Discos Fundamentais
João Bosco
Caça à Raposa - 1975


     A investigação histórica acerca do universo da música popular brasileira abrange diversos temas, todos com o objetivo de demonstrar sua riqueza e contextualizá-la em sua época. Nessa trajetória de pesquisa, pode-se caminhar através da interpretação de períodos distintos de nossa canção, Bossa Nova, Tropicália etc. Analisar biografias de compositores e intérpretes, situar a música popular e sua relação com as outras ciências como a sociologia e a filosofia, averiguar o seu desenvolvimento através dos meios de divulgação, inicialmente dos discos, depois do rádio e televisão e nos últimos anos pela Internet. Nesse sentido, visando dar uma maior amplitude no conhecimento da música brasileira, é que iremos iniciar uma nova fase em nossa coluna, inicialmente tecendo comentários acerca de discos fundamentais que fizeram história da nossa canção e que nortearam os rumos da M.P.B. ao longo do tempo.

     Em 1974 seria lançado o primeiro LP de João Bosco, intitulado Bala com Bala, o disco teve problemas com a censura e a sua divulgação ficou seriamente prejudicada, o que acarretou um certo desconhecimento sobre a sua existência, pois apenas alguns puderam adquiri-lo. No ano seguinte, em 1975 o compositor mineiro radicado no Rio de Janeiro e atuando já há algum tempo em parceria com o poeta carioca Aldir Blanc, lança aquele que para muitos seria verdadeiramente seu primeiro LP, cujo título é Caça a Raposa. Um trabalho belíssimo até porque trazia em seu repertório músicas que marcaram época como, O Mestre Sala dos Mares, De frente pro crime, "ta lá o corpo estendido no chão"; Dois pra lá, Dois pra cá, cujo verso, "no dedo um falso brilhante", serviu de tema para um aplaudidíssimo show de Elis Regina, que gravou com muito sucesso a canção, Escadas da Penha e Kid Cavaquinho dois excelentes sambas que as rádios tocavam a exaustão, isso numa época em que se ouvia música popular brasileira nas rádios.

     O disco ainda continha a música título, Caça a raposa, Jardins de Infância, e outro belo samba denominado Casa de Maribondo, além das intimistas e não menos belas, Nessa data, Violeta de Belfort Roxo e Jandira da Gandaia. A coordenação artística foi de Rildo Hora, arranjos e regências de César Camargo Mariano; Dino, violão sete cordas; Toninho Horta e Helio Belmiro, na guitarra; Luizão, no baixo; Pascoal Meireles, na bateria, além de Chico Batera e Everaldo Ferreira, na percussão.

     Com o estrondoso sucesso deste trabalho, as portas se abriram definitivamente para João Bosco, confirmando o que alguns já sabiam, de que ele se tornaria um dos grandes compositores da música brasileira, o que de fato ocorreu. Sua carreira foi pontuada por inúmeros êxitos subseqüentes, e seu nome se inscreveu com letras maiúsculas na história da música popular brasileira, proporcionando também o respeito e a admiração de seu parceiro, Aldir Blanc, como um dos grandes poetas de nossa canção, juntamente com outras feras como, Paulo César Pinheiro e Jose Carlos Capinan.

     Recentemente em um encontro com João em Ilhéus, onde conversamos longamente, perguntei-lhe sobre a importância deste trabalho para sua carreira, o que ele me respondeu de forma direta: Luiz, o Caça a Raposa foi tudo em minha vida e até hoje me rende frutos! A partir dele as pessoas tomaram conhecimento do meu trabalho, e hoje estou aqui!.

     Portanto, este é um disco fundamental de nossa música popular, presença obrigatória nas melhores discotecas, e referencial de uma época difícil, mas brilhante para a cultura de nosso país.

Luiz Américo Lisboa Junior


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