruzou os céus do Brasil e de nossa música popular em plena época de bombas detonadas por todos os lados.

     Esses heróis tinham nome e chamavam-se Ney de Souza Pereira, que o mundo artístico rebatizou de Ney Matogrosso, nascido em Bela Vista, Mato Grosso em 1 de agosto de 1941, Gerson Conrad, paulistano, nascido em 1952 e por fim João Ricardo Carneiro Teixeira Pinto, nascido em Ponte do Lima, Portugal, mas brasileiro como qualquer um de nós. Juntos essa turma resolveu fazer um novo som, e com eles um visual moderno, totalmente diferente de tudo que se fazia na época, roupas coloridas exóticas, uma maquiagem multicolorida, adereços e desenhos no corpo, e ainda mais o rebolado sensual de Ney Matogrosso dono de uma voz absolutamente desconcertante e jamais vista na música brasileira. Foi um delírio, da noite para o dia as apresentações do grupo enchiam os teatros, todos queriam ver e ouvir aqueles rapazes e dançar embalados por sua música.

     Um cometa estava iniciando sua trajetória na música popular brasileira e iria deixar marcas profundas de sua passagem. Dos palcos para a gravação do primeiro disco foi um passo, afinal o público já estava garantido nos shows, faltava somente as paradas de sucesso nas rádios e TVs. Entre maio e junho de 1973 gravaram pela Continental seu primeiro LP, intitulado Secos & Molhados, e no mês de agosto o disco já estava nas lojas, encartado numa capa dupla de alto luxo para época com as letras e fichas técnicas de todas as canções.

     Imediatamente não se ouvia outra coisa em todo o Brasil, todos cantavam e tentavam imitar a voz e os trejeitos de Ney Matogrosso, ao som de "Sangue Latino", música de João Ricardo e Paulinho Mendonça, que abria o LP e já deixava claro sua mensagem nos versos "Rompi tratados, traí os ritos, quebrei a lança, lancei no espaço, um grito um desabafo, e que me importa é não estar vencido" O disco trazia ainda "O Vira", hino de uma época, e que se tornou música de todas as gerações, afinal quem não cantou esses versos:

O gato preto cruzou a estrada,
Passou por debaixo da escada
E lá do fundo azul na noite da floresta

A lua iluminou, a dança, a roda a festa
Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem
Vira, vira
Vira, vira lobisomem

Bailam corujas e pirilampos
Entre os jardins e as fadas
E la no fundo azul na noite da floresta
A lua iluminou a dança, a roda, a festa.

Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem
Vira, vira
Vira, vira lobisomem.

     Num casamento perfeito a poesia de Vinicius de Moraes encaixa-se magistralmente na melodia de Gerson Conrad e muitos se emocionam com a "Rosa de Hiroshima". Inovações não faltam e Ney Matogrosso em vários momentos atinge a perfeição vocal como por exemplo, em "Fala" de João Ricardo e Luli. O disco dos Secos & Molhados representa um dos pontos máximos do Rock Progressivo brasileiro, um marco histórico de renovação estética em nossa música popular com uma ousadia até então não tentada e com toques de genialidade como em "O patrão nosso de cada dia", e muita descontração em "Assim assado" e "Mulher barriguda".

     Desse modo ao longo dos anos vivemos e ouvimos este som maravilhoso, este disco inesquecível, este sonho lindo e passageiro, referencia de uma época em que ousar era muito difícil, mas que eles conseguiram com sua música e com seu talento ultrapassar a barreira do tempo sem envelhecer e se comunicando de maneira plena com as novas gerações.

Luiz Américo Lisboa Junior

Músicas:

01 - Sangue latino
     (João Ricardo e Paulinho Mendonça)
02 - O vira
     (João Ricardo e Luli)
03 - O patrão nosso de cada dia
     (João Ricardo)
04 - Amor
     (João Apolinário e João Ricardo)
05 - Primavera nos dentes
     (João Apolinário e João Ricardo)
06 - Assim assado
     (João Ricardo)
07 - Mulher barriguda
     (João Ricardo e Solano Trindade)
08 - El rey
     (João Ricardo e Gerson Conrad)
09 - Rosa de Hiroshima
     (Vinicius de Moraes e Gerson Conrad)
10 - Prece cósmica
     (João Ricardo e Cassiano Ricardo)
11 - Rondó do capitão
     (Manoel Bandeira e João Ricardo)
12 - As andorinhas
     (João Ricardo e Cassiano Ricardo)
13 - Fala
     (João Ricardo e Luli)


Ficha Técnica

Secos e Molhados

Coordenação de produção: Sidney Moraes
Direção artística – Julio Nagib
Direção de produção – Moracy do Val
Direção musical – João Ricardo
Arranjos – Secos & Molhados
Técnicos – Luiz Roberto Marcondes e Aluízio de Paula Salles Junior
Fotos – Antonio Carlos Rodrigues
Lay-out – Décio Duarte Ambrósio

Músicos:
Ney Matogrosso – Vocal
João Ricardo – Violão de 6/12 cordas, harmônica de boca e vocal
Gerson Conrad – Violões de 6/12 cordas e vocal
Marcelo Frias – Bateria e percussão
Sergio Rosadas – Flauta transversal e flauta de bambu
John Flavin – Guitarra e violão de 12 cordas
Zé Rodrix – Piano, ocarina e sintetizador
Willi Verdaguer – Baixo
Emílio Carrera – Piano.

Comente esta matéria