Discos Fundamentais
Gilberto Gil - Louvação
1967


     Na maioria das vezes quando um compositor/intérprete esta em ínicio de carreira ele produz excelentes frutos já que está com todo seu vigor criativo, pleno de inspiração, deixando fluir suas idéias e pensamentos da maneira mais espontânea possível, além do que seus primeiros trabalhos são o espelho de sua intensa preocupação em firmar-se num cenário competitivo e também a demonstração dessa sua sensibilidade que esta aflorando de modo crescente, trata-se, portanto, de seu cartão visita e que será julgado pelo publico.

Quando a trajetória já esta timidamente iniciada fica faltando o ponto culminante que é a gravação de um disco onde serão apresentados os resultados dessa caminhada. É por isso que os primeiros trabalhos sempre balizam a carreira futura de um artista e se tornam em muitos casos emblemáticos, já que demonstram a sua personalidade e o seu talento. Porém, mesmo que após os passos iniciais o compositor ou intérprete estabeleça novos rumos a sua carreira, ficará para sempre a referencia inicial e essa será no futuro contextualizada dentro do conjunto da obra.

Nos seus primeiros anos como compositor Gilberto Gil produziu algumas canções, sozinho ou com parceiros que revelaram um espírito critico e romântico ao mesmo tempo. Eram músicas na sua maioria ingênuas, podemos dizer até, sem vícios, repletas de uma pureza que se tornarão com o passar do tempo e o amadurecimento, pueris por demais, porem, não devemos analisá-las apenas sob esse prisma e sim entendê-las de acordo com a época e o pensamento ideológico que o artista tinha na ocasião em que as fez.

O primeiro LP de Gilberto Gil lançado em 1967 e intitulado Louvação é na realidade uma coletânea de canções que ele havia feito entre 1964 e 1966 algumas já conhecidas, contudo, sua apreciação de forma fragmentada não proporcionava uma imagem mais aprofundada desse seu repertório, dessa maneira ao reuni-las num único disco o público pode observar com mais acuidade não somente os primeiros momentos de inspiração do compositor e intérprete baiano, como também as suas idéias, seu pensamento e o seu universo lírico/musical. Trata-se de um disco pré-tropicália, movimento cultural em que ele foi um dos mais importantes personagens ao lado de Caetano Veloso.

Curioso notar que mesmo depois de incorporar novas sonoridades à sua musica, uma poética mais moderna e menos tradicional, além de uma atitude performática/contestadora, este disco de Gilberto Gil não foi ofuscado pelos trabalhos futuros produzidos em plena ebulição tropicalista, muito pelo contrário, ele representa a essência de um artista que já nasceu genial e que só fez agregar a essa genialidade novas formas de representá-la, mas sem perder a pureza original, a matéria bruta de seu talento.

Reunindo doze musicas o LP nos revela canções como a própria Louvação em parceria com Torquato Neto e que da nome ao disco; Roda, um belo samba de protesto, típico daqueles anos contestadores, feito com o poeta João Augusto e Lunik 9 composta em homenagem ao pouso de um satélite soviético na Lua, no limiar da conquista espacial, revelando desde já o interesse que Gilberto Gil teria em temas relacionados ao cosmos. Com uma letra muito interessante a música tem um tratamento épico/romântico em que o autor demonstra a preocupação sobre o fim das noites de luar e dos mistérios e encantamentos da lua, já que ela foi finalmente alcançada pelo homem.

Merece ainda uma atenção especial Água de Meninos com poesia de Capinam retratando de modo romântico um dos locais mais tradicionais de Salvador, a feira popular que da o titulo da canção e insinuando em forma de protesto seu incêndio pelos poderes públicos para dar vazão a especulação imobiliária; Beira mar, com Caetano Veloso onde se observa uma nítida influencia de Dorival Caymmi; Procissão, um baião com temática regional, inspirada nas procissões do interior, mas com um toque ideológico/marxista ao sugerir religião como ópio e alienação de um povo.

Por fim este trabalho do então jovem compositor Gilberto Gil nos revela um artista plural, com talento suficiente para viajar por diversos ritmos, como, samba, marcha, marcha rancho, baião e canções românticas tradicionais entrando para a galeria dos mais importantes trabalhos de nossa musica popular contemporânea por registrar um painel abrangente da intensa brasilidade deste artista notável.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 29 de setembro de 2004.


MÚSICAS:
1) Louvação (Gilberto Gil e Torquato Neto)
2) Beira mar (Gilberto Gil e Caetano Veloso)
3) Lunik 9 (Gilberto Gil)
4) Ensaio geral (Gilberto Gil)
5) Maria (Gilberto Gil)
6) A rua (Gilberto Gil e Torquato Neto)
7) Roda (Gilberto Gil e João Augusto)
8) Rancho da rosa encarnada (Gilberto Gil, Torquato Neto e Geraldo Vandré)
9) Viramundo (Gilberto Gil e Capinan)
10) Mancada (Gilberto Gil)
11) Água de Meninos (Gilberto Gil e Capinan)
12) Procissão (Gilberto Gil)

Ficha Técnica

Arranjos: Dori Caymmi e Carlos Monteiro de Souza
Voz e violão: Gilberto Gil

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