Discos Fundamentais


Roberto Carlos
Ritmo de ventura
1968


     Vamos tentar aqui viajar um pouco no tempo e reviver uma época em que a contradição era a tonica do momento, quando uma juventude inteira se dividia entre o ideologicamente e politicamente correto e a pseudo-alienação compulsiva, vibrante e romântica. Dois extremos convivendo num mesmo espaço geográfico dividindo a preferência do publico, os rebeldes querendo mudar o mundo, pegar em armas, derrubar o governo e os outros curtir uma onda de paz e amor, bicho! É isso aí! Quem viveu nos loucos e arrebatadores anos sessenta sabem muito bem do que estou falando pois protagonizaram cenas de mocinho e bandido permanentemente. No plano planetário essas incursões juvenis estavam nas ruas de Paris através do movimento de maio de 1968 ou nas viagens lisérgicas dos jovens loucos e bem humorados de São Francisco. No Brasil a cena era arrasadora, mas estes dois pólos de visão de idéias e pensamentos transgressores viviam seu auge.

     A trilha sonora como não poderia deixar de ser era embalada pelos The Beatles representantes máximos das mudanças e contradições de uma época tumultuada e bela, souberam muito bem sair da alienação romântica e partir para o ideologicamente e politicamente correto, ou seja, acompanharam a evolução das idéias e comportamentos e foram os porta-vozes musicais de uma geração que buscava liberdade de todas as formas, no vestir, no falar, na política, enfim, em tudo que quebrasse os padrões do conservadorismo social vigente sem repressão e derrubando os tabus que ainda existiam a nível comportamental.

     Desse modo tínhamos em nosso país, por exemplo, Chico Buarque de Holanda, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Sergio Ricardo engajados na discussão política e do outro lado Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderleia, Jerry Adriani e outros em sentido oposto, pois para eles a ditadura com seus Atos Institucionais, a guerra do Vietnã, Cuba e demais assuntos não tinham prioridade, o legal era empunhar uma guitarra, curtir um som e dançar muito sem preocupações ideológicas, pois o mundo era uma brasa, mora! O resto era caretice!

     Aí de repente os rapazes de Liverpool gritaram Help! Pediram socorro e foram em busca de solucionar cinematograficamente o mistério do roubo do anel de Ringo, já aqui no Brasil a história versionada para o tupiniquim foi adaptada com o Rei da Juventude sob o titulo de Ritmo de Aventura. Bandidos e cenas eletrizantes que hoje em dia parecem contos de fadas para as nossas crianças devido as atuais produções sangrentas faziam a cabeça de jovens de 8 a 80 anos, mesmo os politicamente corretos, que na época tinham vergonha de dizerem que curtiam os hits do rei e hoje já os admitem devido ao distanciamento do tempo e por não sofrerem mais o patrulhamento dos camaradas, dos companheiros ou dos amigos intelectuais leitores de Sartre e fãs de Felini.

     Contudo, atualmente quando se fala em cultuar valores de uma determinada época o filme Ritmo de Aventura, produção de Roberto Farias e estrelado Roberto Carlos já é considerado cult, ou seja, esta acima das ideologias ou preconceitos, pois retrata o tempo vivido de uma geração e deve ser visto, contextualizado, analisado sob outras óticas etc.

     Eu particularmente acho que essa designação de cult é apenas um escapismo para não ferir as suscetibilidades dos intelectuais de plantão que assim inventam uma desculpa só para não darem o braço a torcer, pois se eles aplaudiram Help dos The Beatles ou sentem saudades dos seus sucessos musicais, aqui o nosso rei lá em 1967 data do lançamento do filme e 1968 do disco com a trilha sonora também se imortalizou definitivamente e os seus críticos preconceituosos tiveram que admitir seu êxito e seu lugar na história da musica popular brasileira, seja analisando-o à base de teses ininteligíveis para os menos letrados ou simplesmente através de um modesto artigo.

     O disco do Ritmo de Aventura traz canções que se eternizaram em nossa memória e representa o momento áureo da juvenil ingenuidade romântica nacional, no repertório destacam-se Como é grande meu amor por você; Por isso corro demais; E por isso estou aqui; De que vale tudo isso e Quando, todas compostas apenas por Roberto Carlos que na época havia tido um desentendimento com Erasmo, assinando com ele somente uma das canções, Eu sou terrível, some-se a essas musicas, É tempo de amar, de Jose Ari e Pedro Camargo; Você não serve pra mim, de Renato Barros, O sósia, de Getulio Cortes; Só vou gostar de quem gosta de mim, de Rossini Pinto; Você deixou alguém a esperar, de Edson Ribeiro e Folhas de outono, de Francisco Lara e Juvenil Santos.

     Temos aí, portanto, um disco que consolida Roberto Carlos como autor e intérprete e representa o verdadeiro perfil de uma parcela da juventude brasileira, aquela hoje considerada por alguns como alienada, mas que preferiu ouvir um som legal, namorar bastante, curtir “uma boa”, ser essencialmente romântica, deixar os cabelos grandes, usar roupas extravagantes e coloridas, sem no entanto, se preocupar com o destino das massas proletárias que estão sujeitas aos rigores da ditadura que mergulhou o país num regime absolutista entregando nossas riquezas ao capitalismo internacional em vez de promover a reforma agrária, dar melhores condições de vida a classe trabalhadora mirando-se no exemplo de Cuba e pegando em armas para derrubar a intolerância instalada com bombas de efeitos mortal, prisões e torturas.

     Nada disso, porem, era importante pois a turma so queria mesmo era viver em outro ritmo de aventura, aquele cujo amor e a alegria estivessem sempre presentes, o resto como já havia dito o rei, que vá tudo pro inferno! Assim ao ouvirmos hoje esse disco de Roberto Carlos verificamos o obvio que muitos não quiseram e teimam ainda em não aceitar, que a trilha sonora dos anos sessenta foi por ele realizada com muita competência e talento indiscutível, daí a sua perenidade, por isso mesmo que deve ser apreciada com carinho e atenção pois se trata de musica boa e fundamental para a compreensão da vida brasileira. Sacou bicho!

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 18 de janeiro de 2006.

Músicas:


01) Eu sou terrível (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
02) Como é grande meu amor por voce (Roberto Carlos)
03) Por isso corro demais (Roberto Carlos)
04) Você deixou alguém a esperar (Edson Ribeiro)
05) De que vale tudo isso (Roberto Carlos)
06) Folhas de outono (Francisco Lara/Juvenil Santos)
07) Quando (Roberto Carlos)
08) É tempo de amar (Jose Ari/Pedro Camargo)
09) Você não serve pra mim (Renato Barros)
10) E por isso estou aqui (Roberto Carlos)
11) O sósia (Getulio Cortes)
12) Só vou gostar de quem gosta de mim (Rossini Pinto)


Ficha Técnica

Produtor fonográfico: Discos CBS
Fotos: Darcy Trigo

Ficha técnica do filme:
Atores principais: Roberto Carlos/Jose Lewgoy/Reginaldo Farias/Rose Passine
Argumento e direção: Roberto Farias
Produzido por: Produções Cinematográficas R. F. Farias Ltda.
Filmado es Eastman Color.
Ano de lançamento: 1967

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