Discos Fundamentais
Ivan Lins
Agora
1971


     Recentemente foram divulgadas pesquisas dando conta do alto grau de despolitização da juventude brasileira concluindo que os jovens nascidos nos anos oitenta e hoje com vinte e vinte cinco anos demonstram uma certa apatia quando a questão é política, direitos, cidadania e outros temas ligados a nossa sociedade atual. Realmente se formos parar para olhar com mais acuidade essa questão verificaremos que estamos muito longe dos tempos em que a juventude saia as ruas gritando palavras de ordem contra os desmandos políticos ou buscava uma alternativa de convivência pacifica, paz e amor bicho, com aqueles que não os entendiam em sua busca de liberdade e autonomia. Claro que eram tempos mais duros, porém, havia um fator que me parece falta aos nossos jovens atuais e que pode ser resumida em uma única palavra: conscientização. Obvio que aqui não pretendo afirmar que temos em nossa volta um bando de alienados, mas que muitas vezes isso parece factível, não tenho dúvida.

     Pensemos por exemplo que a última manifestação mudancista ocorreu durante o governo Collor quando os cara pintadas saíram as ruas, isso ocorreu em 1992 e naquela ocasião quem tinha vinte anos ou um pouco mais nasceu entre o final dos anos sessenta e inicio dos setenta o quer dizer que ainda respiraram um pouco do arbítrio e puderam perceber o processo de redemocratização do país, além é claro, de terem referencias familiares e escolares que certamente deram-lhe uma visão mais consciente de seu papel na sociedade. Pois bem, de lá para cá, o que vemos é um quase nada, a turma parece que só quer axé, pagode e desfilar em shoppings e aqueles que vivem na margem do processo econômico matam-se em bailes funk ou reverberam suas mazelas em rap e hip hop mirando-se como primos pobres dos negros americanos, seus ídolos são Mike Jordan, Will Smith e outros mais descolados.

     Mas se essa critica pode ser considerada radical por aqueles que enxergam em meu pensamento uma visão limitada do processo, eu pergunto então, juventude onde estás que não me respondes? Cadê a UNE? Virou pelega do PT? E os novos líderes? Parece que há uma grande escassez deles, pois nas universidades o que mais se vê é apologias a Che Guevara, Carlos Marighela, Fidel Castro, Paulo Freire, lideres que já se foram, um tornou-se ditador e que pertenceram a uma época em que a juventude bradava com consciência e fazia-se ouvir. Infelizmente essas idolatrias juvenis não ocorrem por saudosismo porque nossos rapazes não viveram o apogeu de seus mitos, ela simplesmente ocorre porque a geração oitenta não criou líderes, preferiu curtir o carnaval alienante de Salvador e suas filiais Brasil afora, ouvir um forró pasteurizado, um sertanejo texano ou se render aos músicos oxigenados que vendem seus produtos às emissoras de TV e rádio. Essa geração definitivamente não quer mudar o país, contudo espero, Deus queira que eu esteja errado!

     Agora voltemos um pouco no tempo, estamos em 1968 época de jovens talentosos e destemidos que sabiam das coisas, nesse ano entra em ebulição no Rio de Janeiro um movimento musical denominado MAU – Movimento Artístico Universitário, entre seus líderes destacavam-se Luiz Gonzaga Junior, Aldir Blanc, César Costa Filho e Ivan Lins, todos tiveram êxito em suas carreiras e hoje são grandes legendas da nossa musica popular. Vamos aqui nos ater a um deles apenas, objeto dessa matéria, Ivan Lins. Carioca, nascido em 16 de junho de 1945, esse jovem sessentão iniciou bem sua carreira conquistando quinto lugar com um samba intitulado Até o amanhecer, no I Festival Universitário da Guanabara e defendido por nada mais que Ciro Monteiro.

     Nesse mesmo ano conheceu Ronaldo Monteiro de Souza e com ele compôs varias canções dentre elas Madalena seu primeiro grande sucesso e um dos marcos também da carreira de Elis Regina. O respeito adquirido pelo seu talento o levou a gravar seu primeiro disco em 1971 no selo Forma/Philips dirigido por Paulinho Tapajós. Nesse LP Ivan Lins interpreta os primeiros grandes êxitos de sua carreira como Madalena, O amor é meu país, musica de cunho ufanista que gerou criticas na imprensa e de alguns colegas músicos na época, porem sagrando-se vice-campeã da fase nacional do I Festival Internacional da Canção realizado no Rio de Janeiro neste ano de 1971, Agora, música titulo do LP também gravada com sucesso por Evinha na mesma ocasião e A próxima atração, canção tema de uma novela da Rede Globo.

     Neste inicio de trajetória percebemos em Ivan Lins um interprete forçando uma voz rouca e imitando um soul gutural, típico de quem quer se firmar na carreira e buscar uma identidade, com o passar dos anos, deixou essas interpretações forçadas deixando sua voz fluir de modo mais natural. Quase todas as canções do disco são com Ronaldo Monteiro de Souza e apesar de não demonstrarem o tom político que iria marcar sua produção a partir da segunda metade dos anos setenta com Victor Martins nos revela um jovem artista com pleno domínio de sua musicalidade realizando um trabalho inovador e surpreendente pela qualidade do material apresentado. Ivan Lins na época não era um líder estudantil, mas teve sua formação ligada a uma geração que criticava com firmeza os anos duros do regime militar, contudo se não foi um militante explicito na ocasião, tão pouco era alienado pois tornou-se menos de uma década depois um dos responsáveis pela trilha sonora da abertura política brasileira e de outras canções fortes que denotam seu grau de engajamento social e sua inquietude em denunciar e propor mudanças de rumo ao país.

     Seu disco de estréia portanto pode ser analisado como romântico, conceitual e datado mas é belo como obra e histórico por representar o sucesso de um jovem compositor que saiu dos bancos da faculdade para ganhar o mundo com seu talento, além de ser o melhor exemplo do que aquele MAU fez de bem para o Brasil. E hoje o que nos resta?

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 18 de abril de 2006.


Músicas:


01) Salve, salve (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
02) Agora (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
03) Emy (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
04) Minha história (Ivan Lins/Arthur Verocai/Paulinho Tapajós)
05) A próxima atração (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
06) Novamente nós (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
07) Corpo-folha (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
08) O amor é meu país (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
09) Madalena (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
10) Baby blue (Otávio Bonfá/Ivan Lins/Paulinho Tapajós)
11) Hei, você (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza/Sidnei Matos)
12) Tanauê ou se um índio fosse consumido pela civilização moderna (Rolando Faria/Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)




Ficha Técnica

Direção de produção: Paulinho Tapajós
Arranjos: Arthur Verocai
Técnicos de gravação: Ary Carvalhaes/João Moreira/Mazzolla
Estúdio: CBD
Fotos: João Carlos Castrioto
Layout: Nilo Jorge

Comente esta matéria