Discos Fundamentais


MARCOS VALLE
SAMBA DEMAIS - 1963



     Durante os anos de 1956 a 1963 o Brasil viveu um período de intensas transformações culturais que foram decisivas para o seu amadurecimento enquanto nação, nesta ocasião tinha-se a impressão que a democracia estaria consolidada e que nada abalaria o entusiasmo desenvolvimentista que seria a marca principal da era juscelinista. Mas se eram evidentes os sinais de progresso este teria seu lado lúdico encabeçado pela Bossa Nova que inseria a musica popular brasileira nesse caminho de modernidade e vanguarda cultural. Como todo movimento artístico de peso a Bossa Nova produziu depois de sua consolidação uma nova geração de compositores e intérpretes que seguiriam seus passos e se tornariam ídolos e referencias nos anos sessenta, sendo que alguns deles ficariam presos à sua época e outros superariam as barreiras do tempo construindo uma carreira sólida e longeva.

     Entre os novos talentos que estavam despontando destacavam-se os irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle este um excelente letrista sendo, porém, o primeiro o que mais se destacaria como músico. Nascido no Rio de Janeiro em 14 de setembro de 1943 Marcos Valle já aos treze anos formava-se em piano e teoria musical pelo Conservatório Hayddée Lázaro Brandt, passou a seguir a estudar acordeom e pouco tempo depois se dedicou ao violão. Em 1961 formou um trio com Edu Lobo e Dori Caymmi e começou a compor. A primeira musica gravada foi Sonho de Maria incluída no LP de estréia do Tamba Trio, Avanço, em 1963 chamando a atenção do público e da crítica ensejando-lhe a oportunidade de gravar seu primeiro disco, o que acabou ocorrendo neste mesmo ano. Lançado pela Odeon com o título de Samba Demais o primeiro LP de Marcos Valle fez um tremendo sucesso e fixou definitivamente seu nome como um dos grandes músicos da fase pós Bossa Nova. Das 12 faixas do LP seis são em parceria com seu irmão, e as outras de compositores diversos.

     Trata-se de um trabalho maduro apesar de ser feito por um artista em inicio de carreira, porém, seu talento e sensibilidade já o credenciavam a figurar entre os maiores nomes de sua geração, o que de fato ocorreu. O repertório é essencialmente bossanovista destacando-se as canções Moça flor, de Durval Ferreira e Luiz Fernando Freire; Ela é carioca, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; Ilusão á toa, de Johnny Alf e Vivo sonhando, de Tom Jobim. Da parceria com Paulo Sergio Valle, surgem pérolas como, Razão do amor, Amor de nada, Tudo de você, Sonho de Maria, Ainda mais lindo, E vem o sol e por fim A morte de um deus de sal, esta última tornando-se também um grande sucesso. As opiniões na ocasião a respeito de Marcos Valle são unânimes em relação ao seu talento, Tom Jobim o classificava como extremamente puro musicalmente, Eumir Deodato que fez os arranjos do disco afirmava que as musicas de Marcos Valle são uma permanente e inesgotável fonte de recursos para arranjos e Luiz Eça o considerava como um extraordinário reforço para a musica brasileira.

     Como se pode ver com apenas vinte anos o jovem compositor já era admirado por feras de nosso cancioneiro o que se de certa forma lhe daria mais segurança, por outro lado aumentaria a sua responsabilidade como compositor a fim de reafirmar as opiniões dadas a seu respeito. Recebendo vários prêmios por tão auspiciosa estréia fonográfica Marcos Valle confirmaria tudo que já se tinha dito sobre o seu talento compondo nos anos seguintes alguns clássicos de nossa canção moderna como Preciso aprender a ser só, em 1965; Samba de verão, em 1966; Viola enluarada, em 1967; Mustang cor de sangue e Dia deVitória, em 1969. Atuou no inicio dos anos setenta como compositor de trilhas para novelas da Rede Globo com destaque para o tema de abertura de Pigmaleão 70 e Quarentão simpático, de Assim na terra como no céu, de 1971, além do tema de fim de ano da emissora, Hoje é um novo dia, até hoje executado. Ainda em 1971 lançaria dois grandes sucessos, Com mais de trinta, em uma bela interpretação da cantora Claudia e Back is beautiful, imortalizada por Elis Regina.

     Marcos Valle construiu uma sólida carreira internacional gravando discos nos Estados Unidos e sendo um dos mais executados e respeitados artistas brasileiros na Europa e no Japão. Todo a credibilidade conquistada ao longo de mais de quarenta anos de carreira, porém, só foi possível graças a força de suas primeiras composições e de seu talento como intérprete demonstrados neste seu LP de estréia, que apesar da levada bossanovista já trazia elementos que norteariam os caminhos da musica brasileira em seu acelerado processo de transformação estética cujos resultados iriam encantar a nativos e estrangeiros, portanto, ao relacionar como fundamental a gênese da trajetória musical de Marcos Valle, representado neste LP faz-se justiça a um dos nossos mais talentosos compositores, cuja obra em sua integridade precisa ser cada vez mais divulgada, pois merece aplausos permanentes.

     Luiz Américo Lisboa Junior
     Itabuna, 25 de abril de 2006.



Músicas:

01) Vivo sonhando (Tom Jobim)
02) Amor de nada (Paulo Sergio Valle/Marcos Valle)
03) Moça flor (Durval Ferreira/Luiz Fernando Freire)
04) Canção pequenina (Pingarrilho)
05) Razão do amor (Paulo Sergio Valle/Msrcos Valle)
06) Tudo de você (Paulo Sergio Valle/Marcos Valle)
07) Sonho de Maria (Paulo Sergio Valle/Marcos Valle)
08) Ela é carioca (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
09) Ilusão à toa (Johnny Alf)
10) Ainda mais lindo (Paulo Sergio Valle/Marcos Valle)
11) E vem o sol (Paulo Sergio Valle/Marcos Valle)
12) A morte de um deus de sal (Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)




Ficha Técnica

Produtor fonográfico: Odeon S/A
Arranjos: Eumir Deodato

Comente esta matéria