Discos Fundamentais


JOÃO GILBERTO
1973



     De tempos em tempos somos surpreendidos com uma onda ou um modismo que nos toma de assalto e de repente estamos aderindo a seus apelos, sendo que na maioria das vezes ficamos tão envolvidos pela novidade do momento que nossa consciência crítica fica embaçada e acabamos por fim tomando atitudes que depois de analisadas com um distanciamento temporal se tornam ridículas, esses “micos” que cometemos são invariavelmente resultados de uma explosão de emoções, muitas, inclusive represadas, onde os limites da racionalidade são esquecidos proporcionando-nos uma motivação que momentaneamente nos deixa felizes, leves, soltos e sem as amarras da vigília.

     A observância desse tipo de comportamento pode ser medida por exageros, no bom sentido que algumas gerações expressam para afirmar sua identidade, vejamos por exemplo os anos sessenta e inicio dos setenta, para a turma daqueles tempos a mensagem de paz e amor e a liberdade total com quebras de convenções estabelecidas pela sociedade como modelares ecoou por todo o planeta como uma forma de representação que marcou o comportamento daqueles jovens, hoje, muitos deles com certeza ao revisitarem sua consciência rebelde tomam atitudes conservadoras com seus filhos, riem dos excessos cometidos e orientam a garotada a tomarem cuidados com exageros, colocando a prudência de comportamento como norma.

     Observamos também que as chamadas ondas surgem e deixam marcas profundas em sua trajetória, no campo musical a partir da segunda metade dos anos setenta essa tendência só fez aumentar e podemos citar como a pioneira delas a discoteca que com seu som dançante embalou e fez a cabeça da juventude e de adultos também. Toda uma geração se fez representar através de roupas, acessórios, atitudes e o modelo de vida que emanava das noites frenéticas das boates, contudo, esse tempo passou, deixando suas marcas com seus sapatos altos, calças bocas de sino, meias soquetes, purpurina e muita adrenalina. A partir dos anos oitenta outras ondas foram aparecendo, no caso do Brasil tivemos a explosão do rock/pop com a proliferação de inúmeros grupos e a liderança de seu poeta maior responsável pelas mensagens que representavam o espírito e o modo de pensar daquela juventude, Renato Russo. Vivenciamos ainda a lambada, o sertanejo romantico/brega, o pagode/mauricinho e o axé com seu grito de guerra, ô ô, explicito em suas letras “inteligentes”. Seja como for, mesmo que não tomemos parte desses movimentos, que não o consideremos, não podemos dizer que eles nos são indiferentes, até porque de certa forma eles acabam influenciando um pouco o nosso cotidiano, mesmo que seja só para criticá-los o que reforça a idéia de que eles não nos passaram despercebidos.

     Vamos nesse momento agora pensarmos que existem artistas que têem a capacidade de passar por todas essas ondas sem modificarem a sua essência, permanecendo fieis a sua onda de origem, como aquela que se ergueu do mar sob os olhos e ouvidos atentos do baiano João Gilberto. Em sua trajetória de vida ele foi contemporâneo de todas essas tendências artísticas, viu as modificações que elas operaram no seio da sociedade e continuou com seu violão produzindo um som que não envelhece e o que é mais importante, conseguindo superar todos os modismos existentes perenizando sua arte de modo tão extraordinário que a deixa sempre atual e bela.

     Dentre os inúmeros momentos de brilho realizados por João Gilberto podemos citar em 1973 o lançamento de um LP que leva seu nome cujo virtuosismo de sua interpretação representa um dos pontos máximos da musica popular brasileira. É difícil afirmar quando João Gilberto consegue superar-se a si mesmo em talento e genialidade, mas com certeza neste disco ele estava particularmente iluminado, pois, podemos considerar todas as suas interpretações como clássicas. O repertório é formado por Águas de março, de Tom Jobim; Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso; Avarandado, de Caetano Veloso; Falsa baiana, de Geraldo Pereira; Undiú e Valsa, de sua autoria, e como destaques, se é que eles existem num desfile de canções tão memoráveis, Eu quero um samba, de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida; Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil; É preciso perdoar, de Carlos Coqueijo e Alcyvando Luz e Isaura, de Herivelto Martins
Ao recriar e revisitar antigos sucessos muitos deles já consagrados por outros intérpretes, João Gilberto impõe a essas canções um balanço e uma suavidade que as tornam ainda mais belas nos proporcionando um raro momento em que o artista procura atingir a perfeição. Um disco realmente fundamental pela pureza de som que dele emana e ainda pela sua permanência enquanto obra de arte, aliás esse o adjetivo mais apropriado para defini-lo. Portanto, não importa a onda, os modismos que elas acarretam ou as mudanças de comportamento da sociedade ao longo do tempo porque elas são efêmeras, passam, porém, o talento desse extraordinário artista que o mundo já se acostumou a consagrar permanecerá sempre como um diamante lapidado cujo brilho reluzirá permanentemente per seculae seculorum.

     Itabuna, 2 de maio de 2006
     Luiz Américo Lisboa Junior



Músicas:

01) Águas de março (Tom Jobim)
02) Undiú (João Gilberto)
03) Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso)
04) Avarandado (Caetano Veloso)
05) Falsa baiana (Geraldo Pereira)
06) Eu quero um samba (Haroldo Barbosa/Janet de Almeida)
07) Eu vim da Bahia (Gilberto Gil)
08) Valsa (João Gilberto)
09) É preciso perdoar (Carlos Coqueijo/Alcyvando Luz)
10) Izaura (Herivelto Martins/Roberto Roberti)




Ficha Técnica

Produtor fonográfico: Polydor
Direção de produção: Rachel Elkind
Coordenação de produção: Sue Cassidy Clark
Técnico de gravação e mixagem: W. Carlos
Violão e vocal: João Gilberto
Bateria: Sonny Carr
Background vocal em Izaura: Miucha
Corte: Joaquim Figueira
Capa: Lobianco

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