Discos Fundamentais


Ary Barroso
Meu Brasil Brasileiro
1959



     A história de um país se constrói com as realizações de sua gente, suas lutas, conquistas, sua educação, enfim tudo que lhe levará a um amadurecimento intelectual e econômico proporcionando a seus protagonistas, ou seja, seu povo as melhores condições de vida possíveis para que possam ser felizes. É evidente que esse processo na maioria das vezes encontra alguns obstáculos que estão enraizados no âmago de seus próprios elementos constitutivos, e aqueles que deveriam zelar pelo bem estar de todos, e conseqüentemente de si próprios acabam falindo em suas iniciativas gerando desconforto, insegurança quanto ao futuro, deixando um rastro de incúrias e desserviço pátrio que irão manchar-lhes a biografia e atrasar o ritmo de desenvolvimento da nação, esse quadro infelizmente vem se agravando nos últimos tempos, quando se percebe que os interesses pessoais prevalecem em relação aos interesses e direitos da maioria.

     Quando se chega ao extremo de tais iniqüidades o país mergulha inexoravelmente numa profunda crise moral, os costumes antes preservados como células de grandeza e honradez se deterioram proporcionando resultados lamentáveis. Contudo, existe sempre a possibilidade de se perceber a tempo o perigo que se instala promovendo ações no sentido de combatê-las, nesse momento deve-se ter um sentimento altruísta com relação à pátria extirpando-lhes seus miasmas e conferindo-lhe a cura moral, para isso é necessário que se esteja com todas as instituições funcionando num regime de liberdade, mas de responsabilidade diante da nação, operando a justiça e conferindo a todos o direito de serem cidadãos livres, honestos, cônscios de seus deveres para consigo e com o país, só assim o crescimento se dará em plenitude e as pessoas viverão fraternalmente dividindo com seus irmãos os louros do progresso.

     Mas se essa seria a nação ideal, e sabemos que diante das imperfeições humanas ela demorará ainda muito tempo para se estabelecer, pelo menos, muitas iniciativas no sentido de tentar chegar a esse modelo já foram postas em prática, e um dos exemplos mais contundentes de se expressar o amor pelo país e respeito por seu povo é através da arte, protagonizando momentos de puro encantamento e estimulando o sentido da verdadeira nacionalidade para que possamos assim termos orgulho de nossas conquistas, de nosso chão, da terra abençoada que nos abrigou como filhos e que serão um dia de nossos descendentes quando nela não habitarmos fisicamente. A criação artística em seus níveis mais elevados aumenta substancialmente nossa auto estima, faz-nos felizes e estimula-nos a construir um país próspero e confiante.

     Muitos foram os personagens que trabalharam incansavelmente nesse sentido nas diversas expressões artísticas e dentre elas no caso do Brasil a música popular se destaca, pois, foi por muitos anos a porta voz dos nossos anseios e se fazendo presente nos momentos mais importantes de nossa história. Entre seus personagens destacamos o mineiro Ary Barroso cuja obra se confunde com as cores da nação de tal forma que passou a ser considerada patrimônio nacional, e, onde quer que se vá mundo afora, sua Aquarela do Brasil se faz presente, a tal ponto que muitos povos pensam ser a música o nosso hino oficial, mas se não é de fato, passa a ser de direito, tamanha a sua expressividade.

     Ary Barroso em sua existência construiu uma obra ampla e diversificada, foi gravado por grandes interpretes nacionais e internacionais, porem, deixou poucas gravações que perpetuariam seu virtuosismo como músico. Foram apenas quatro discos, todos excepcionais, portanto fundamentais, porém, destacaremos apenas o LP que gravou em 1959 na Odeon sob o título, Meu Brasil brasileiro, em que ele toca piano acompanhado de sua orquestra e coro.

     A direção artística foi de Aloysio de Oliveira, os arranjos do maestro Léo Perachi alem da participação eventual de Oswaldo Borba no piano. No repertório Ary Barroso nos proporciona um desfile de sucessos, Aquarela do Brasil, Perdão, Quando a noite é serena, É mentira ôi, Folha morta, Malandro sofredor, Na Baixa do Sapateiro, O correio já chegou, Sonho de amor, Faceira, Foi ela e Falta de consciência. Trabalho magnífico em que se observa todo o cuidado na condução das canções por ele orientadas ao maestro, bem como seu talento ao interpretar no piano a sua obra.


    Um disco que traduz perfeitamente o momento exuberante em que vivia a nação mergulhada num clima de euforia e desenvolvimento, reafirmando a afirmativa de que um país se faz grande quando grandes são seus homens, e Ary Barroso foi um desses gigantes que enquanto se fez presente entre nós não nos deixou dormir em berço esplendido, pelo contrário, nos fez dançar e cantar sua música e com ela se fez eterno dando-nos provas de que um povo pode sim fazer a diferença e construir uma pátria digna e feliz. O som de sua orquestra e as suas notas no piano, demonstram toda a força desse Brasil grande, ético, altaneiro. Que falta faz um Ary Barroso nos dias de hoje!


Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 1 de junho de 2005.


Músicas:

1) Aquarela do Brasil
2) Perdão
3) Quando a noite é serena
4) É mentira, oi
5) Folha morta
6) Malandro sofredor
7) Na Baixa do Sapateiro
8) O correio já chegou
9) Sonho de amor
10) Faceira
11) Foi ela
12) Falta de consciência


Ficha Técnica

Direção artística: Aloysio de Oliveira
Arranjos: Leo Perachi
Orquestra de Ary Barroso e coro
Participação: Oswaldo Borba no piano

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