Discos Fundamentais
Clube da Esquina
1972



     Corria o ano de 1963 e um jovem carioca criado em Minas Gerais saia da cidade onde morava, a bucólica Três Pontas, e vai para Belo Horizonte, a capital do Estado em busca de novas oportunidades e sonhos a conquistar. Foi com esse intuito que Milton Nascimento partiu para encontrar seu rumo. Ao chegar à capital das alterosas foi morar numa pensão no edifício Levy, situado na Avenida Amazonas. Lá tomou contato com outros jovens da família Borges que como ele também buscavam seu caminho na estrada da vida. Nessa ocasião Milton já participava com seu companheiro Wagner Tiso de um conjunto denominado W's Boys e ao enturmar-se com os irmãos Borges, principalmente com Márcio Borges, que também já faziam suas experiências sonoras no campo da composição e da poesia, surgiu uma amizade que iria gerar num futuro muito próximo um dos mais belos movimentos musicais da canção brasileira.

     A amizade com Márcio Borges trouxe ao convívio de Milton Nascimento outros jovens mineiros como Tavinho Moura, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Beto Guedes, além de Lô Borges, irmão de Marcio e que desde menino demonstrava muito talento.

     A ambiência musical e política brasileira nos anos sessenta era propícia ao surgimento de movimentos culturais contestadores e renovadores, destacando-se entre eles a Tropicália liderada pelos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil. Nessa época os festivais de música popular eram a oportunidade que jovens artistas tinham para mostrar seu trabalho e consolidar a carreira. Foi o que fez Milton Nascimento ao se inscrever no III F.I.C. Festival Internacional da Canção Popular, conquistando o 2º lugar na parte nacional com a música "Travessia", feita em parceria com Fernando Brant.

     Paralelo à sua atividade em outros palcos, Milton continuou freqüentando um pequeno boteco situado na esquina da rua Divinópolis com a rua Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza, Belo Horizonte, onde com os amigos de boemia e música faziam um novo som que o Brasil inteiro logo iria aplaudir, deixando marcas profundas na história da nossa canção popular. Essa confraria de amigos foi batizada de Clube da Esquina, em função do local e das constantes reuniões ali formadas que mais pareciam mesmo um clube onde todos iam discutir temas de interesse mútuo.

     Estávamos nos fins da década de sessenta e alguns dos integrantes do Clube já davam demonstrações da sua força poético/musical, não só na capital mineira, mas também no cenário nacional, sendo o seu integrante mais ilustre Milton Nascimento. Mas o talento de Milton por si só não seria suficiente para renovar e impor um novo modelo ao cenário musical e seus parceiros já estavam prontos, e o repertório também, para realizar um trabalho que iria dar uma nova visibilidade à música brasileira, e foi justamente entre os anos de 1970 e 1971 que eles se reuniram e prepararam um número de canções que pretendiam lançar num álbum duplo, uma façanha para a época.

     Esse lançamento ocorreu em 1972 com o disco Clube da Esquina, um marco da música popular brasileira, inaugurando e consolidando ao mesmo tempo um movimento musical que trouxe a nossa canção renovação estética e melódica, onde se fundiam ritmos e tradições mineiras brasileiríssimas, numa mistura de rock progressivo com música popular, resultando num trabalho tecnicamente perfeito e de qualidade excepcional Entre os destaques do álbum podemos citar as canções "Tudo que você podia ser", "San Vicente", "Cais", "Nuvem cigana", "Cravo e canela", "Nada será como antes", "Paisagem da Janela", "O trem azul" e "Um girassol da cor de seu cabelo", músicas que já fazem parte de nossos clássicos contemporâneos e que o tempo não as deixa envelhecer.

     Com direção musical de Lindolfo Gaya, e orquestrações de Eumir Deodato e Wagner Tiso o LP Clube da Esquina abre um novo caminho na música popular, revelando em suas canções um regionalismo de conotação universal, emocionando a todos que o ouvem, sentindo pulsar fortemente o espírito da tradição mineira tão bem revelada. Se a Tropicália trouxe para o Brasil o nosso sentimento nativista com as cores e a irreverência da Bahia, o Clube da Esquina consolidou um modelo de renovação musical, com um grupo de notáveis poetas/compositores, demonstrando com competência a multiplicidade de nossas tradições artísticas realizando a trilha sonora de nossa nacionalidade, so que desta vez com um pouco de tutu, feijão com couve, torresmo e frango com quiabo, em vez do acarajé e vatapá, uai!

Luiz Américo Lisboa Junior

Músicas:

Tudo que voce podia ser
(Lô Borges e Márcio Borges)
Milton Nascimento

Cais
(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
Milton Nascimento

O trem azul
(Lô Borges e Ronaldo Bastos)
Lô Borges

Saídas e bandeiras nº 1
(Milton Nascimento e Fernando Brant)
Milton Nascimento e Beto Guedes

Nuvem cigana
(Lô Borges e Ronaldo Bastos)
Milton Nascimento

Cravo e canela
(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
Milton Nascimento e Lô Borges

Dos cruces
(Carmelo Larrea)
Milton Nascimento

Um girassol da cor de seu cabelo
(Lô Borges e Marcio Borges)
Lô Borges

San Vicente
(Milton Nascimento e Fernando Brant)
Milton Nascimento

Estrelas
(Lô Borges e Marcio Borges)
Lô Borges

Clube da Eesquina nº 2
(Milton Nascimento e Lô Borges)
Milton Nascimento

Paisagem da janela
(Lô Borges e Fernando Brant)
Lô Borges

Me deixa em paz
(Monsueto e Ayrton Amorim)
Alaíde Costa e Milton Nascimento

Os povos
(Milton Nascimento e Márcio Borges)
Milton Nascimento

Saídas e bandeiras nº 2
(Milton Nascimento e Fernando Brant)
Milton Nascimento e Beto Guedes

Um gosto de sol
(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
Milton Nascimento

Pelo amor de Deus
(Milton Nascimento e Fernando Brant)
Milton Nascimento

Lília
(Milton Nascimento e Fernando Brant)
Milton Nascimento

Trem de doido
(Lô Borges e Márcio Borges)
Lô Borges

Nada será como antes
(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
Milton Nascimento e Beto Guedes

Ao que vai nascer
(Milton Nascimento e Fernando Brant)
Milton Nascimento.




Ficha Técnica

Clube da Esquina (1972)

Produtor Fonográfico:
Indústrias Elétricas e Musicais Fábrica Odeon S/A
Diretor de Produção: Milton Miranda
Diretor Musical: Lindolfo Gaya
Orquestradores: Eumir Deodato e Wagner Tiso
Regente: Paulo Moura
Diretor Técnico: Z. J. Merky
Técnico de Gravação: Nivaldo, Jorge e Zilmar
Técnico de Laboratório: Reny R. Lippi
Lay-out: Gafi
Fotos: Cafi e Juvenal

Músicos:
Lô Borges – violão
Tavito – Guitarra de 12 cordas e violão
Toninho Horta – Guitarra e baixo
Nelson Ângelo – Guitarra, surdo e piano
Wagner Tiso – Órgão e piano elétrico
Beto Guedes – Baixo e guitarra
Robertinho - Bateria
Luiz - Caxixi
Rubinho - Tumbadora

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