Discos Fundamentais


Orlando Silva
Carinhoso
1959



     Uma das tradições da música popular brasileira é a revelação de grandes cantores que no decorrer da história deixaram um legado dos mais significativos afirmando-se como verdadeiros e legítimos patrimônios culturais do país.

     Houve um tempo em que o bel canto, o dó de peito, era sinônimo de força e beleza vocal, essa característica interpretativa gerou representantes ilustres destacando-se Vicente Celestino e Francisco Alves que tiveram seu apogeu entre as décadas de vinte a quarenta do século passado. Numa época em que o rádio como meio de divulgação de música popular dava seus primeiros passos esses artistas eram tratados como grandes ídolos nacionais e lotavam praças, teatros e seus discos vendiam aos milhares. Ocorre que com o surgimento de Mário Reis no final dos anos vinte até a segunda metade da década de trinta, quando ele se retira precocemente da vida artística, o dó de peito apesar de manter-se em alta divide seu prestígio em virtude da maneira descontraída e intimista que Mario empregou à sua interpretação.

     Por outro lado nos anos trinta tínhamos um mercado artístico promissor, pois além da força do radio, as gravadoras também apostavam em novos talentos a fim de formar um time de astros e estrelas que justificasse o investimento realizado e conseqüentemente a garantia de seus lucros. Vivíamos um momento fértil de produção artística e a musica popular era o segmento que mais crescia. Em virtude disso a cada hora surgiam novos valores, alguns alcançavam um êxito relativo e com pouco tempo sumiam de circulação, outros se mantinham em ascensão e tornavam-se grandes ídolos. Dentre esses últimos destacou-se Orlando Silva, um jovem humilde trocador de ônibus que tinha um timbre de voz encantador, afinadíssimo e uma sedução interpretativa sem precedentes.

     Levado à presença de Francisco Alves em 1934 pelo compositor e boêmio Bororó para que este o ouvisse, o Rei da Voz logo se encantou com o talento do jovem rapaz conseguindo para ele uma oportunidade em seu programa na Rádio Cajuti, abrindo-lhe as portas para o mercado musical e conseqüentemente à carreira artística. Daí em diante o nome de Orlando Silva só fez crescer, gravou um disco na Columbia e em 5 de julho de 1935 gravava seu primeiro disco na R.C.A. Victor com as músicas No kilometro 2, de J.Aimberê e Para Deus somos iguais, de J. Cascata e J. Barcellos.

     A partir de então inicia uma brilhante carreira de sucesso jamais igualada em toda a história da música popular brasileira. Com apenas três anos de sua estréia na Victor grava até 1938 um total de 37 discos com 73 músicas, praticamente todas de grande êxito, como, Ùltima estrofe e Apoteose de amor, de Cândido das Neves; Chora cavaquinho, de Waldemar de Abreu; Dama do cabaré, de Noel Rosa; Alegria, de Assis Valente e Durval Maia; Abre a janela, de Roberto Martins e Arlindo Marques Junior; Caprichos do destino, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz; Nada além, de Custódio Mesquita e Sady Cabral; Enquanto houver saudade, de Custódio Mesquita e Mário Lago; e Balalaika, de George Moran e O. Fernandes.

     Em 1938 após uma vitoriosa excursão a São Paulo onde protagonizou cenas impressionantes de popularidade e inéditas no Brasil, retorna ao Rio de Janeiro e ao se reapresentar no programa de Oduvaldo Cozzi da Rádio Nacional este o apresenta como O cantor das multidões, em alusão ao sucesso alcançado em São Paulo, firmando definitivamente o slogan que o identificaria pelo resto da vida.

      No ano de 1959 em comemoração aos seus vinte e cinco anos de carreira a R.C.A. Victor lança um disco contendo parte significativa de sua produção gravada entre 1937 e 1942. É um disco antológico com um repertório da mais alta qualidade, nele temos um intérprete com a voz um pouco mais grave daquela do início de carreira, mas conservando o timbre que o transformou no maior cantor brasileiro de todos os tempos. Ao regravar os antigos sucessos, Carinhoso de Pixinguinha e João de Barro; Lágrimas, Cândido das Neves; Mágoas de Caboclo, J. Cascata e Leonel Azevedo; Amigo Leal, Benedito Lacerda e Aldo Cabral; Súplica, Otávio Mendes, Jose Marcílio e Déo; Rosa, Pixinguinha; Lábios que beijei e Juramento Falso, J. Cascata e Leonel Azevedo; Aliança partida, Benedito Lacerda e Roberto Martins; Sinhá Maria, René Bittencourt, Jardineira, Humberto Porto e Benedito Lacerda e lançar o samba Aos pés da cruz, de Marino Pinto e Zé Gonçalves, Orlando Silva reafirmou seu grande talento. O LP foi um grande sucesso dando um novo impulso a sua carreira.

    Sobre o disco destacamos alguns trechos do critico e pesquisador Ary Vasconcelos em sua coluna de O Jornal: "Estamos diante a nosso ver do mais importante lançamento de 1959 em matéria de música popular brasileira. (...) Orlando Silva reafirmou suas velhas qualidades que comoveram o Brasil há cerca de vinte anos. Para nós, Orlando Silva é o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Sua voz sob o aspecto da beleza, não encontra absolutamente rival, pelo menos no Brasil. (...) Mas Orlando Silva não é apenas cantor dotado de insuperável beleza e voz é um intérprete dos maiores que já possuímos. (...) A maleabilidade de sua voz é extraordinária e Orlando que é um intérprete perfeito de música romântica é um sambista da melhor categoria. (...) Não canta nunca o mesmo verso da mesma maneira, sendo notável como se atrasa e se antecipa ao acompanhamento sem nunca perder o ritmo. Embora a Victor não tenha dado a Orlando o acompanhamento ideal, permitindo a entrada no estúdio do acordeão em nenhuma gravação antiga de Orlando se recorreu a esse instrumento (bom apenas para musicas sertaneja ou dançante), não poderemos negar a Orlando a nossa cotação máxima: 5 estrelas."

    A partir daí, ele que pertencia ao elenco da Odeon e havia sido cedido para a realização deste LP, retorna a sua antiga e primitiva gravadora reiniciando uma série de gravações e lançando inúmeros discos de grande sucesso comercial.

    Ao morrer em 1978 Orlando Silva já havia entrado para a história da cultura brasileira influenciando com seu canto grandes nomes da música popular que nele se espelharam como modelo de virtuosismo vocal e interpretativo, a exemplo de João Gilberto e Caetano Veloso.

    Este LP, portanto, comemorativo de seu jubileu de prata, reafirma em letras maiúsculas o merecido título de O cantor das multidões alem de glória máxima de nossa canção popular.


Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna 11 de maio de 2005


Músicas:

1) Carinhoso (Pixinguinha/ João de Barro)
2) Lágrimas (Cândido das Neves)
3) Mágoas de caboclo (J. Cascata/Leonel Azevedo)
4) Amigo leal (Benedito Lacerda/Aldo Cabral)
5) Spuplica (Otavio Mendes/Jose Marcílio/Déo)
6) Rosa (Pixinguinha)
7) Lábios que beijei (J. Cascata/Leonel Azevedo)
8) Juramento falso (J. Cascata/Leonel Azevedo)
9) Aliança partida (Benedito Lacerda/Roberto Martins)
10) Aos pés da cruz (Marino Pinto/Zé Gonçalves)
11) Sinhá Maria (René Bittencourt)
12) A Jardineira (Humberto Porto/Benedito Lacerda)




Comente esta matéria