Discos Fundamentais
Egberto Gismonti
Água & Vinho
1972




     Renovação é uma palavra que sempre esta na moda pois toda vez que um modelo se mostra desgastado a sociedade pede para que novas alternativas sejam criadas a fim de buscar novos caminhos até encontrar, digamos, o ponto ideal. Isso é muito comum na política e na maioria dos casos o que era uma esperança renovadora transforma-se em pesadelo terrível e de conseqüências desastrosas, é o que estamos vivenciando atualmente, um processo continuo de desesperança nas instituições políticas e em seus protagonistas, desde o mandatário chefe ate aqueles que se dizem “representantes do povo”. Contudo, já dizia o poeta, a esperança é a ultima que morre, no Brasil ela já há muito agoniza numa UTI e as perspectivas de sobrevida são mínimas, mas enfim, sem redundância, enquanto há esperança há vida, vamos portanto, seguir adiante.

     Os renovadores porém, não ocorrem ou tentam camufladamente ocorrer apenas na política, mas em todos os segmentos, principalmente nas artes, vejamos por exemplo as diversas escolas de pintura que se formaram ao longo do século XX, as tendências literárias, a estética arquiteturial e a música. Esta última principalmente no Brasil a partir da segunda metade da década de cinqüenta será totalmente renovada e como conseqüência irá nortear os rumos de nossa canção popular durante todo o período seguinte, e é justamente nos anos sessenta que ela vai enfrentar novas batalhas modernizadoras com tropicália bananas ao vento e inúmeros protestos numa grande festa de arromba que irá sacudir o país revelando e ampliando os conceitos daquilo que se projetava como um modelo de nacionalidade, plural, rica e contraditória.

     Nos anos que se seguiram ao grande barato dos sessenta o nosso céu de anil foi iluminado com o ufanismo do eu te amo meu Brasil, fantasiado com retalhos de cetim, estimulado ao crescimento demográfico com o pare de tomar a pílula, arrombando a festa e provocando todo o clímax do período com uma retomada nostálgica de um tempo ainda vivo buscado nos ideais paternos para justificar o vazio idelogico reinante, por isso que queríamos ser como nossos pais ou vivendo como um bêbado e um equilibrista. No meio de todas essas desesperanças/esperanças a musica ia se renovando mas mantendo ao mesmo tempo um tradicionalismo profundo, era necessário uma ruptura, lenta, gradual e irrestrita, para não chocar os puritanos bossanovistas/tropicalistas/jovenguardistas e breguistas de então, algo precisava ser feito, e alguém o estava fazendo com muita competência, amadurecendo o estilo, conservando um certo academicismo musical e literário, mas renovando a estética de nossa canção e que iria dar o toque diferencial dos anos setenta. Egberto Gismonti é o personagem em questão e sua musicalidade invadiria os lares com muita sutiliza mas depois se firmaria criando uma nova tendência, uma escola, assim se transformava a musica brasileira com um artista não muito popular para a maioria, mas o que importa não é a sua popularidade e sim a qualidade e o talento, atritubutos que ele tinha e tem ainda de sobra.

     No inicio dos anos setenta ele já era um artista conceituado inclusive no exterior e sua musica renovadora foi batizada de progressista misturando o rigor acadêmico com novas buscas sonoras e uma inquietude criativa muito intensa. Arranjador, instrumentista, compositor e intérprete em 1972 lança pela Odeon seu terceiro disco Água & vinho, nesse trabalho ele da vazão a sua inquieta inventividade viajando pelo Brasil com um show homônimo baseado no repertorio do LP, marcando uma das primeiras tentativas de se levar ao publico brasileiro algumas concepções de free-jazz realizando vários improvisos com inumeros instrumentos ao mesmo tempo. O disco é o resultado de um trabalho extremamente sério, não somente em termos musicais, mas técnica também, recebendo aplausos da critica e conseguindo um êxito popular além das expectativas. A faixa titulo Água e vinho é uma composição de linguagem romântica e moderna com letra de Geraldo Carneiro, parceiro mais constante de Egberto Gismonti nessa ocasião provocando-nos um clima de reflexão e relaxamento difíceis de definir.

     Durante todo o disco podemos perceber o virtuosismo de Egberto no piano, bem como a beleza de suas composições e arranjos, notadamente em Ano zero, um dos pontos máximos do trabalho em que a fusão de percussão, lirismo e orquestra se completam de modo brilhante, onde o belo é permanente e profundo. Frederico segue no mesmo clima lírico/reflexivo e em Janelas de ouro, temos a fusão do free-jazz com elementos percussivos do baião. O disco encerra uma fase importante da carreira de Egberto Gismonti que iria dar saltos cada vez mais inovadores em sua estética musical, contudo, é um trabalho que rompe com um modelo musical já enraizado trazendo-nos um padrão estilístico que amadureceria e seria responsável pelos novos caminhos conceituais que a musica popular iria tomar influenciando uma nova geração de compositores.

     Água e vinho não é apenas um disco para se ouvir, tem que senti-lo, compreendê-lo em plenitude apreciá-lo em suas minúcias, pois ali esta o Brasil renovado, enfim é uma obra prima da arte musical brasileira onde a nossa raiz se faz presente em todos os sentidos, por isso que talvez no inconsciente do artista não tenha sido mera coincidência finalizar o LP com Mulher rendeira, uma de nossas mais tradicionais canções em um arranjo ousado e definitivo.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna 8 de fevereiro de 2006.



MÚSICAS:
01) Ano zero (Egberto Gismonti/Geraldo Eduardo Carneiro)
02) Federico (Egberto Gismonti/João Carlos Pádua)
03) Janela de ouro (Egberto Gismonti/Geraldo Eduardo Carneiro)
04) Vila Rica 1720 (Egberto Gismonti/Geraldo Eduardo Carneiro)
05) Prum samba (Egberto Gismonti)
06) Água e vinho (Egberto Gismonti/Geraldo Eduardo Carneiro)
07) Volante (Egberto Gismonti/Geraldo Eduardo Carneiro)
08) Eterna (Egberto Gismonti)
09) Tango (Egberto Gismonti/Geraldo Eduardo Carneiro)
10) Mulher rendeira (Arranjo e adaptação Egberto Gismonti)



Ficha Técnica

Produtor fonográfico: Gravadora Odeon
Produção e direção: Egberto Gismonti

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