Discos Fundamentais


Ataulfo Alves e seus Sucessos
1960


     Passam-se os anos, a vida corre, os tempos mudam, os heróis ficam esquecidos, novos hábitos são adquiridos, a sociedade se transforma, a história contudo mantêm sua imperecível vocação para recordar, recontar, contextualizar e manter vivo o passado, dando-lhe a dimensão necessária para que as novas gerações possam compreender melhor o universo que as cerca, percebendo que mesmo com tantas modificações de comportamento o homem jamais atingiria seu estagio atual se não fossem aqueles que o precederam e contribuíram para seu avanço em direção ao futuro. Assim é e sempre será o mecanismo da vida, a incessante roda da existência que permite que a humanidade se renove fundamentada na simplicidade da evolução dos tempos e na compreensão de que somos frutos daqueles que ficaram e com as experiências acumuladas seremos os responsáveis diretos para os que virão.

     Mas se essa é a inevitável e única forma de evoluirmos devemos então aproveitar o máximo a experiência que nos é dada pela divindade para que possamos chegar a plenitude realizando os nossos objetivos que são fazer os outros felizes, contribuir para um mundo melhor e mais justo, tentar diminuir ao máximo as nossas imperfeições ficando atentos para que elas se sublimem ao longo da vida e darmos no final o exemplo de uma existência plena para quando retornarmos a essência espiritual possamos levar apenas o que construímos de bom, ou seja os valores morais que amealhamos enquanto estivemos vivenciando as experiências da existência corporal.

     Muito bem! Essas são apenas algumas impressões iniciais sem rodeios ou maiores pretensões para afirmamos ainda que os atos humanos são conseqüência em sua grande maioria gerada pelos legados daqueles que os antecederam, como insinuamos, e que as influencias são inevitáveis pois servem como espelho ou modelo para aqueles que o sucederem, isto é um fenômeno que ocorre em todos os campos da atividade humana e nas artes ele se manifesta de modo muito contundente materializando-se quando se fazem as comparações entre quem fez e quem faz, ou seja, entre o criador primário e aqueles que seguiram seu estilo.

     Percorrendo esse caminho é que traçaremos o perfil de um dos maiores criadores da musica popular brasileira, Ataulfo Alves, o homem que deu um estilo requintado ao samba, que o vestiu com grifes antes que a Bossa Nova o fizesse, transformando coisas simples em melodias e versos inesquecíveis e de beleza plástica minimamente inigualáveis. Mineiro da cidade de Mirai nascido em 20 de abril de 1909, teve uma infância dura e simples ao mesmo tempo, precoce, desde muito garoto já fazia seus primeiros versos respondendo de improvisos os criados por seu pai, Severino Alves, violeiro, sanfoneiro e repentista da Zona da Mata que lhe transmitia então o dom da criação artística. Em 1927 vai residir no Rio de Janeiro trabalhando como ajudante de farmácia tornando-se logo um prático na profissão. A atividade porem apesar de lhe render meios de sobrevivência não lhe satisfazia plenamente desse modo passou a freqüentar a noite e as rodas de samba, conhecendo artistas e apresentando suas primeiras composições. Em 1933 Almirante, cantor, compositor e radialista grava sua primeira musica, Sexta feira e logo em seguida em 2 de maio do mesmo ano Carmen Miranda emenda com outra composição do jovem e talentoso sambista, Tempo perdido.

     O caminho estava traçado, o sucesso seria apenas uma mera conseqüência e ele chegou com o samba Saudades de meu barracão, gravado pelo estreante interprete Floriano Belham. A partir de então Ataulfo Alves tornava-se um nome nacional e um dos mais importantes e requisitados compositores de nosso cancioneiro, reinou quase absoluto nos anos quarenta, manteve-se em evidencia constante nos anos cinqüenta e na década de sessenta com os louros conquistados tornava-se glorioso, imortal, referencial.

     Desfilar todos os sucessos de sua carreira seria uma tarefa que não caberia nessas poucas linhas, contudo, as mais significativas, se assim as podemos chamar, foram imortalizadas pelo ele próprio num disco da gravadora Sinter lançado em 1960 com um titulo simples, comum, mas definidor, Ataulfo Alves e seus sucessos. São doze canções, apenas um apêndice de sua vasta obra, mas que revela a sua importância enquanto criador, musicas que ficaram para sempre guardadas na memória de nossa gente não importando o tempo transcorrido de sua criação, pois fazem parte do memória afetiva do povo brasileiro. Desse modo arrisco-me a afirmar com plena convicção que ao citar os títulos da maioria das canções do LP todos irão entoar seus primeiros versos lembrando-se da melodia, cantando e lendo este texto que deixa de ter pretensão literária e passa a ser musical. Vamos a elas, Sei que é covardia, Vida da minha vida, Mulata assanhada, Meus tempos de criança, Leva meu samba, Atire a primeira pedra, Ai que saudades da Amélia, Saudade dela.

     Agora que já cantaram vamos voltar ao texto finalizando-o dizendo apenas que ao se lembrarem das canções é porque Ataulfo Alves já é um símbolo e uma referencia da cultura brasileira confirmando-se sua atemporalidade alem de sua influencia passada, presente e futura e não adianta me desmentir nem achar que há neste comentário louvores em excesso, afinal de contas, foram vocês mesmos que cantaram as composições desse notável artista, eu simplesmente dei aqui um empurrãozinho.

     Portanto, quem pensa que Ataulfo, cuja voz se calou em 2 de maio de 1969 não esta mais entre nós engana-se redondamente, pois ela esta viva e vibrante no coração e na alma de todos, quem duvidar que Atire a primeira pedra!

     P.S. Síntese de todo brasileiro que se preza, goste ou não: “Quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”. É isso aí!

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 15 de dezembro de 2005.

Músicas:


01) Sei que é covardia (Ataulfo Alves/Claudionor Cruz)
02) Vida da minha vida (Ataulfo Alves)
03) Mulata assanhada (Ataulfo Alves)
04) Meus tempos de criança (Ataulfo Alves)
05) É hoje (Ataulfo Alves/Dunga)
06) Caminhando (Ataulfo Alves)
07) Leva meu samba (Ataulfo Alves)
08) Atire a primeira pedra (Ataulfo Alves/Mário Lago)
09) Vai na paz de Deus (Ataulfo Alves/Antonio Domingues)
10) Ai que saudades da Amélia (Ataulfo Alves/Mario Lago)
11) Sai do meu caminho (Ataulfo Alves)
12) Saudade dela (Ataulfo Alves)


Ficha Técnica

Produtor fonográfico: Companhia Brasileira de Discos – Sinter
Capa: Ronald
Texto da contra-capa: Alberto Rego

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