Discos Fundamentais


Carlos Lyra
Depois do carnaval
1963


     Existe muito questionamento em como se podem definir as características essências de um povo/nação. Na maioria das vezes busca-se atentamente observar seus modos, sua cultura, suas tradições, e daí tira-se, portanto o seu perfil. O Brasil, por exemplo, durante muitos anos foi considerado um país de selvagens, uma mata tropical onde habitavam índios antropófagos e seu povo era considerado como exótico e de pouca cultura. Essa percepção esta bem demonstrada nos relatos dos primeiros viajantes europeus que nos visitavam ainda no tempo da colônia. Posteriormente essas conceituações foram mudando e à medida que o mundo evoluía, os meios de comunicação iam encurtando as distancias e o século vinte avançava, fomos caracterizados e rotulados como o país do futebol e do carnaval. Continuávamos, no entanto, ainda sendo observados com uma visão estereotipada daqueles que se consideravam arautos do saber, conservadores das velhas tradições e também dos ricos emergentes como os Estados Unidos que apesar de seu fantástico progresso econômico e tecnológico não tinha uma população culturalmente bem informada já que suas preocupações estavam voltadas únicas e exclusivamente para seus próprios interesses, o resto lhes era irrelevante já que a América se lhes bastava e pronto.

     Alheio a essas observações nossa gente ia vivendo dentro de suas possibilidades, cultuando também suas tradições, mantendo a identidade e buscando valorizá-la cada vez mais. O mundo para nós era a representação de povos que deram certo em suas conquistas culturais e econômicas, mas que também viviam seus conflitos e contradições o que neste aspecto se diferenciava pouco da gente. O advento da segunda guerra mundial levou o Brasil a participar com mais intensidade de algumas decisões mundiais, apesar de nossa subserviência e dependência, porem, emplacamos na musica popular Carmen Miranda e Ary Barroso passando a sermos mais percebidos internacionalmente.

     Com o fim do conflito e início da guerra fria o mundo caminhava numa direção de reconstrução econômica e reestruturação política, os anos cinqüenta chegam então com ventos promissores em vários campos e não ficamos alheios a essas transformações, era chegada a nossa vez, tínhamos que mostrar que estávamos vivos para o mundo. Nesse contexto surge uma vanguarda musical riquíssima que insinua seus primeiros passos a partir de 1954 e tem sua culminância em 1958 com o lançamento do LP Chega de Saudade, de João Gilberto, era a Bossa Nova que se estabelecia definitivamente proporcionando mudanças comportamentais profundas no modo de viver do povo brasileiro. A nossa juventude respirava as mudanças de clima, 50 anos em 5, era o lema, tínhamos que sair do atraso e irmos definitivamente para o desenvolvimento, nessa empolgação colaborando com suas lindas melodias e sua pose de galã surge um novo astro da canção, Carlos Lyra, violonista exuberante e compositor de muito talento.

     Aos poucos ele foi se firmando e suas músicas muito executadas personificou-o como um legitimo representante de um movimento musical que ajudou a fundar e que mudaria os rumos de nossa canção popular. Seus primeiros discos demonstram a força de seu poder criativo com lindas melodias e letras simples, singelas e de um lirismo envolvente. Inquieto como todo jovem no desabrochar da sensibilidade enveredou também por outros caminhos como o teatro e o cinema compondo trilhas que se tornaram famosas e essenciais para a perfeita compreensão do período que se estendia entre o fim da década de cinqüenta e o início da seguinte. Após ter lançado dois LPs de muito sucesso grava em fins de 1962 na Philips seu terceiro disco intitulado Depois do Carnaval que pode ser avaliado como o resultado final dessa sua primeira fase. Com arranjos de Luiz Eça, a participação de Nara Leão e do Tamba Trio, o disco nos apresenta um compositor eclético engajado nos movimentos culturais da época com uma profunda reflexão social, mas sem deixar o lado lírico/sentimental.

     Ativo participante do CPC - Centro Popular de Cultura, da UNE - União Nacional dos Estudantes, Carlos Lyra amplia sua visão critica em relação ao Brasil e participa do musical Um americano em Brasília, de Chico de Assis e Nelson Lins de Barros compondo varias canções como, Subdesenvolvido, proibida pela censura, É tão triste dizer Adeus, Promessas de você e Maria do Maranhão, esta última retratando na figura da Maria as vitimas da seca com suas desventuras e esperanças de uma vida melhor no Sul do país, todas as três canções em parceria com Nelson Lins de Barros e presentes no LP.

     A música titulo Depois do Carnaval, também com Nelson Lins de Barros e Quem quiser encontrar o amor, com Geraldo Vandré são a trilha sonora do episódio Couro de Gato do filme Cinco Vezes Favela de Joaquim Pedro de Andrade. Com Vinicius de Moraes compõe a Marcha da quarta feira de cinzas, uma música de saudade, de apelo, alegria e esperança. Em Influencia do Jazz, Carlos Lyra revela-se um nacionalista musical criticando a perniciosa influencia jazzística em nossa canção notadamente no samba a partir da Bossa Nova provocando grande polemica. Com Ronaldo Bóscoli assina Canção que morre no ar, Se é tarde me perdoa e Sem saída, três canções tipicamente bossanovistas, também com Geraldo Vandré compõe Aruanda um samba maracatu/moderno com claras influencias afro. Em suas incursões pelo teatro musicou a peça A mais valia vai acabar seu Edgar, de Oduvaldo Viana Filho, destacando-se O melhor mais bonito é morrer. Por fim ainda o disco ainda nos traz a marchinha Mundo a parte e o samba Gostar ou não gostar, duas musicas com sua marca inconfundível.

     Este LP de Carlos Lyra como podemos observar não é apenas um trabalho a mais em sua carreira de sucesso, é um marco da musica brasileira e um registro da revolução cultural que se operava no país e que seria perseguida implacavelmente dois anos depois a partir de 1964.

Luiz Américo Lisboa Junior.
Itabuna, 22 de junho de 2005.

Músicas:


1) Depois do carnaval (Carlos Lyra/Nelson Lins de Barros)
2) Influencia do jazz (Carlos Lyra)
3) É tão triste dizer adeus (Carlos Lyra/Nelson Lins de Barros)
4) Gostar ou não gostar (Carlos Lyra)
5) Mundo à parte (Carlos Lyra/Nelson Lins de Barros)
6) Aruanda (Carlos Lyra/Geraldo Vandré)
7) Canção que morre no ar (Carlos Lyra/Ronaldo Bôscoli)
8) Quem quiser encontrar o amor (Carlos Lyra/Geraldo Vandré)
9) O melhor mais bonito é morrer (Carlos Lyra/Oduvaldo Viana Filho)
10) Sem saída (Carlos Lyra/Ronaldo Bôscoli)
11) Marcha da quarta feira de cinzas (Carlos Lyra/Vinicius de Moraes)
12) Promessas de você (Carlos Lyra/Nelson Lins de Barros) - c/Nara Leão
13) Se é tarde me perdoa (Carlos Lyra/Ronaldo Bôscoli)
14) Maria do Maranhão (Carlos Lyra/Nelson Lins de Barros)


Ficha Técnica

Produção: Carlos Lyra
Direção musical: Luiz Eça
Direção artística: Armando Pittigliani
Técnico de gravação: Célio Martins
Engenheiro de som: Sylvio Rabello
Lay-out: Paulo Breves
Foto: Mafra
Texto da contra-capa: Nelson Lins de Barros
Acompanhamento: Tamba Trio
Participação especial: Nara Leão em Promessa de você.

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