Discos Fundamentais
Inezita Barroso
Vamos falar de Brasil - 1958


     Redescobrir o Brasil para os brasileiros esse deveria ser um tema de destaque em nossas escolas, nos canais de televisão, nas revistas, enfim em todos os meios que se pudessem utilizar para que possamos conhecer melhor e com mais profundidade a nossa pluralidade cultural. As iniciativas nesse sentido ainda são tímidas pois o foco maior de atenção sempre recai na cultura urbana como a mais representativa do modo de ser e de se expressar de nossa gente. A cultura interiorana geralmente ligada ao folclore tem sua importância relativizada e é tratada sempre como elemento de proselitismo ou falso interesse cultural geralmente por aqueles que a divulgam, é o exótico representado e tomando conta dos lares da cidade.

     Ora, convenhamos que é subestimar muito o potencial e a diversidade cultural brasileira, quando se toma esses elementos como parâmetros, chega ser até depreciativo, ou seja, é como se fosse algo de menor importância, divulgado apenas para nos entreter com o exótico, com um Brasil desconhecido para grande maioria e que acaba sendo visto apenas como um elemento de representação lúdica, mas sem grande importância. Em nossas escolas na semana do folclore só se fala em sacis, mulas-sem-cabeça, caiporas etc.. há anos que isso não muda, seja por inércia de nossos professores que se acomodaram em fazer tudo sempre igual e não querem inovar, seja por, e é ai que mora o problema desconhecimento mesmo.

     Não se interessam, apenas brincam e fazem repetições de temas sem levar em conta que não estão contribuindo nem desenvolvendo um aprendizado condizente com a percepção da diversidade e apenas reproduzindo o que nossos avós já sabiam, assim o Brasil verdadeiro vai ficando cada vez mais distante das novas gerações e quando se apresenta invariavelmente é visto com uma certa, digamos, desconfiança ou apenas como símbolo de uma cultura que não se alcança e por isso mesmo acaba sendo esquecida ou relegada a um plano inferior.

     Em se tratando de musica popular muito já se fez para a manutenção de nossas raízes e sua divulgação nos grandes centros urbanos, porém, tinha-se o cuidado de manter-se a pureza da musicalidade, mesmo que se fizesse alguma adaptação, contudo, sem descaracterizá-la. No entanto o que vemos hoje em dia principalmente na musica sertaneja que apesar de ser uma manifestação artística parida no interior e consagrada na cidade é a completa ou quase total ausência de uma referencia rural mais explicita, já que foi glamourizada pelos seus intérpretes acabando por se tornar uma caricatura do homem do interior e uma cópia quase integral do vaqueiro texano, é como se fosse uma vergonha nacional basear-se em ícones como Jararaca e Ratinho, Mazaroppi, Alvarenga e Ranchinho e tantos outros que contribuíram para a plena identificação e junção entre o homem do campo e da cidade, fazendo com que o urbano percebesse que há sim características diferentes nas duas formas de ver e vivenciar a realidade mas que se completam nas suas diferenças essências formando o que chamamos ser o homem brasileiro integral.

     Com estes pressupostos analisados ou apenas refletidos (melhor seria esta segunda opção) temos tido ao longo de nossa história musical heróis que não se deixam levar pelas conveniências do sucesso fácil e buscam manter vivas as nossas tradições, e neste aspecto o nome de Inezita Barroso alcança uma grande dimensão pelo trabalho que vem realizando há mais de cinqüenta anos, por isso mesmo escolher dentre seus inúmeros discos aquele que melhor represente essa trajetória é difícil, contudo, um em especial merece destaque, trata-se de Vamos falar de Brasil, lançado em 1958 pela Copacabana. O título e o repertório por si só já reafirmam algumas de nossas opiniões.

     São doze canções que procuram demonstrar a nossa diversidade musical representadas por um time de compositores dos mais brilhantes. Do potiguar Oswaldo de Souza, temos Retiradas, inspirada num motivo de aboio nordestino; Peixe vivo, é do folclore mineiro e uma das peças mais conhecidas do nosso cancioneiro, marca registrada do governo Juscelino Kubistchek e sempre relacionada ao presidente; Engenho novo, é outro tema folclórico, trata-se de um coco muito conhecido e adaptado pelo compositor alagoano Hekel Tavares; Zabumba de nego, é um jongo de Hervé Cordovil, lançado por Inezita neste disco e nos remete ao interior das celebrações africanas em nosso chão; Lampião de gás, é uma das mais conhecidas e singelas de nossas canções, nela esta inscrito todo um retrato simples das pequenas cidades interior e uma homenagem a São Paulo de outrora, é de autoria da compositora paulista Zica Bergami lançada também por Inezita Barroso neste LP demonstrando seu faro para descobrir e revelar talentos; Ismália, é uma poesia de Alphonsus de Guimarães musicada por Capiba, notável compositor pernambucano; Festa de congado, de Juracy Silveira, outra compositora lançada no disco é uma cena de congado do interior de Minas Gerais com arranjo de Hervé Cordovil que procurou recriar o seu sentido coreográfico, com o Rei do Congo, os palanquins, o trono, a corte e as bailarinas.

     A canção Temporal, de Paulo Ruschel faz referencia a dura vida de nossos pescadores; Lua, luá, de Catulo de Paula é uma cantiga de feira que narra as façanhas de um cangaceiro; Azulão, de Jayme Ovale e Manuel Bandeira, faz uma homenagem a este pássaro de cor azulada, uma das aves símbolos do Brasil, é um clássico da musica brasileira muito divulgada em emissoras de radio e em apresentações, mas que foi gravada pela primeira vez neste disco por Inezita Barroso; Seresta, de Georgina Mello Erismann, como seu próprio titulo diz é uma bela canção que nos remete as noites claras de luar recriando o clima bucólico de nossas serenatas, por fim temos Moda da pinga, de Laureano, inúmeras vezes regravada, referencia do gênero sertanejo e que tornou-se um dos carros chefe de Inezita Barroso, interpretada obrigatoriamente em todas as suas apresentações. Tudo isso acompanhado pelo violão de Inezita, os arranjos de Hervé Cordovil, o regional de Miranda e a orquestra e coro da Radio Record
Muito bem! Só nos resta, portanto, ouvir e festejar este belo disco agora disponível em CD. Dizer mais o que? Apenas celebrar e falar de Brasil, para que possamos conhecer cada vez mais profundamente nosso país. Quanto a Inezita! Ah! Ela é o Brasil por inteiro sem retoques!!!

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 22 de novembro de 2005.


Músicas

01)Retiradas (Oswaldo de Souza)
02)Peixe vivo (Folclore mineiro)
03)Engenho novo (Tema folclórico/Adap. Hekel Tavares)
04)Zabumba de nego (Hervé Cordovil)
05)Lampião de gás (Zica Bergami)
06)Ismália (Alphonsus de Guimarães/Capiba)
07)Festa do congado (Juracy Silveira)
08)Temporal (Paulo Ruschel)
09)Lua, luá (Catulo de Paula)
10)Azulão (Jayme Ovale/Manuel Bandeira)
11)Seresta (Georgina Mello Erismann)
12)Moda da pinga (Laureano)




Ficha Técnica

Arranjos: Hervé Cordovil
Violão: Inezita Barroso
Regional de Miranda
Orquestra e Coro da Rádio Record
Gravado nos estúdios da Radio Record de São Paulo
Produtor fonográfico: Copacabana Discos

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