Discos Fundamentais


João de Barro
1972

    Por quanto tempo dura o sucesso de um artista? Será que ele tem talento suficiente para se manter em evidencia por muitos anos renovando seu trabalho com qualidade? Essa é uma questão crucial quando se analisa a trajetória de um compositor ou intérprete. Já há alguns anos vislumbramos um novo tipo de artista, aquele chamado descartável, usou, jogou fora, são artificialismos que servem unicamente para revigorar o mercado financeiro de algumas gravadoras, iludir o povo com uma proposta “profissional de qualidade”, mas que esconde no fundo o intuito de ganhar um dinheiro fácil, vendendo instantaneamente milhões de discos dividindo seu lucro com emissoras de radio e televisão que participam do bolo anunciando mais um “grande sucesso”.

    A história tem demonstrado que esses artistas de laboratório fabricados pelas multinacionais do disco expostos a venda como mercadoria e amparados por uma boa campanha publicitária de divulgação, acabam sempre caindo no esquecimento, não contribuem em coisa alguma para o engrandecimento cultural da nação acabando envelhecendo na sua mediocridade e quando alguém se lembra deles é apenas como uma breve citação de um curto período de tempo em que estavam em evidencia.

    Muitos inclusive nem isso conseguem e terminam ou mudando de profissão ou deprimidos porque não conseguiram mais espaço para divulgação de seus trabalhos, este é o fim melancólico de uma gama de artistas brasileiros que um dia se iludiram conscientemente ou não, achando que o sucesso é perene. Por fim aqueles que sobrevivem acabam tentando de tudo, mudam de visual, escolhem um repertório que em nada tem com sua proposta inicial, como se um dia tivessem tido alguma, tecendo opiniões do tipo“eu sempre gostei desse gênero musical, mas so agora tive realmente oportunidade de fazer um trabalho dentro daquilo que sempre desejei”, contrariando tudo que já havia feito antes numa tentativa de salvar-se do naufrágio em que se encontra. E o pior ainda surge quando ouvimos os tais “trabalhos”, pois são de uma mediocridade e pobrezas que nos da pena. Resta-lhes no final algumas apresentações em programas de baixa qualidade onde se apresentam como verdadeiros dinossauros sempre cantando uma ou duas canções que um dia a mídia ajudou a divulgar. Lastimável!!!

    Mas não estamos aqui para falarmos apenas de um assunto que tem o obvio como conceito, e sim, demonstrar o outro lado da moeda, a perenidade de um verdadeiro compositor popular cuja obra iniciada num tempo onde a televisão não existia, e o radio era o único e grande meio de divulgação, conseguiu a proeza de transformar quase todo seu repertório em clássicos permanentes da musica popular brasileira alcançando varias gerações a mais de 70 anos. O artista em questão é o compositor João de Barro, ou Braguinha como também é conhecido. Ao longo de seus lúcidos e gloriosos 98 anos de vida, construiu uma obra que é um patrimônio do nosso povo, uma verdadeira referencia cultural, cuja atemporalidade é atestada pelos inúmeros clássicos que produziu. Seu período áureo estende-se dos anos 30 a meados da década de sessenta, época em que compôs sucessos como, Pastorinhas , com Noel Rosa; Carinhoso , com Pixinguinha; Copacabana e Fim de semana em Paquetá , com Alberto Ribeiro, seu parceiro mais constante; Laura e Onde o céu é mais azul , com Alcyr Pires Vermelho; A saudade mata a gente , com Antonio Almeida; Anda Luzia ; Primavera no Rio e os clássicos carnavalescos, Touradas em Madrid , Yes nós temos bananas , Tem gato na tuba , Chiquita bacana , todas com Alberto Ribeiro; Uma andorinha não faz verão , com Lamartine Babo, e ainda Pirata da perna de pau , Vai com jeito , Tem marujo no samba, Linda lourinha e Balancei a roseira .

    Todas essas canções fazem parte do repertório de um LP lançado em 1972, o único de sua longa carreira, em que João de Barro interpreta suas composições realizando um balanço importante de sua obra naquilo que ele considerou como de mais representativo. Apesar de não ter tradição como intérprete ja há muito se esperava que Braguinha colocasse sua voz numa gravação comercial, pois, tinha um timbre vocal muito agradável, expressiva e bem timbrada, o resultado é um disco magnífico que contou com o talento de Radamés Gnatalli nos arranjos dando total liberdade a Braguinha para dar as suas musicas uma interpretação autoral e personalíssima.

    É também um disco histórico, pois se insere como documento de grande valor para a música brasileira, dando-nos a oportunidade de ouvir canções que se imortalizaram e que constituem páginas importantes da cultura nacional naquilo que ela tem de mais puro, singelo e autentico e que nunca serão esquecidas seja em que tempo for, pois, basta, o simples acorde de algumas delas que logo nos vem a mente o restante da melodia e da letra, mesmo porque, se os mais jovens, não a conhecem em maioria, a culpa não é deles e sim dos que contribuem para o “negócio da musica” priorizando no mercado os descartáveis do momento. Contudo, por mais que se esforcem para apagar da memória nacional obras como as de Braguinha, em algum lugar, terá sempre alguém que entoara a marcha rancho As pastorinhas , os versos de Carinhoso , As Touradas em Madrid , o Pirata da perna de pau , e a Chiquita Bacana , como tenho certeza que o caro leitor estará fazendo agora.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 14 de Setembro de 2005.


Músicas:

01)Anda Luzia (João de Barro)/Pastorinhas (João de Barro/Noel Rosa)
02)Linda lourinha (João de Barro)Touradas em Madrid (João de Barro/Alberto Ribeiro)
03)Yes, nós temos bananas (João de Barro/Alberto Ribeiro)/Pirata da perna de pau (João de Barro)
04)Tem gato na tuba (João de Barro/Alberto Ribeiro)/Uma andorinha não faz verão (João de Barro/Lamartine Babo)
05)Chiquita bacana (João de Barro/Alberto Ribeiro)/Vai com jeito (João de Barro)
06)Tem marujo no samba/Balancei a roseira(João de Barro)
07)Primavera no Rio (João de Barro)/Copacabana (João de Barro/Alberto Ribeiro)
08)Laura (João de Barro/Alcyr Pires Vermelho)
09)A saudade mata a gente (João de Barro/Antonio Almeida)
10)Fim de semana em Paquetá (João de Barro/Alberto Ribeiro)
11)Carinhoso (João de Barro/Pixinguinha)
12)Onde o céu é mais azul (João de Barro/Alberto Ribeiro/Alcyr Pires Vermelho).




Ficha Técnica

Arranjos: Radamés Gnatalli
Coordenação geral: Ramalho Neto
Coordenação artística: Arnaldo Scheneider
Layout: Tebaldo.

Comente esta matéria