Discos Fundamentais
Elis Regina e Jair Rodrigues
Dois na Bossa
1965


     Os dias eram difíceis após aquele 31 de março de 1964: o Brasil havia sofrido uma ruptura institucional, os quartéis tinham se rebelado, o ambiente político era de muita movimentação, um presidente havia sido deposto. A situação era muito grave. No entanto, para a grande maioria da população, a vida continuava. Era preciso seguir adiante, não ficar refém de fatos por mais que eles interferissem no cotidiano das pessoas. A história pregava uma peça muito dura ao desenvolvimento e consolidação democrática do país restabelecida após a constituinte de 1946. Teríamos que conviver com o arbítrio que chegaria de maneira contundente mais cedo ou mais tarde. Porém, era importante naquele momento que se continuasse a exercer enquanto havia possibilidades o direito a cidadania livre que ainda restava.

     O processo político retrocedeu. Mas a geração que acompanhou e sofreu com as agruras da ditadura recém empossada no Palácio do Planalto não iria se conformar com facilidade, e contrariando a estrada dos acontecimentos também faria sua própria história, fazendo o que mais gostava e realizando com competência música, teatro e cinema. Era um redescobrir cultural nascente enquanto vivíamos um retrocesso obscurantista crescente. No entanto, o futuro fez jus àqueles que com sua arte construíram a história do período e repudiou aqueles que tentavam impor-lhes censura, cabresto e ordem de idéias e comportamentos como se todos estivessem dentro de um quartel e não numa nação que se fazia grande pela liberdade e expressão de seus artistas.

     Apenas um ano depois da deflagração do golpe de março, nos dias 9, 10 e 11 de abril de 1965 estreava no Teatro Paramount de São Paulo, um espetáculo produzido por Walter Silva, tendo como astros Elis Regina, Jair Rodrigues e o Jongo Trio - formado pelo pianista Cido Bianchi, o contrabaixista Sabá e o baterista Toninho Pinheiro. Esse show foi a continuação de vários outros já realizados por Walter Silva quando arrendou o teatro no segundo semestre de 1964, a fim de promover espetáculos musicais voltados para o publico estudantil que recebiam parte da venda de ingressos para o custeio de seus bailes de formatura. A fórmula deu certo e todos saíram ganhando: os produtores, os estudantes e os artistas, muitos deles em inicio de carreira, e que tinham naquele momento oportunidade de apresentar seus trabalhos. Entre aqueles estreantes estavam Toquinho, Taiguara, Tuca e Chico Buarque. A lotação do teatro era para 1700 pessoas, mas o público lotava de tal maneira suas instalações que era comum ter-se pessoas em pé ou sentadas no chão, proporcionando uma média de 2000 pessoas por espetáculo.

     Os acontecimentos antes da estréia de Jair Rodrigues, Elis Regina e Jongo Trio foram marcados por intensa movimentação. O projeto inicial era Elis Regina, Zimbo Trio e Wilson Simonal. Mas estes dois últimos haviam assinado contrato com a Rhodia para uma excursão e não puderam se apresentar. A solução foi contratar o Jongo Trio e Baden Powell para acompanhar Elis. Só que Baden Powell preferiu viajar para a Alemanha, o que traria mais dificuldades para se encontrar um parceiro que dividisse o palco com Elis Regina. O problema acabou sendo resolvido após ela e Walter Silva terem assistido Jair Rodrigues na Boate Cave. Impressionaram-se tanto com a sua desenvoltura que acabaram contratando-o imediatamente.

     Naquele tempo Jair Rodrigues estava fazendo muito sucesso com a música "Deixa isso pra lá", de Adalberto Paz e Edson Menezes ("deixem que pensem, que digam, que falem, deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem, eu não estou fazendo nada, voce também, faz mal bater um papo assim gostoso com alguém"), em que interpretava com gestual de mãos que lhe marcou durante muitos anos a carreira. Acertado tudo, o show estreou. E o êxito, como já era esperado, foi muito grande, resultando num disco ao vivo cujo repertório combinava sambas tradicionais com músicas estilo Bossa Nova e um pout-pourri que ficou na história de nossa canção.

     Lançado pela Philips, o LP 2 na Bossa tornou-se o um fenômeno de vendas e um dos discos mais importantes de nossa música popular. Sua história merecia ser recontada. Só falta agora ouvi-lo. Para tanto basta comprar o CD com a gravação remasterizada e sentir o clima de uma fase da vida brasileira em que se misturavam intolerância, quarteladas e arte, sendo que esta última sobreviveu com dignidade, legando as gerações futuras talento, alegria e convicção de que somos uma grande nação. Quanto aos outros...

Luiz Américo Lisboa Junior
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