Discos Fundamentais


Os maestros premiados
Gaya e Duprat
1968



     O brasileiro de um modo geral lê muito pouco e isso esta diretamente ligado a nossa precária educação que só tornou-se instrumento de desenvolvimento e prerrogativa governamental como prioridade para o crescimento do país a partir da segunda metade dos anos trinta do século passado, portanto, efetivamente temos menos de cem anos de investimento maciço em educação, conseqüentemente, a prática da leitura nunca esteve ligada ao cotidiano da maioria de nosso povo por falta exclusivamente de estímulo. O fato de sermos um país de iletrados e com uma população medianamente culta, isso para ser otimista quanto a classificação, provocou um descalabro educacional cujas conseqüências são hoje visivelmente notadas, em que pese, as tentativas de nos últimos anos ter-se tentado buscar meios para melhorar nossos índices qualitativos, mesmo assim ainda somos presenteados por um presidente da república que compara o ato de ler a um exercício em esteira ergométrica, aliás, nosso primeiro mandatário é fruto também dessa deseducação a que fomos submetidos daí suas palavras soarem desapercebidas pela maioria.

     Atualmente mesmo com a Internet e a disseminação de varias campanhas de estímulo a leitura, ainda estamos aquém das reais necessidades de ilustração para que possamos atingir o tão desejado desenvolvimento, a tarefa educacional é muito árdua, e o seu maior empecilho esta no fato de que nossa educação transformou-se em um projeto político de poder, quando despolitizarmos a educação e a tratarmos pedagogicamente sem interferências políticas, aí estará aberto o caminho para o seu crescimento, mas isso é utopia, infelizmente.

     As palavras acima apesar de aparentemente desconexas com o tema central ficam somente na aparência, e vamos explicar porque, dando um exemplo que nos remeterá direto ao nosso assunto. A falta do habito da leitura se torna visível quando pegamos um disco e não lemos a sua ficha técnica, ficamos apenas com o desejo da audição das músicas, esse é um vicio que nos atinge desde os tempos dos gloriosos LPs até os atuais CDs. Fato é que muitos discos não trazem informação alguma, mas isso não se constitui como regra. Foi justamente por essa inapetência literária que muitas pessoas, podemos falar até em duas gerações, cresceram ouvindo de seus pais ou em emissoras de radio e televisão algumas das mais conhecidas canções de nosso repertório e deram sempre os créditos quanto a sua beleza aos seus compositores, esquecendo-se de seus arranjadores, aqueles que dão a roupagem definitiva ao tema composto pelo artista.

     Durante os anos sessenta quando realizaram-se os festivais da canção, sejam os nacionais ou os internacionais, a música popular brasileira atingiu um grau de qualidade ainda hoje não superado, músicas como, Alegria alegria, de Caetano Veloso; Ponteio, de Edu Lobo e Capinan; Roda viva e Carolina, de Chico Buarque de Holanda; Domingo no parque, de Gilberto Gil; Travessia, de Milton Nascimento e Fernando Brant e Margarida, de Guarabyra, para citar apenas algumas mais significativas, são por demais conhecidas e consideradas inclusive clássicos modernos de nosso cancioneiro. O que poucos sabem, no entanto é quem foram os responsáveis pelos arranjos que a tornaram tão famosas, são eles os maestros Lindolfo Gaya e Rogério Duprat.

     Por suas mãos passaram as mais significativas canções da época, os compositores os procuravam por que sabiam do enorme talento e sensibilidade que tinham. Pela importância que representavam suas obras foram perpetuadas em 1968 num brilhante LP onde apresentam as mais destacas canções por eles arranjadas e que fizeram parte do repertório dos festivais realizados no país, sendo também merecidamente premiados. Lindolfo Gaya (1921/1987) recebeu o Galo de Ouro por sua atuação como maestro e arranjador do I Festival Internacional da Canção promovido pela TV Rio sendo o responsável pela maioria dos arranjos das musicas concorrentes. Rogério Duprat (1932) foi o grande responsável pela maioria das canções da Tropicália, aparecendo inclusive na capa do famoso disco Tropicália ou pani et circenses, um dos marcos divisórios de nossa canção popular. Em 1967 recebeu dois prêmios, o de melhor arranjador no III Festival da Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record e o Roquete Pinto como o melhor arranjador do ano. Em 1968 foi também contemplado com o troféu Galo de Ouro por seu trabalho no III Festival Internacional da Canção promovido pela Rede Globo.

     A atuação de Lindolfo Gaya e Rogério Duprat é claro que não se resume às suas atuações nos festivais, contudo, o talento de ambos deu um brilho diferenciado a uma das fases mais importantes e criativas da musica popular brasileira, sendo por isso mesmo no meu modo de ver co-autores de todas as canções por eles trabalhadas. Ouvir o talento desses maestros nesse disco magnífico é ter a certeza absoluta que sem eles a musica popular dificilmente teria alcançado os níveis de qualidade e respeito que tanto encantou e encanta ate hoje brasileiros e estrangeiros de todas as idades.


Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 8 de junho de 2005.

Músicas:

1) Carolina (Chico Buarque de Holanda) - Gaya e sua Orquestra
2) Margarida (Guarabyra) - Gaya e sua Orquestra
3) Travessia (Milton Nascimento/Fernando Brant) - Gaya e sua Orquestra
4) O sim pelo não (Alcyvando Luz/Carlos Coqueijo - Gaya e sua Orquestra
5) Fuga e antífuga (Kriger/Vinicius de Moraes) - Gaya e sua Orquestra
6) São os do norte que vem (Capiba/Ariano Suassuna) - Gaya e sua Orquestra
7) Alegria alegria (Caetano Veloso) - Rogério Duprat e sua Orquestra
8) Ponteio (Edu Lobo/Capinam) - Rogério Duprat e sua Orquestra
9) Roda viva (Chico Buarque de Holanda) - Rogério Duprat e sua Orquestra
10) Maria, carnaval e cinzas (Luiz Carlos Paraná) - Rogério Duprat e sua Orquestra
11) Gabriela (Maranhão) - Rogério Duprat e sua Orquestra
12) Domingo no parque (Gilberto Gil) - Rogério Duprat e sua Orquestra.


Ficha Técnica

Produção: Companhia Brasileira de Discos
Arranjos: Lindolfo Gaya e Rogério Duprat

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