Discos Fundamentais
Johnny Alf
Diagonal - 1964


     Durante os primeiros anos da década de 50 o Brasil vivia um período de intensa renovação cultural notadamente no campo da música onde se buscava um novo rumo para a nossa canção, por essa época surgiram vários artistas que iniciariam de forma despretensiosa modificações profundas e inovadoras que poucos anos depois viria a se consolidar como o maior e o mais duradouro movimento musical brasileiro, a Bossa Nova.

     Evidentemente que nada surge ao acaso e a história vêm demonstrando que muitas vezes personagens que aparentemente tem uma participação menor em determinado contexto histórico ao longo do tempo passam ser vistos como verdadeiros realizadores e precursores de movimentos artísticos/culturais, porém, não lhes é dada a importância que merecem, pelo fato de serem muitas vezes superados por elementos que se sobressaem de maneira mais intensa. No caso da Bossa Nova, por exemplo, surgiram na ocasião inúmeros compositores e intérpretes que apesar de figurarem como personagens fixos na história do movimento ficaram ao longo do tempo esquecidos ou amortecidos, necessitando, contudo, que ao se fazer uma revisão de época contextualizando a importância de cada um, colocá-los no seu devido lugar, dando-lhes o destaque que a história lhe atribuiu a fim de não se cometerem injustiças.

     Essa introdução vem a efeito porque o personagem em questão que iremos tratar é uma dessas figuras da música popular brasileira que precisa ter sua obra mais executada e lembrada por todos pois ele é um dos nossos mais importantes músicos e responsável por toda a onda que desaguou na Bossa Nova sendo um de seus mais ilustres personagens e acima de tudo, uma figura de proa do movimento, como um de seus precursores. Falamos de Johnny Alf.

     Nascido José Alfredo da Silva no Rio de Janeiro em 19 de maio de 1929 começou a aprender piano aos nove anos e a admirar a música americana tendo em George Gershwin e Cole Porter suas referências mais marcantes. Aos 14 anos formou um pequeno grupo que se apresentava nos subúrbios do Rio de Janeiro e por sugestão de uma amiga adotou o nome artístico para Johnny Alf logo após ter entrado para um conjunto formado por integrantes do Instituto Brasil Estados Unidos onde tocavam música americana. Com esse mesmo pessoal fundou um clube para intercâmbio e promoção de música brasileira e americana.

     Em 1949 com a adesão de Dick Farney o clube passou ser denominado Sinatra-Farney Fã Clube que tinha entre seus sócios artistas como Tom Jobim e Luis Bonfá, todos em inicio de carreira. Em 1952 Johhny Alf já é um artista razoavelmente conhecido tendo três de suas músicas incluídas no LP de estréia da cantora Mary Gonçalves. Pianista conceituado passa a fazer parte do conjunto do violinista Fafá Lemos um dos mais importantes da época. Em 1955 Johnny Alf grava sua primeira canção de sucesso, intitulada Rapaz de Bem que não só pela sua temática, mas pelo arranjo e harmonia revolucionários para a época passou a ser considerada como pioneira da Bossa Nova. A música popular brasileira através de Johhny Alf começava a modernizar-se.

     Atuando em diversas boates tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo consolidava-se como um dos mais requisitados pianistas populares brasileiros ao mesmo tempo em que compunha novas canções todas alcançando o êxito merecido. Em 1961 lança seu primeiro LP destacando-se Ilusão à toa, outro grande sucesso mostrando-nos o compositor em um dos pontos máximos de sua criação tanto melódica quanto poética.

     Em 1964 Johnny Alf grava seu segundo disco intitulado Diagonal mantendo uma seqüência de grandes êxitos como Seu Chopin, desculpe, um samba-sátira sobre um tema chopiniano revelando seu lado descontraído e irreverente, Céu e mar, constituindo-se sem sombra de dúvida no maior destaque do LP, pois mesmo sendo uma música já conhecida ganhou neste disco sua versão definitiva destacando-se a excelente performance vocal de Johnny Alf. Podemos destacar ainda no repertório as canções, Moça flor, de Luiz Fernando Freire e Djalma Ferreira, um clássico da Bossa Nova; Desejo do mar, de Marcus Valle e Paulo Sergio Valle, ambos em inicio de carreira; Diagonal, a faixa título, de Durval Ferreira e Mauricio Einhorn, um samba moderno que possibilitou a Johnny Alf evidenciar todo seu talento de improvisador, além de utilizar o processo de gravação superposta, uma novidade na época, no qual o intérprete fazia um dueto consigo mesmo e Disa, samba lento em parceria com Maurício Einhorn.

     Utilizando toda sua liberdade de criação harmônica, melódica e rítmica além de consolidar-se também como um grande intérprete e ter como parceiro nos arranjos o pianista Celso Murilo este disco de Johnny Alf constitui-se num dos pontos máximos da música brasileira contemporânea revelando um artista maduro, consciente, transgressor e acima de tudo revelador e que deu um novo sentido a nossa canção popular responsável que foi pelo seu processo de modernização.

     Apesar de estar distante da grande mídia que não reconhece e não oportuniza a que nossos grandes talentos mantenham-se em evidência, Johhny Alf com a qualidade de sua obra pode se orgulhar se pertencer ao primeiro time de artistas que fizeram a música popular brasileira ser reconhecida em todo o mundo, mas continua desconhecido em grande parte em seu próprio país, o que cá entre nós, não é nenhuma novidade já que, toda regra tem exceção, desaprendemos a ouvir, apreciar e cultivar uma boa música.

Luiz Américo Lisboa Junior.
Itabuna, 17 de novembro de 2005.


MÚSICAS:

01)Disa (Johnny Alf/Maurício)
02)O céu você (Luiz Bonfá/Maria Helena Toledo)
03)Bondinho do pão de açúcar (Armando Cavalcante/Victor Freire)
04)Podem falar (Johnny Alf)
05)Vejo a tarde cair (Tita Edwiges)
06)Desejo do mar (Marcus Valle/Paulo Sergio Valle)
07)Céu e mar (Johnny Alf)
08)Seu Chopin desculpe (Johnny Alf)
09)Diagonal (Durval Ferreira/Mauricio Einhorn)
10)Moça flor (Durval Ferreira/Luiz Fernando freire)
11)Termos de canção (Victor Freire/Johnny Alf)
12)Triste noturno (Zé Maria/Johnny Alf)




Ficha Técnica

Arranjos e regências: Celso Murilo
Órgão e piano: Celso Murilo
Trompetes: Santos/Maurílio/Hamilton/Julinho/Wagner
Sax tenor: Zé Bodega
Sax barítono: Aurino
Trombones: Macaxeira/Norato
Guitarra: Neco
Baixo: Luis Marinho
Sax alto e flauta: Jorginho
Bateria: Edson Machado
Vocal: Johnny Alf
Contra capa: Sergio Lobo
Produtor fonográfico: R.C.A. Victor

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