Discos Fundamentais
Maria Bethânia
Recital na Boite Barroco - 1968


     Muitas pessoas não acreditam em destino acham que já nascemos com as nossas vidas traçadas, muitos pensam que a sorte é o fator responsável por inúmeros acontecimentos de nossa existência e ainda há aqueles que advogam o merecimento das coisas boas da vida como conseqüência de nossos atos. Seja qual for o motivo, o certo é que estamos à mercê de todos estes fatos e é claro precisamos também fazer a nossa parte para que eles dêem resultados ou façamos jus àquilo que nos foi colocado como opção em determinado momento crucial de nossa existência.

     Podem achar irônico, mas foi assim que aconteceu quando uma gripe acometeu Nara Leão deixando-a afônica e impossibilitada de participar de algumas apresentações do show Opinião que fazia muito sucesso, ao lado de Zé Kéti e João do Vale. A fim de não sofrer interrupções das apresentações do espetáculo foi solicitado então a substituição de Nara por uma cantora recém chegada da Bahia, muito jovem ainda e tímida, porém possuidora de grande talento, seu nome, Maria Bethânia.

     O destino então fez a sua parte, ela aceitou o convite, e ao entrar no palco do Teatro Arena naquele 13 de fevereiro de 1965 e abrir seu vozeirão interpretando dentre outras canções, "Carcará" de João do Vale e José Cândido, apresentou ao Brasil toda a sua arte e se fez uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, portanto se a vida lhe deu uma oportunidade tão boa, ela também fez a sua parte e ganhou o merecimento, os aplausos e o reconhecimento da sua e de outras gerações que se seguiram apreciando seu canto.

     Com tanto sucesso é obvio que o caminho dos estúdios de gravação era uma conseqüência imediata e Maria Bethânia então gravou seus primeiros discos, todos de muito êxito e formou seu público, que lotava também todas as suas apresentações nos teatros do Brasil, aplaudindo freneticamente o seu talento em interpretações memoráveis, além de sua postura firme no palco, senhora absoluta do pedaço, bailando, cantando e recitando, uma artista completa.

     Ao lado se seu irmão Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, apresentou o em setembro de 1965 o espetáculo Arena Canta Bahia dirigido por Augusto Boal no Teatro Brasileiro de Comédia (T.B.C.) em São Paulo, e nos anos seguintes realizou temporadas em Salvador e Rio de Janeiro, nas boates Cangaceiro e Barroco, sendo que as apresentações desta última resultaram num dos discos mais importantes de sua carreira. Lançado em 1968 o Recital na Boite Barroco nos traz uma intérprete em um momento mágico de sua trajetória, Bethânia que sempre foi muito criteriosa na escolha de seu repertorio se apresenta neste show/disco de maneira sublime, apresentando novas canções como, "Marginalia II", de Gilberto Gil e Torquato Neto; "Pé na Roseira" e "Ele falava nisso todo dia", de Gilberto Gil; "Baby", de Caetano Veloso e "Maria, Maria", feita especialmente para ela por Caetano e Capinam.

     Apesar de prestigiar o talento de seus conterrâneos, Maria Bethânia, recriava também clássicos da música popular brasileira que iriam encontrar em sua interpretação, momentos se não definitivos, pelo menos fundamentais, é o caso de "Carinhoso", de Pixinguinha e João de Barro; "Último desejo", de Noel Rosa; "Se todos fossem iguais a voce" e "O que tinha de ser", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; "Marina", de Dorival Caymmi; "Camisa listada", de Assis Valente; "Molambo", de Jayme Florence e Augusto Mesquita; "Lama", de Paulo Marques e Aylce Chaves; "Pano legal", de Billy Blanco e "Café soçaite", de Miguel Gustavo.

     Iniciando com este trabalho uma tradição em sua carreira que seria gravar discos ao vivo, Maria Bethânia, tem seu talento reconhecido no texto da contra-capa escrito pelo poeta Ferreira Gullar, ao afirmar que, "Bethânia é uma cantora nacional, deste país, enraizada nele, e na multidão de vozes e cantos que exprimem a nossa vida destaca-se a sua, bela, já turva, já iluminada, que canta por nós".

     O tempo passou e Maria Bethânia construiu uma das mais brilhantes carreiras de intérprete da música popular brasileira, sua obra é referência fundamental para conhecer a beleza de nosso cancioneiro, e este disco é um desses momentos encantadores que ficam para sempre.

     Finalmente apenas para atualizar o que o poeta disse a 36 anos, afirmamos sem nenhum exagero que ela é hoje a maior cantora de nossa música popular, pois quanto mais o tempo passa, mais sua voz se torna bela e seu canto universal, é a nossa diva maior, que encanta a pessoas de todas idades com seu talento inigualável, e o que é melhor ainda é saber que ela é baiana, cheira a dendê, recebe as bênçãos de Nossa Senhora da Purificação e dança e canta o recôncavo baiano como ninguém, é a imagem pura e alegre da terra de todos os santos, essa já jovem/senhora de tantos cantares. Salve! Salve!

Luiz Américo Lisboa Junior


Músicas:

01 - Marginalia II
     (Gilberto Gil e Torquato Neto)

02 - Carinhoso
     (Pixinguinha e João de Barro)
     Se todos fossem iguais a você
     (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

03 - Último desejo
     (Noel Rosa)

04 - Camisa listada
     (Assis Valente)

05 - Marina
     (Dorival Caymmi)

06 - O que tinha de ser
     (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

07 - Molambo
     (Jayme Florence e Augusto Mesquita)

08 - Lama
     (Paulo Marques e Aylce Chaves)

09 - Pano legal
     (Billy Blanco)
     Café soçaite
     (Miguel Gustavo)

10 - Pé da roseira
     (Gilberto Gil)

11 - Ele falava nisso todo dia
     (Gilberto Gil)

12 - Maria, Maria
     (Caetano Veloso e Capinam)


Ficha Técnica

Maria Bethânia
Recital na Boite Barroco


Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor musical: Lyrio Panicalli
Diretor técnico: Z. J. Merky
Técnico de gravação: Jorge Teixeira da Rocha
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Lay-out: Joel
Foto: Mafra
Desenho da capa: Luiz Jasmim
Acompanhamento: Terra Trio
Violão: Otto Gonçalves Filho

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