Discos Fundamentais
Geraldo Vandré
Canto Geral - 1968


     Com a deflagração do golpe militar em 31 de março de 1964 a exatamente 40 anos, o panorama da sociedade brasileira iria mudar radicalmente, a começar pelas sanções impostas pelos novos governantes no que tange às liberdades democráticas, impondo gradativamente um silêncio autoritário que iria fazer calar as vozes mais brilhantes do país, em todos os campos do conhecimento. As contradições do regime recém imposto iriam se tornar bem evidentes quando anunciaram a possibilidade de eleições diretas em 1965 e logo depois sufocaram os anseios da população mantendo as forças armadas sob o comando do exército no poder. Essas e outras atitudes como a cassação de deputados, as restrições a imprensa e às artes, notadamente na música popular, geraram uma insatisfação que tinha na universidade seu apelo maior. Vivíamos em constante tensão, o que era legal hoje, poderia não ser amanhã, nossos passos eram vigiados, e nossas consciências manipuladas.

     Mas com todo esse clima o Brasil conseguia sobreviver com uma efervescência cultural extraordinária, e a porta vez da insatisfação era capitaneada pela música popular que vivia momentos gloriosos, principalmente em função do sucesso dos Festivais que eram realizados pelas emissoras de televisão. A produção musical brasileira estava dividida em dois extremos, aqueles que se vinculavam ao iê iê iê sob a influencia dos Beatles e os outros que se preocupavam com as questões sociais e que passariam a história como os compositores de uma vertente denominada de música de protesto.

     O maior expoente dessa canção arrebatadora e que criticava abertamente o regime foi Geraldo Vandré, artista típico de uma geração contestadora e que sabia muito bem qual o seu papel na sociedade e a importância da mensagem que a sua arte tinha para fazer valer seus direitos de cidadão livre em face de uma repressão contínua, aliando a tudo isso os graves problemas de ordem social, política e econômica em que vivia o país.

     O ano de 1968 inicia-se prometendo ser um período de transformações radicais interna e externamente, e isso torna-se visível quando jovens de vários países, inspirados nas manifestações em Paris ocorridas no mês de maio, iriam às ruas propor mudanças e uma sociedade livre. Nesse contexto chega às lojas de disco do Brasil o LP Canto Geral, de Geraldo Vandré, o disco mais politicamente engajado dos anos duros da ditadura militar. Logo na primeira faixa na música Terra Plana, ele mostra suas intenções ao afirmar: "deixo claro que a firmeza de meu canto vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza, foi que me fez cantador", segue-se depois Companheira e Maria Rita, duas canções que referem-se a cumplicidade do amor, seja nas aflições ou nas dificuldades da vida proletária, em seguida uma bela mensagem em De Serra, de Terra e de Mar feita com Theo de Barros e Hermeto Pascoal e depois Plantador com Hilton Acioli, música que se enquadraria muito bem se fosse cantada pelos líderes do MST pois toca fundo na questão agrária do país, aliás esse é um tema que percorre todo o disco. Contando com a participação do Trio Maraya, o disco traz nos seus arranjos o sangue nordestino do autor, e uma das faixas que mais caracterizam essa afirmativa é o frevo João e Maria. Em Ventania e Guerrilheira, ambas com Hilton Acioli, e Arueira e Cantiga brava, Geraldo Vandré atinge o limite máximo de sua militância ideológica, em textos panfletários que se tornaram fundamentais para se compreender aquele período histórico, vejamos alguns: "O terreiro lá de casa não se varre com vassoura, varre com ponta de sabre e bala de metralhadora" (Cantiga brava); "é a volta do cipó de arueira no lombo de quem mandou dar" (Arueira); "já soltei o meu cavalo, já deixei a plantação, eu já fui até soldado e hoje muito mais amado sou chofer de caminhão" (Ventania).

     Canto Geral, é um disco que marcou uma época, lançado em 1968 antes do AI 5 sua mensagem continua firme e forte até hoje, precisando no entanto ser redescoberto pelas novas gerações que estão em busca de seus ideais e carecem de uma manifesto musical que os impulsione e possa mostrar-lhes o caminho. É ouvir e conferir. A venda nas melhores lojas do ramo!

Luiz Américo Lisboa Junior

Músicas:

01- Terra plana
     (Geraldo Vandré)
02- Companheira
     (Geraldo Vandré)
03- Maria Rita
     (Geraldo Vandré)
04- De serra, de terra e de mar
     (Geraldo Vandré/Theo de Barros/Hermeto Pascoal)
05- Cantiga brava
     (Geraldo Vandré)
06- Ventania
     (Geraldo Vandré/Hilton Aciolli)
07- O plantador
     (Geraldo Vandré/Hilton Aciolli)
08- João e Maria
     (Geraldo Vandré/Hilton Aciolli)
09- Arueira
     (Geraldo Vandré)
10- Guerrilheira
     (Geraldo Vandré/Hilton Aciolli)



Ficha Técnica

Canto Geral

Diretores de arte (Capa) – George Torok, Fernando Lemos, Moacyr Rocha
Nivaldo Duarte – Som
Edgar e Marconi – Viola caipira
Cleon – Oboé e cone inglês
Bering – Canto, ca-chi-chi, tan-tan, queixada de burro, reco reco e triangulo
Marconi – Canto, viola, tan-tan, pau, Chama e arranjos instrumentais
Hilton Aciolli – Canto, violão e arranjos vocais
Trio Maraya – Acompanhamento vocal

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