Discos Fundamentais


Lenita Bruno
Modinhas fora de moda
1958



     Hoje em dia diante de todas as dificuldades e desafios da vida moderna as pessoas buscam incessantemente um futuro promissor cheio de felicidades. Alias esse objetivo sempre esteve presente em todas as épocas de nossas vidas, quando nascemos nossos pais nos desejam uma vida próspera e venturosa, quando nos formamos que tenhamos sucesso na profissão, no casamento que sejamos felizes para sempre, ou seja, estamos durante toda a nossa existência cobiçando, seja por vontade própria ou de terceiros uma vida feliz, um futuro radiante. Diante de tantas expectativas pouco olhamos para trás motivados que somos por um permanente otimismo que nos leva a crer que devemos olhar apenas para frente em direção as conquistas que almejamos. Realmente isso é muito importante, mas um olhar para trás também é necessário ate porque somos reflexos de nossas experiências anteriores e sofremos influencias de nossos país que ao mesmo tempo são um espelho de nossos avós e assim sucessivamente. Ora ser otimista, almejar conquistas é fundamental e imperioso para a nossa felicidade, porem, só iremos conhecer verdadeiramente o mundo que nos cerca e perceber nosso comportamento diante dele se nos debruçarmos diante de nossas conquistas e influencias adquiridas, pois são elas que ajudam a moldar a nossa personalidade e o nosso modo de ver e perceber as coisas..

     O Brasil de hoje certamente é um país bem diferente daquele que nossos pais vivenciaram a trinta, quarenta ou cinqüenta anos atrás. Contudo, eles tiveram a oportunidade de viverem o bastante para fazer comparações e emitir conceitos. Muito bem, feitas essas reflexões, vamos ao que nos interessa, que é o campo cultural, em especial da música popular e indagar o seguinte: será que nos dias de hoje nos temos uma opinião abalizada sobre as influencias formadoras de nosso nacionalismo musical? Alguém já se perguntou porque gostamos de samba, de choro e dos inúmeros ritmos e gêneros modernos? Provavelmente não, mas é importante esse questionamento afinal de contas precisamos estabelecer um contato mais estreito com nossas origens e isso so é feito se olharmos para trás, analisando o passado, retirando-o muitas vezes da obscuridade e levá-lo a luz do presente, para que ele cintile no futuro e não deixe as próximas gerações na escuridão do conhecimento e longe de suas raízes identificadoras.

     Essas idéias certamente não passaram despercebidas quando o jornalista Irineu Garcia resolveu criar nos anos cinqüenta o selo fonográfico Festa a fim de registrar belos e marcantes momentos da musica e da poesia brasileira tornando-o num dos nossos mais relevantes patrimônios culturais de um passado recente e de importância atemporal, pois, deixou registrado autênticos valores de nossa nacionalidade artística.

    Um dos significativos projetos por ele idealizados foi um LP gravado em 1958 com o sugestivo título de Modinhas fora de moda, como se quisesse olhar, retomar e reconstruir um passado distante de nosso país que caminhava àquela época num ritmo de desenvolvimento frenético em todas áreas notadamente na música popular resultando no movimento Bossa Nova.

     Realmente modinhas eram coisas do passado, mas era necessário revivê-las, afinal de contas elas estão na base de nossa formação musical. Definida a idéia central do LP foi convidada então para interpretar o belo repertório a cantora Lenita Bruno, esposa do maestro Leo Perachi responsável pelos arranjos do disco. Nascida no Rio de Janeiro em 8 de dezembro de 1926 e falecida na mesma cidade em 24 de agosto de 1987 foi uma das mais destacadas interpretes brasileiras, hoje infelizmente um tanto esquecida.

    Procurando resgatar e divulgar um tempo romântico e nostálgico de nossa canção realizando um primoroso trabalho de pesquisa o disco nos traz modinhas de autores antigos e modernos que se tornaram referencia no gênero, como Cantigas, de Alberto Nepomuceno e Branca Colaço; Modinha, de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira; Conselhos, de Carlos Gomes e Velho Experiente; Lundu da Marquesa de Santos, de Heitor Villa Lobos e Viriato Correa; Cantiga, de Barroso Neto e Luis Guimarães, os clássicos, Casinha pequenina, Se os meus suspiros pudessem, Hei de amar-te ate morrer, Foi numa noite calmosa, e Róseas Flores da Alvorada, harmonizadas por Leo Perachi, Batista Siqueira, Mario de Andrade e Luciano Gallet além de outros números de rara beleza que compõem um cenário e um clima que nos conduzem a imaginar e a sentir como eram os momentos de enlevo e encantamento de outrora.

    O apurado trabalho artístico deste disco com Lenita Bruno em um de seus momentos mais notáveis e Leo Perachi inspiradíssimo, além é claro da beleza e da suavidade das canções fazem desse LP uma refinada obra de arte, digno de todos os elogios que recebeu na época de seu lançamento, inclusive do maestro Villa Lobos que o considerou excepcional do ponto de vista artístico e documental. Contudo a melhor definição veio do seu idealizador, Irineu Garcia, ao afirmar que a gravação do LP foi um ato de amor, podendo aqui também ser interpretado como um louvor a arte e a cultura brasileira.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 23 de fevereiro de 2005.


Músicas:

1) Cantigas (Alberto Nepomuceno/Branca Colaço)
2) Casinha pequenina (Anônimo) - Harmonização de Leo Perachi
3) Se os meus suspiros pudessem (Anônimo) - Harmonização de Batista Siqueira
4) Hei de amar-te ate morrer (Anônimo) - Harmonização Mário de Andrade
5) Canção da felicidade (Barroso Neto/Nosor Sanches)
6) Lundu da Marquesa de Santos (Heitor Villa Lobos/Viriato Correa)
7) Conselhos (Carlos Gomes/Velho Experiente)
8) Foi numa noite calmosa (Anônimo) - Harmonização de Luciano Gallet
9) Cantiga (Barroso Neto/Luis Guimarães)
10) Róseas flores da alvorada (Anônimo) - Harmonização de Mário de Andrade
11) Modinha (Jaime Ovalle/Manuel Bandeira)
12) 1º. Trova (Alberto Nepomuceno/Osório Duque Estrada)
13) 2º. Trova (Alberto Nepomuceno/Magalhães Azeredo).



Ficha Técnica

Direção e produção: Irineu Garcia
Direção artística: Leo Perachi
Capa: Ari Fagundes

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