Discos Fundamentais



Velha guarda da Portela
Portela passado de glória
1970




    A data de 2 de dezembro foi entronizada no calendário nacional como sendo o dia do samba, hoje patrimônio imaterial do Brasil, devendo ocorrer em sua homenagem shows e homenagens por todo o país. As emissoras de rádio por isso mesmo deveriam tocar sambas e divulgar ainda mais o nosso mais autentico e tradicional gênero musical. Mas infelizmente muitos brasileiros ainda não sabem que o samba tem uma data comemorativa, e o que é pior, nossos "cultos" e sempre "bem informados" radialistas e apresentadores medíocres de TV provavelmente também a desconhecem. É bem capaz, contudo, que alguém com um pouco mais de sensibilidade e conhecimento lhes diga que é necessário divulgar o samba em seu dia e alguns de nossos locutores/apresentadores para fazerem uma média e não ficarem para trás tocarão os intermináveis pagodes bregas que bem servem ao gosto de seu paladar sofisticado.

     A exceção ficará nas emissoras sérias que tem algum comprometimento cultural, podem acreditar elas ainda existem, ou então nas de cunho educativo que tem por obrigação divulgar a boa musica popular. E é só, de resto, ninguém sabe, ninguém viu, porém é preciso lembrar que o Dia Nacional do Samba cuja data foi dada em homenagem a primeira visita de Ary Barroso a Bahia, foi criado pelo professor de História, Luiz Menezes Monteiro da Costa, baiano, que atuando como vereador em Salvador nos anos cinqüenta enviou projeto de lei a Câmara Municipal que a aprovou, posteriormente no I Congresso Nacional do Samba realizado no então estado da Guanabara entre 28 de novembro e 2 de dezembro de 1962, através de um documento oficial este referendou a mesma data acolhendo o projeto de lei do deputado estadual Frota Aguiar enviado e aprovado pela Assembléia Legislativa, assim com a adesão da capital nacional do samba, a data acabou nacionalizando-se e desde então passou a ser celebrada e divulgada em todo o país.

     Mas se o samba é uma unanimidade nacional e muitos foram os trabalhos que contribuíram ao longo de sua história para atestar o talento de seus criadores, difícil seria pois escolher os melhores discos de samba lançados, já que inevitavelmente se cometeriam injustiças, contudo, existem trabalhos que por sua importância histórica e para uma maior compreensão desde seu legado se inserem como fundamentais, é o caso por exemplo do LP Portela passado de glória, produzido por Paulinho da Viola e lançado em 1970.

    Reunindo pela primeira vez antigos componentes da famosa escola de samba carioca, o que deu início à formação das já conhecidas velhas guardas o disco revelou para o público perolas musicais a maioria apenas conhecidas entre a comunidade portelense. Documento histórico de inigualável valor muitos dos personagens que participaram da gravação eram figuras diretamente ligadas às origens da escola, como Antonio Rufino dos Reis, sócio nº. 2 da Portela e autor de Levanta cedo, samba gravado por João da Gente um dos mais populares e importantes cantores da agremiação; Boaventura dos Santos, o Ventura, um dos primeiros compositores a serem gravados por Moreira da Silva ainda em inicio de carreira em 1935, interpreta de sua autoria, Se tu fores na Portela; Manacéa era um baluarte da Portela, compositor de muito talento foi o autor dos sambas enredos de 1942, 1946, 1948, 1949, 1950, no disco canta um de seus maiores sucessos, Quantas lágrimas, um samba clássico; dentre os pioneiros destacam-se ainda Paulo Benjamim de Oliveira, ou Paulo da Portela, o mais importante expoente da escola em toda sua história, sambista extraordinário faleceu em 1948, é dele o retrato na capa do disco, de seu repertório o grupo canta Cocorocó; Heitor dos Prazeres, sambista histórico tem gravado de sua autoria com João da Gente, A tristeza me persegue; Aniceto, irmão de Manacéa autor de inúmeros partidos altos, colabora com Desengano; Antonio Caetano, criador da águia, símbolo da escola, é o autor de Alegria tu terás, o repertório se completa com sambas de inúmeros porteleses famosos, inclusive Monarco que na época não era um integrante da velha guarda, hoje já é, autor de Portela passado de glória, samba que da título ao disco e que representa não somente a gloriosa história de uma das mais tradicionais escolas de samba do país, mas o verdadeiro talento de nossos sambistas e da sua importância para a identidade cultural de nossa gente.

     Por seu caráter documental e pela beleza de suas canções este LP se insere com letras maiúsculas como um autentico representante de nossas mais puras tradições musicais e insere-se na galeria dos grandes legados da história recente de nossa musica popular.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 2 de dezembro de 2002.

Músicas:

1) Quantas lágrimas (Manacéa)
2) Se tu fores na Portela (Ventura)
3) Desengano (Aniceto)
4) Sofrimento de quem ama (Alberto Nonato)
5) Vaidade de um sambista (Francisco Santana)
6) Chega de padecer (Mijinha)
7) Levanta cedo (Rufino)
8) Cocorocó (Paulo da Portela)
9) Tristeza (Heitor dos Prazeres e João da Gente)
10) Vida de fidalga (Alvaiade e Francisco Santana)
11) Ando penando (Alcides)
12) A maldade não tem fim (Armando Santos)
13) Alegria tu terás (Antonio Caetano)
14) Passado de glória (Monarco)




Ficha Técnica

Produção: Paulinho da Viola
Intérpretes: João da Gente (Levanta cedo)/ Ventura (Se tu fores na Portela)/ Aniceto (Desengano)/ Alberto Nonato (Sofrimento de quem ama)/ Francisco Santana (Vaidade de um sambista)/ Armando Santos (Chega de padecer e A maldade não tem fim)/ Manacea (Quantas lágrimas)/Alcides Lopes (Ando penando)/Antonio Caetano (Alegria tu terás)/Jair do Cavaquinho (Portela, passado de glória).
Coro: Vicentina e Iara
Violão: César Faria
Cavaquinho: Jair Costa
Pandeiro: Eliseu
Surdo: Casquinha
Texto da contra capa: Paulinho da Viola
Gravadora: RGE

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