Discos Fundamentais
Maria Lucia Godoy
O canto da Amazônia
1969




     Quantos Brasis existem no Brasil? Certamente um dirá a maioria achando incoerente esse questionamento. Realmente se formos analisar a pergunta do ponto de vista da leitura literal ele estará sem fundamento, mas se pensarmos um pouco mais e adentrar com profundidade no que ela encerra verificaremos que a superficialidade da análise irá desaparecer, seremos instigados a uma reflexão maior e conseqüentemente a um entendimento mais abrangente sobre o que ela propõe enquanto provoção reflexiva.

     O Brasil é um imenso país, o quinto do mundo em extensão com uma vantagem entre os grandes países do planeta pois tem uma uniformidade lingüística que perpassa todo seu terrotório, ressalvando-se apenas alguns termos regionais que não interferem no diálogo entre seus habitantes, ao contrário estimulam o conhecimento crescente da língua pátria. Do mesmo modo que os regionalismos encontrados na língua enriquecem o nosso patrimônio lingüístico, assim se da com as diversas manifestações culturais que representam nossas cinco regiões e que analisadas em conjunto ou separadamente formam a nossa identidade. Contudo, a penetração de outras culturas brasílicas nos grandes centros urbanos localizados no sudeste nem sempre se deram de modo efetivo, ficando em grande parte dos casos restritos ao seu local de origem e quando mostrados e divulgados eram vistos como manifestações exóticas de uma região pouco explorada e por isso mesmo desconhecida do resto do país.

     De uns anos para cá com o crescente aumento das comunicações, principalmente da televisão, essas fronteiras diminuíram dando-nos uma exata dimensão de nossa pluralidade e com ela interagindo de modo substancial contribuindo assim para o pleno conhecimento e assimilação de nossa nacionalidade, esse redescobrimento recente tem propiciado uma visão mais ampla de nosso universo cultural dimensionando as riquezas do Brasil para seus filhos e integrando as diversas regiões que passaram a orgulhar-se mais de suas tradições podendo compartilhar agora com seus patrícios, não apenas com o estigma de exóticos mas sim como uma visão ampla e real do que representamos enquanto povo e nação.

     Mas se esse é um fenômeno positivo relativamente recente, há não muitos anos respirávamos ainda o ar de um Brasil profundo pouco descoberto por seus filhos e dessa maneira os esforços empreendidos para diminuir essas fronteiras eram divulgados por outros meios, dentre eles o cinema educativo, o rádio, as revistas, as apresentações artísticas, publicações de livros e a produção de discos. No mundo não globalizado e ainda não plugado na Internet e em aldeia global via grandes redes de TV a imagem desse país de contrastes e riquíssimo em manifestações culturais ainda pouco visíveis tinha na musica popular um meio extraordinário de divulgação dessas diferenças diminuindo as distancias e aumentando a integração.

     Uma região pouco conhecida em sua totalidade era a Norte pincipalmente o seu núcleo amazônico que era tida como local de índios, fartura de rios e florestas, porem inexpugnável, sua cultura era pouco divulgada e sua musicalidade mais ainda, contudo, coube ao fabuloso compositor paraense Waldemar Henrique a tarefa de difundir a riqueza de suas lendas e tradições para o resto do Brasil construindo uma obra de alto nível recebendo por isso elogios e homenagens, além de ser considerado um dos mais importantes compositores brasileiros. A partir do sucesso de suas musicas difundidas no sudeste e gravadas pelos mais diversos interpretes desde a década de trinta do século passado conseguiu diminuir o espaço existente entre seu chão e o resto do país. A musica da amazônia finalmente foi revelada e o Brasil se descobria e se identificava nela. Considerado um ícone da musica nacional a obra de Waldemar Henrique passa a ser uma referencia e daí surgem uma geração de outros compositores e interpretes que passam a ter cada vez maior visibilidade para falar da região Norte.
Com essa integração musical estabelecida coube a uma das nossas mais ilustres intérpretes a mineira Maria Lucia Godóy a responsabilidade de levar para o disco em 1969 por ocasião do terceiro centenário de Manaus uma parte significativa da obra de Waldemar Henrique e outras composições homenageando essa que é uma das nossas mais ricas e belas regiões.

     O LP intitulado O canto da Amazônia, traz 16 musicas com arranjos do Maestro Guerra Peixe e faz um verdadeiro painel deste Brasil na época ainda não tão explorado nem conhecido devidamente por seus filhos. Canções como, Foi boto sinhá, contando a história do peixe que em noite de lua se transforma num belo rapaz para seduzir as virgens; Tambatajá, oração à planta sagrada dos índios Macuxi do Oiapoque; Matintaperêra, o passaro de canto agourento que nas noites de sexta feira se transforma em bruxa; Uirapuru, um dos pássaros amazônicos de mais belo canto; Curupira, gênio Curumim que defende os bichos e as matas atemorizando caçadores; Manhã–Nungara, o grito dado pela virgem morena quando arrastada para o fundo do rio pelo boto branco e a Cobra grande que sai uma vez por ano de sua toca para escolher uma noiva entre as Cunhatãs do Amazonas, todas compostas pelo gênio criador de Waldemar Henrique, somam-se a outras belas composições de outros artistas não amazônicos demonstrando a força integradora da musica popular enquanto elo de ligação entre as nossas diversas culturas regionais, destacando-se, Acalanto a rosa, Luar de meu bem e Pregão da saudade, de Vinicius de Moraes e Cláudio Santoro, além de Murucututu e Cabocla bonita, ambas recolhidas por Mario de Andrade e harmonizada por Aloísio de Alencar Pinto.

     A bela interpretação de Maria Lucia Godóy uma artista que precisa ser mais divulgada e aclamada merecidamente como uma das maiores cantoras brasileiras, seja no canto lírico ou popular faz deste disco uma obra prima de brasilidade e um dos belos exemplos desses imensos brasis que ainda temos que conhecer e admirar.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 1 de fevereiro de 2006.



MÚSICAS:
01) Acalanto da rosa (Cláudio Santoro/Vinicius de Moraes)
02) Luar de meu bem (Cláudio Santoro/Vinicius de Moraes)
03) Pregão da saudade (Cláudio Santoro/Vinicius de Moraes)
04) Menina dos olhos verdes (Pedro Amorim/Pedro Tuffic)
05) Toada baré (Arnaldo Rabelo)
06) Mãe D’Água (Guerra Peixe)
07) Cantos de Çairé (Arranjo Villa Lobos)
08) Foi boto sinhá (Waldemar Henrique/Antonio Tavernard)
09) Cobra grande (Waldemar Henrique)
10) Tambatajá (Waldemar Henrique)
11) Matintaperêra (Waldemar Henrique)
12) Uirapuru (Waldemar Henrique)
13) Curupira (Waldemar Henrique)
14) Manhã-Nungara (Waldemar Henrique)
15) Murucututu (Recolhida por Mario de Andrade/Harmonização por Aloísio de Alencar Pinto)
16) Cabocla bonita (Recolhida por Mario de Andrade/Harmonização por Aloísio de Alencar Pinto)



Ficha Técnica

Produtor fonográfico: Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro
Produção: Ricardo Cravo Albin
Técnico de gravação: Paulo Lavrador
Montagem: Sergio Junqueira
Foto da capa: Antonio Carlos
Contra-capa: Élson Farias

Daudeth Azevedo (Neco): Violão
Bridget Moura Castro: Clarineta
Odete Ernst Dias: Flauta
Peter Dausberg: Violoncelo


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