Discos Fundamentais
João Donato
Lugar comum
1975



     No mundo em que vivemos as pessoas dão um imenso valor ao sucesso, a serem uma celebridade, palavra que ficou em moda nos últimos tempos como se essa fosse a única e irremediável maneira se tornar alguém na vida, conseguir um lugar ao sol, principalmente no campo artístico. Ser famoso é quase uma necessidade orgânica para muita gente que tenta uma carreira seja na musica, teatro, cinema ou televisão. Contudo na grande maioria das vezes o sucesso e a fama vêm sempre acompanhados de uma grande vaidade, sentimento comum a todos mas que em doses exageradas prejudica a imagem e torna muitas vezes o artista um arremedo de si mesmo, ou seja, um ser artificial.

     Daí ser verdadeiro a sempre propalada teoria de que os verdadeiros artistas não precisam utilizar a exaustão os recursos e as facilidades da mídia para se tornarem reconhecidos, mesmo porque ele se impõe pelo seu talento e não pela força de uma publicidade, de um jabá, ou qualquer outro meio que utilize a sua imagem como mercadoria. Muitos ainda vendem sua arte e sua imagem pública sem nenhum escrúpulo, o que importa é estar permanentemente em evidencia, custe o que custar, e para isso vale aceitar o jogo de revistas especializadas em vidas alheias, programas televisivos de péssima qualidade e fazer o jogo das gravadoras onde a arte é apenas um referencial financeiro em seus lucros, se der prejuízo, troca-se por outro produto e pronto.

     Evidente que isso não pode ser considerado como uma regra geral no meio artístico, existem, claro, exceções, e são elas que fazem a diferença e continuam se mantendo sem se venderem ou vulgarizarem-se artisticamente, mas preservando a qualidade de seu trabalho e dando-se o devido valor, ou seja não leiloam seu talento. Infelizmente quem age assim não esta nas rádios ou nas televisões, para esses artistas isso não é tão relevante, mesmo porque seu mercado acaba internacionalizando-se e vão receber os aplausos de outras platéias que sabem reconhecer um verdadeiro talento e uma boa música, que o diga os japoneses, os maiores apreciadores de nossa melhor canção, principalmente da Bossa Nova, que no Brasil saiu das rádios e televisões e foi parar nos livros, que por sinal nem todos lêem.

     Não adianta citar nomes daqueles que se respeitam musicalmente, mas basta falar de João Donato que verificaremos que esse acreano é uma unanimidade nacional quando se quer tratar de boa musica brasileira. Sua obra é significativa e respeitabilíssima, possui um repertório da melhor qualidade e seus discos são sempre referencia do que há de melhor em nossa canção popular.

     Em 1975 ele lançou um LP com doze musicas a maioria com Gilberto Gil, dentre elas, Lugar comum, um verdadeiro e autentico sucesso e que da nome ao disco. São canções que demonstram o virtuosismo de um compositor notável e que faz dele um dos nossos mais reverenciados artistas. A Bahia se faz presente não apenas nas parcerias de Gil e Caetano, com quem fez a bela Naturalmente, mas ainda em Xangô é de Baê, samba feito com Ruben Confete e Sidney da Conceição, onde a citação da Ilha de Maré nos remete a um dos mais belos locais da Baia de Todos os Santos. Gil também participa nos vocais em Tudo bem, A bruxa de mentira e Patumbalacundê.

     Ouvir Ê menina, feita com Gutemberg Guarabira e Lugar comum, são um prazer tão indescritível que so se compara a uma brisa refrescante sob o sol e o azul celeste das praias de Salvador, como Piatã, Placafor ou Itapoã, deixando-se embalar nos mais puros sentimentos de comunhão com a natureza.

     Em Bananeira, música também divinamente gravada e interpretada com sucesso por Emilio Santiago, temos um desses raros momentos em que o talento passa de mãos em mãos e se firma sempre. Emoriô é o ritmo baiano em permanente demonstração de vigor e autenticidade. Da vontade de sair dançando e se deixar envolver completamente pelo som dos nossos afoxés.

    O disco conta ainda com a participação de músicos da mais alta qualidade, como Novelli, no baixo; Wilson das Neves, na bateria; Copinha, na flauta e Rosinha de Valença, no violão.

    Com sambas e canções estilizados e uma autenticidade e sonoridade inigualáveis, este trabalho de João Donato é para se ouvir sempre, pois ele se enquadra naquelas obras que quanto mais se ouve mais se gosta, não importa o tempo de sua realização. Perfeito!

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 10 de novembro de 2004.

Músicas:

1) Lugar comum (João Donato e Gilberto Gil)
2) Tudo tem (João Donato e Gilberto Gil)
3) A bruxa de mentira (João Donato e Gilberto Gil)
4) Ê menina (João Donato e Gutemberg Guarabira)
5) Bananeira (João Donato e Gilberto Gil)
6) Patumbalacundê (João Donato, Gilberto Gil, Durval Ferreira e Orlandivo)
7) Xangô é de baê (João Donato, Ruben Confete e Sidney da Conceição)
8) Pretty dolly (João Donato e Norman Gimbell)
9) Emoriô (João Donato e Gilberto Gil)
10) Naturalmente (João Donato e Caetano Veloso)
11) Que besteira (João Donato e Gilberto Gil)
12) Deixei recado (João Donato e Gilberto Gil)




Ficha Técnica

Direção de produção: Tobi
Arranjos: João Donato
Técnicos de gravação: João Moreira, Luigi e Luiz Cláudio
Assistentes de gravação: Paulinho e Zé Guilherme
Corte: Joaquim Figueira
Estúdio: Phonogram
Capa: Aldo Luiz Fotos: Luiz Garrido
Arte final: Jorge Viana
Logotipo título "João Donato": Rogério Duarte

Músicos:

Teclados: João Donato
Guitarra: Frederiko
Baixo: Novelli
Bateria: Wilson das Neves e Aladim
Percussão: Alberto das Neves e Luis Carlos
Flautas: Celso, Leny, Geraldo, Jorginho e Copinha
Trumpete: Formiga
Sax soprano: Netinho
Sax tenor e clarone: Aurino e Bijou
Sax barítono: Genaldo
Trombones: Maciel, Bogado e Flamrion

Participações especiais:
Rosinha de Valença: Violão
Gilberto Gil: Vocal

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