Discos Fundamentais
Juca Chaves
As Duas Faces de Juca Chaves
1961


     A modinha é um tipo de canção lírica e sentimental derivada da moda portuguesa que se tornou muito popular a partir da segunda metade do século XVIII. No Brasil ela toma grande impulso entre o final do século XIX e início do XX passando a ser o gênero musical mais representativo do país - passando nessa ocasião a ter no violão o instrumento perfeito para o seu acompanhamento. Durante toda a primeira década do século passado a modinha continua muito popular, mas a partir da segunda metade dos anos vinte começa a sofrer um declínio em função do surgimento de outros ritmos como o samba e a marcha. Ela passa então a ser cultuada pelos seresteiros e inicia um processo vertiginoso de mudança de ambiente, sai dos centros urbanos e interioriza-se.

     Na mesma época em que a modinha iniciava sua trajetória, ou seja, lá pelos idos do século XVIII, uma outra modalidade artística também largamente utilizada pela literatura estava em voga. Era a sátira, mistura de prosa e verso de origem medieval que tinha por objetivo censurar os costumes, as instituições e as idéias políticas ou sociais com um estilo irônico e mordaz. Fazia também uma crítica severa ridicularizando defeitos ou vícios de pessoas - geralmente personalidades influentes - de forma zombeteira, jocosa e muitas vezes picante. Aliás, esta sua última característica também era utilizada como motivo para embalar as melodias das canções em que emprestava seus versos e fazia a diversão de nobres e plebeus.

     O personagem representativo das sátiras era o menestrel, surgido na idade média. Era de origem plebéia, geralmente a serviço de um rei ou um nobre. Era um cantor ambulante, um trovador, que fazia a diversão da corte. O porta-voz das camadas baixas da população. Porém, por causa de seu talento e das suas canções ferinas, era respeitado e admirado por todos. Ninguém ousava desafiá-lo

     Quando o menestrel já estava definitivamente confinado nos livros de história, a sátira esquecida e a modinha sobrevivendo em suas últimas noites de luar nas pequenas cidades do interior, eis que surge um artista notável retomando uma tradição esquecida e completamente fora dos padrões litero-musicais da sua época: Juca Chaves. O Brasil vivia nos anos cinqüenta o vigor da Bossa Nova, tínhamos um país livre em plena democracia, a modernidade e o processo desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubitschek era a tônica do momento. Porém, contrariando todas as regras, o jovem artista lança alguns discos 78 rotações com um repertório de sátiras e modinhas, que viria depois reunir (e acrescentar outras) num LP lançado em 1961, com o sugestivo título de "As Duas Faces de Juca Chaves". Para surpresa de muitos, as modinhas fizeram sucesso no país inteiro. As sátiras também. O chefe da nação passou para a história definitivamente como o "Presidente Bossa Nova", título de uma das canções do LP. E Juca Chaves fez a diversão de nobres e plebeus modernos.

     Um disco histórico, com modinhas caprichosamente arranjadas e orquestradas e sátiras para todos os gostos, numa mistura inigualável na música popular brasileira. Nele estão presentes clássicos como "Nasal sensual", "Atraso e solução", "Por quem sonha Ana Maria", "O tempo passa", "Aquarela de sonhos", "Menina", "Meu violão morreu" dentre outras.

     Esse LP de Juca Chaves é um marco da música popular brasileira, pois retoma um de nossos mais autênticos gêneros musicais. É o primeiro disco de modinhas contemporâneas brasileiras, servindo também como marco fundador das sátiras políticas modernas que seriam muito importantes para manter o espírito galhofeiro e folgazão do povo brasileiro, fazendo a trilha sonora de uma época que em muito pouco tempo depois nos mergulharia em trevas. Mas que, felizmente, o nosso menestrel não deixou, conseguindo alegrar e constranger quartéis, a plebe de um pais enfermo, e não deixar que "a lua vá dormir encabulada nas passarelas da madrugada". E viva o caviar com acarajé! (argh!!!!!!!).

     Luiz Américo Lisboa Junior

Músicas:

01- Presidente Bossa Nova
02- Nasal sensual
03- Violão no ombro
04- Nós, os gatos
05- Atraso e solução
06- Tô duro
07- Menina
08- Aquarela de sonhos
09- Musa infiel
10- Por quem sonha Ana Maria
11- O tempo passa
12- Meu violão morreu

Músicas e letras da autoria de Juca Chaves

    

Ficha Técnica

As Duas Faces de Juca Chaves

Gravadora RGE
Conjunto RGE
Direção: Henrique Simonetti
Orquestra de Câmara RGE
Regência: Henrique Simonetti

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