Discos Fundamentais

OS CARIOCAS
A GRANDE BOSSA DOS CARIOCAS
1964


    Ultimamente temos ouvido com muita freqüência que a elite é uma das responsáveis pela crise política que toma conta do país, o presidente da república em sua retórica de botequim tem proclamado que são as elites que não desejam que seu governo dê certo, e portanto, torcem para que ele seja desmoralizado e com isso frustre seus projetos que na sua imaginação levariam a classe operária/trabalhadora ao paraíso. Chega a ser patético ouvir seus repetidos discursos todos sem consistência e contraditórios pois, a cada pronunciamento de Sua Excelência temos a impressão que ele desandou de vez no quesito lógica ou então perdeu totalmente o senso da razão. A onda de culpar as elites toma proporções cada vez maiores e já contagiou outros setores de poder, pois, até o presidente da câmara em sua senilidade resolveu seguir o exemplo do seu conterrâneo ao afirmar que as elites estão por trás de sua derrocada política, sinceramente acredito que essas pessoas vivem num mundo de fantasia, são autistas políticos, e nós que sobrevivemos, só Deus sabe como aqui na planície somos obrigados a conviver com essas sandices.

    Felizmente eles não sabem o que é elite, aliás, como seus níveis de conhecimento intelectual praticamente inexistem, eles nem se dão conta que eles estão criticando a si mesmos, afinal, se ser elite é sinônimo de privilégios e poder, eu pergunto, o que é que eles fazem? Vivem por acaso com seus “parcos” rendimentos, andam de ônibus, ficam nas intermináveis filas dos hospitais públicos? Moram miseravelmente nas periferias das grandes cidades? Não absolutamente, eles criticam a elite porque não sabem o que ela significa, nem o que eles próprios significam e nesse contexto exorbitam em sofismas achando que somos tolos. Pobres criaturas!

    Agora, se ser elite é gostar de uma boa musica, comer num bom restaurante, ter um salário digno que proporcione uma vida confortável à família, vestir-se bem, estudar em bons colégios, ter planos de saúde, casa própria, enfim tudo que um ser humano materialmente precisa para viver decentemente, então viva a elite! Afinal quem irá dizer que não gostaria de sobreviver com dignidade neste mundo tão desigual e indigno que habitamos? Pois é os nossos políticos ao criticarem a elite acabam sem querer cuspindo no próprio prato.

    Contudo, vamos nos ater aos privilégios que tanto “incomodam” (a aspas é proposital) nossos virtuais mandatários e proclamar que um dos grandes prazeres da vida é sem dúvida alguma desfrutar de uma boa musica, aquela que nos enleve, que nos deixe por um certo instante longe dos problemas mundanos do dia a dia proporcionando-nos uma viagem ao belo e causando uma satisfação e felicidade interior cujas sensações são difíceis de descrever mas que inebriam e revigoram o espírito.

    Esse frescor que acalentamos ao sentir uma bela canção penetrar suavemente nos nossos ouvidos pode muito bem ser traduzida por um solista, uma orquestra, um intérprete, ou um grupo musical cuja afinação e vocalização chegam às raias da perfeição causando-nos todas as emoções já descritas. Será que é utopia achar que existam artistas desse quilate, acredito que não, mas se não são absolutamente perfeitos, já que nada humano é perfeito, pelo menos, para nosso nível de sensibilidade eles se aproximam da perfeição. O Brasil, nunca é demais repetir, tem uma das mais belas musicas populares do planeta e na sua história produziu uma grande quantidade de artistas excepcionais, dentre eles, o grupo vocal Os Cariocas.

    Surgidos ainda na década de quarenta alcançou o apogeu da fama nos anos cinqüenta sob a liderança de Ismael Neto e após a sua morte em 1956 continuou em ascensão revelando-se indiscutivelmente como o grupo vocal de maior destaque durante os anos gloriosos da Bossa Nova. Durante os anos sessenta mantiveram um elevado nível de qualidade em seus trabalhos até 1967 quando se dissolveu. Retornaram em 1988 realizando algumas apresentações que foram interrompidas com a morte do contrabaixista Luis Roberto no mesmo ano. Em 1997 comemoraram 50 anos de atividade artística lançando um CD intitulado A bossa brasileira, e ainda realizam shows pelo país.

    Durante sua trajetória Os Cariocas tiveram várias formações, porém, mantendo seus principais integrantes.

    Primeira formação: Ismael Neto/Severino Filho Filho/Ari Mesquita/Salvador e Tarquínio;

    1º. Formação oficial: Ismael Neto/Severino Filho/Badeco/Waldir Viviani/Quartera;

     2º. Hortênsia Silva/Severino Filho/Badeco/Waldir Viviani/Quartera;

    3º. Severino Filho/Badeco/Waldir Viviani/Quartera

    4º. Severino Filho/Badeco/Luis Roberto/Quartera

    5º. Severino Filho/Edson Bastos/Badeco/Quartera

    6º. Severino Filho/Elói Vicente/Badeco/Quartera

    7º. Severino/Elói Vicente/Neil Carlos Teixeira/Quartera

    Em 1964 o grupo integrado por Severino Filho no piano, Luis Roberto no baixo, Badeco no violão e Quartera na bateria, gravam para a Philips um LP intitulado A grande bossa dos Cariocas, interpretando canções que se tornaram clássicas como Minha namorada , de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra; Samba de verão , de Marcus e Paulo Sergio Valle; Inútil paisagem e Só tinha de ser com você , de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira. Acompanhados por uma orquestra de cordas composta de 12 violinos, 4 violas e 4 cellos, destacando-se o spala Irany Pinto, o saxofonista Jorginho e o flautista Artur, Os Cariocas dão um impressionante show de vocalização notadamente em Tema pra quatro , de Severino Filho, onde o conjunto promove uma espetacular performance de canto sem palavras, ou de “scat timing” como chamam os americanos.

    O disco traz ainda canções inéditas de Roberto Menescal e Ronaldo Bóscoli, Nem o mar sabia ; Paulo Silvino e Wilson Trapelli, Insônia por Sonia ; Edu Lobo e Luiz Fernando Freire, Longe do Rio ; Marcus e Paulo Valle, E vem o sol ; Billy Blanco, Domingo azul ; Sergio Carvalho e Paulo Bruce, Ei, natureza! e Moça da praia , de Roberto Menescal e Luiz Fernando Freire.

    Aí esta portanto, posto a mesa, um belíssimo prato musical servido com muito molho e balanço por um dos nossos mais destacados grupos vocais cuja trajetória se confunde com a história recente da musica popular brasileira, cujo bom gosto e refinamento tornaram-nos unânimes em todas as classes sociais desfazendo o mito da elite intelectualizada, já que bom gosto não é apenas privilegio de alguns e sim de todos aqueles que sabem que o que é bom é permanente e deve ser cultivado sempre! Portanto, vida longa aos Cariocas e curta aos nossos políticos.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 21 de Setembro de 2004.

Músicas:

01)Minha namorada (Carlos Lyra/Vinicius de Moraes)
02)Samba de verão (Marcus Valle/Paulo Sergio Valle)
03)Inútil paisagem (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
04)Nem o mar sabia (Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)
05)Insonia por Sonia (Paulo Silvino/Wilson Trapelli)
06)Longe do Rio (Edu Lobi/Luiz Fernando Freire)
07)E vem o sol (Marcus Valle/Paulo Sergio Valle)
08)Tema pra quatro (Severino Filho)
09)Domingo azul (Billy Blanco)
10)Moça da praia (Roberto Menescal/Luiz Fernando Freire)
11)Ei, natureza! (Sergio Carvalho/Paulo Bruce)
12)Só tinha de ser com você (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)




Ficha Técnica

Produtor: Armando Pittigliani
Técnico de gravação: Célio Martins
Engenheiro de som: Sylvio Rabello
Capa: Francisco Pereira

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