Discos Fundamentais
Os Anjos Cantam
Nilo Amaro e seus cantores de ébano - 1962



     Todas as épocas da humanidade foram marcadas por momentos gloriosos e inesquecíveis que proporcionaram mudanças no desenvolvimento histórico responsáveis que foram pelos sucessos ou fracassos produzidos/realizados pelo homem o sujeito da história. Fatos e feitos notáveis de grande repercussão são estudados a exaustão e ao se situarem em um determinado tempo acabam ficando marcados como símbolos de uma época, desse modo ao falarmos por exemplo, no campo específico da musica das big bands norte americanas nos vem logo a mente o período compreendido entre os anos 40 e início dos 50 do século vinte. Se a memória nos remeter a Elvis Presley aos The Beatles e ao Pink Floyd o marco seria os anos cinqüenta, sessenta e setenta.

     No Brasil apenas para situar também alguns exemplos quando se fala de Noel Rosa o período é os anos trinta, de Emilinha Borba, o auge dos programas de auditório entre o fim da década de quarenta e inicio da de cinqüenta, em Bossa Nova a partir da segunda metade dessa mesma década, dos festivais e da vanguarda musical tropicalista os anos sessenta.

     Todos os artistas de modo geral incorporam aspectos de sua vivencia temporal e traduzem em suas musicas o clima de sua geração, contudo, muitos tornam-se celebridades e astros atemporais ou seja vão além de seu tempo, outros ficam marcados pelo curto período em que estiveram em evidência e na maioria das vezes acabam caindo no esquecimento ou são lembrados apenas por aqueles que se dizem saudosistas. No entanto este é um comportamento que deve ser mudado, afinal de contas, o fato de alguns artistas não terem tido uma carreira longeva não significa que sua obra seja considerada menor, pois, o critério a ser utilizado é a qualidade de sua produção e o que ela representou ou representa enquanto referência.

     Nesse aspecto é de suma importância que nos lembremos de um grupo musical que se destacou como um dos mais populares do país entre nos anos sessenta, trata-se de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano. Idealizado por Moises Cardoso Neves, verdadeiro nome de Nilo Amaro, o conjunto formado por negros e composto de um soprano, um mezzo soprano, um contralto, dos baixos, um tenor e três barítonos, teve seu nome inspirado numa árvore da família das ebenáceas que fornece uma madeira escura, pesada e muito resistente, dando origem a expressão “negro como Ébano. Porém o ingrediente negro não estava representado apenas pela raça de seus integrantes e sim pelas características interpretativas de seu canto. Nilo Amaro e seu grupo foram os responsáveis pela introdução e versão brasileira do spirituals canto afro religioso dos negros americanos que daria origem aos blues e ao jazz e também o precursor da musica gospel em nosso país.

     O repertório do grupo também é marcado pela forte presença de clássicos da musica popular brasileira abrangendo desde temas folclóricos ate sambas, sambas canções, todas e outros gêneros. Depois de muitas tentativas de mostrarem sua arte foram incentivados pelo diretor da Odeon, Ismael Corrêa a gravaram em 9 de junho de 1961 seu primeiro disco 78 rotações com as músicas A noiva , de J. Prieto e Fred Jorge e Greenfields , de T. Gilkyson, R. Deher, versão de Romeo Nunes, duas canções de sucesso que os projetaram definitivamente. No entanto a consagração viria com o lançamento do LP Os anjos cantam, gravado em 1962 tendo como carro chefe o baião Leva eu sodade , de Tião Neto e Alventino Cavalcanti, transformada em toada por Nilo Amaro, destacando-se o solo de Noriel Arantes um dos mais destacados integrantes do conjunto. Na ocasião era comum antes da realização de um LP gravar-se um disco 78 rotações ou compactos como também eram conhecidos para avaliar artistas iniciantes e depois de testado a sua penetração no mercado usar a mesma estratégia para relançar as musicas mais significativas de um LP de sucesso foi o que ocorreu com Leva eu sodade , relançada no formato econômico pela Odeon.

     O LP dos Cantores de Ébano cujo título passou a ser uma referencia para identificá-los fez tanto sucesso que proporcionou a realização de outros excelentes trabalhos transformando o grupo num dos ícones mais marcantes da musica popular brasileira dos anos sessenta. A popularidade alcançada esta bem demonstrada numa nota do Jornal O Dia, de Porto Alegre, na seção Discomentando de 27 de julho de 1962:

     “Surpreendente o sucesso dos Anjos que Cantam – O grande sucesso que vem obtendo os discos de Nilo Amaro e os Cantores de Ébano é surpreendente. Por isto entramos em contato com diversas lojas especializadas em discos para que nos informassem sobre a venda dessas gravações. Na Casa do Rádio estavam esgotados os discos long-plays e somente havia um compacto a venda. Enquanto isto, a firma Studio Artes Reunidas conseguiu vender em apenas um dia 56 compactos. Na Casa Sonora estavam esgotados todos os discos de Nilo Amaro, tendo sido feito de imediato novo pedido a Odeon. Nas outras lojas que visitamos haviam poucos discos. Realmente merecem este êxito, Nilo Amaro e os Cantores de Ébano, os “anjos que cantam”.

     No disco destacam-se ainda, Fiz a cama na varanda , de Dilu Melo e Ovídio Chaves; A lenda do Abaeté , de Dorival Caymmi; Azulão , de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira; Minha graúna , de Tião Neto e Avarese, além de um clássico do spirituals, Down by The Riveriside .

     Os pesquisadores de nossa musica popular não dimensionaram ainda a verdadeira importância que teve Nilo Amaro e seu grupo, talvez, o único em seu tempo que sofrendo influencias de conjuntos e cantores americanos como os The Platters, Nat King Cole, Ray Charles e outros soube incorporar e reinterpretar o estilo yankee ao mais puro sentimento, lamento e alegria de nossa raiz negra mais profunda.

     Nilo Amaro faleceu em Goiânia aos 76 anos em 18 de abril de 2004, mas seu legado não deve nunca ser silenciado nem ficar nos escaninhos de nossa memória, muito pelo contrário devemos divulgá-lo permanentemente para que ele possa ser cada vez mais conhecido e admirado a fim de demonstrar aos de hoje em dia que influencia estrangeira não é copia, nem adaptação feita de qualquer jeito misturada com comentários sem nexo, pois o verdadeiro artista é aquele que sabe perceber o valor do outro não esquecendo o seu e incorporar elementos de suas raízes numa releitura própria e autentica, desse modo Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano souberam muito bem fazer uma ponte única entre a Cabana do Pai Tomaz e nossas tradições folclóricas, unir Kunta Kintê com Zumbi cantando o spirituals e o gospel com nossos gêneros musicais mais autênticos produzindo uma musica de excelente qualidade e brasileiríssima. Leva eu, sodade!

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 1 de novembro de 2005


Músicas

01)Leva eu sodade (Tião Neto/Alventino Cavalcante) – Solos de Nilo amaro e Noriel Arantes
02)Boa noite (Francisco J. Silva/Iza M. da Silva) – Solo de Nilson Prado
03)Fiz a cama na varanda (Dilú Melo/Ovídio Chaves)
04)Canção de ninar meu bem (Bidu Reis/gracindo Junior) – Solo de Nilson Prado
05)Down by the riverside (Dazz Jordan)
06)Greenfields (Terry Gilkyson/Richard Deher/Frank Miller/Versão de Romeo Nunes) – Solo de Nilson Prado
07)A lenda do Abaeté (Dorival Caymmi) – Solo de Noriel Arantes
08)Azulão (Jayme Ovalle/Manuel Bandeira)
09)Eu e você (Roberto Muniz/Jairo Aguiar) – Solo de Nilo Amaro
10)Minha graúna (Tião Neto/Avarese) – Solo de Nilo Amaro
11)Dorinha (Tião Neto/Ary Monteiro) – Solo de Nilo Amaro
12)A noiva (Joaquim Prieto/Versão de Fred Jorge) – Solo de Nilson Prado



Ficha Técnica

Foto: Francisco Pereira
Direção artística: Ismael Correa
Produtor fonográfico: Indústrias Elétricas e Musicais Fábrica Odeon

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