Discos Fundamentais
Candeia
Axé!
1978


     Durante muitos anos a pesquisa sobre o samba e sua importância na música popular ficou sob a responsabilidade de uns poucos jornalistas/pesquisadores que sobre ele se debruçaram e buscaram deixar para as futuras gerações um pouco de sua história. Passados um longo tempo e superados os preconceitos que a academia sempre nutriu pelo campo de investigação histórica da musica popular brasileira por considerá-la como algo menor, sem importância, vemos que se não fosse a iniciativa de bravos combatentes em prol de sua preservação muito se teria perdido e a memória nacional, pelo menos neste aspecto, estaria seriamente comprometida. Felizmente esses heróis conseguiram despertar o interesse dos intelectuais de plantão, os donos do saber total que se arvoravam no direito de serem os únicos e dignos responsáveis pela fiel interpretação das coisas pátrias, para alertá-los do perigo que representava o pouco caso dado a cultura popular como símbolo de identificação social de nossa gente.

     Ao longo do tempo e no próprio universo dos músicos e compositores muitos se preocupavam em não apenas atuarem como realizadores e divulgadores de suas próprias obras, mas também em estudar seu objeto de trabalho e realização desenvolvendo projetos que visassem a sua perpetuação fundamentadas na manutenção de suas raízes como forma de preservar sua própria identidade, passando aos seus herdeiros a tradição de seus antepassados e assim não deixar que com o passar do tempo elas caiam no esquecimento ou se adequem a uma realidade que é não a sua e acabem por fim em se descaracterizando totalmente.

     Um dos grandes batalhadores pela conservação do samba tradicional, aquele que foi trazido por negros africanos para o Brasil foi o sambista carioca Antonio Candeia Filho. Em toda a sua curta mais profícua existência de 43 anos ele procurou sempre preservar essa tradição ancestral e para isso não só a retratou em suas obras como também a estudou tornando-se um mestre do assunto.

     Em 1978 ele realizaria um belíssimo trabalho procurando sintetizar todo esse seu sentimento preservacionista. Para isso reuniu um grupo de instrumentistas e intérpretes de primeira grandeza e gravou o disco Axé, que em língua iorubá, significa, força, energia, movimento. Em sete faixas ele desfila um rosário de canções magníficas trazendo de volta grandes nomes como, Paulo da Portela, figura legendária do samba carioca, morto em 1949 e que é lembrado com um de seus mais significativos sambas, Ouro desça do seu trono, segue depois adiante fazendo seu resgate glorioso com Ouço uma voz, de Nelson Amorim, Beberrão, de Molequinho e Aniceto, fundadores da escola de samba Império Serrano e Vivo isolado do mundo, belo trabalho de Alcides Dias Lopes, cantando ao lado de Manaceia, outro grande personagem da história do samba.

     Compositor excepcional, Candeia mostra todo seu talento em musicas memoráveis como Dia de graça, Pintura sem arte e Gamação. Ciente de sua responsabilidade na manutenção da tradição do samba traz para a gravação do disco a Velha Guarda da Portela e reproduz fielmente o ambiente de um legítimo pagode onde não faltam a improvisação, a caixa de fósforos, o partido alto e a beberagem de cervejas representadas pelo barulho explícito de copos e garrafas. Para completar esse cenário do mais puro espírito do samba temos ainda a participação de Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e um naipe de músicos que inclui dentre outros, Marçal, no pandeiro e no tamborim, Wilson das Neves, na bateria, João de Aquino, no violão e Copinha, na flauta.

     Lutador incansável Candeia nos deixou em 1978 o mesmo ano de lançamento desse seu último disco uma obra fundamental e das mais importantes da música popular brasileira. Sua força e perseverança fazem falta hoje em dia, mas como todo grande mestre deixou seguidores e um legado poético/musical que não morre nunca, pois estará sempre presente onde houver uma verdadeira e autentica roda de samba e na memória daqueles que como ele souberam e sabem cultivar nossas mais puras e legitimas representações artísticas. Axé!


01 - Pintura sem arte
       (Candeia)
02 - Ouro desça do seu trono
       (Paulo da Portela)
       Mil réis
       (Candeia/Noca)
03 - Vivo isolado no mundo
       (Alcides “Histórico”)
       Amor não é brinquedo
       (Candeia/Martinho da Vila)
04 - Zé tambozeiro
       (Candeia/Vadinho)
05 - Dia de graça
       (Candeia)
06 - Gamação
       (Candeia)
       Peixeiro granfino
       (Bretas/Candeia)
       Ouço uma voz
       (Nelson Amorim)
       Vem amenizar
       (Candeia/Waldir 59)
07 - Invocado
       (Casquinha)
       Beberrão
       (Aniceto do Império/Mulequinho)



Ficha Técnica

Candeia - Axé!

Produção: João de Aguino
Direção de produção: Guti
Co-produção: Jodeli Muniz
Direção de gravina: Edeltrudes Marques (Dudu)
Manipulando os botões de gravação: Vitor e Toninho
Auxiliares de gravação: Rafael, Filé e Cláudio
Na birita e no café: Seu Manuel
Arregimentação e grande força: Zezinho
Cobrando os trabalhos na coxia: Lena Frias, Clovis Scarpino e Francisco Vieira
Rainha dos quitutes: Leonilda
Gravado nos estúdios Transamérica no Rio de Janeiro
Coordenação de capa: Cláudio Carvalho
Arte: Lobianco
Foto: Ivan Cardoso
Arte final: Ruth Freihof
Surdo: Gordinho
Pandeiro: Testa
Tamborim: Marçal e Luna
Cuíca: Marçal
Repique de mão: Doutor
Repique de pau: Carlinhos
Tumbadora: Geraldo Bongô
Agogô: Canegal
Bateria: Fernando e Wilson das Neves
Apito: Candeia
Violão de 7 cordas: Valter

Violão de 6 cordas: João de Aquino
Cavaco: Volmar
Flauta: Cpinha
Bandolim: Niquinho

Convidados especiais:
Clementina de Jesus, Manacea, D. Ivone Lara, Chico Santana, Casquinha, Alvaiade, João de Aquino e Velha Guarda da Portela.

Coro: Tufy, China, Inácio, Laís, Vera, Nadir e Marli

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